“O artista não é um vagabundo, mas, de fato, precisa ser livre”

Jovem compositor do primeiro time da MPB, Arthur Nogueira expõe a realidade na música

Arthur Nogueira (Foto: Ana Alexandrino/Divulgação)

Arthur Nogueira (Foto: Ana Alexandrino/Divulgação)

Cultura

Arthur Nogueira lançou no início deste ano uma composição sua com Fernanda Takai (que fez a letra) chamada Pontal.

O músico apresenta ainda no primeiro semestre composições inéditas com Zélia Duncan e Ronaldo Bastos. Uma outra solo chamada Salvador já subiu às plataformas digitais de música esse ano.

O jovem paraense de 31 anos lançou quatro álbuns desde 2015. Suas composições foram gravadas até agora por artistas como Gal Costa, Fafá de Belém (cantora que também produziu) e Cida Moreira.

Seus parceiros incluem ainda Ava Rocha, Antonio Cicero, Marina Wisnik, entre outros. Arthur Nogueira vai buscar em autores apurados sua inspiração musical.

No ano passado, ele apresentou um trabalho de voz e violão, chamado Coragem de Poeta, de compositores como Cazuza e Renato Russo, que resultou em show na Europa.

Contexto opressor

Arthur Nogueira é de uma geração que surge em um momento muito diferente de seus parceiros musicais, das cantoras que o interpretam e dos artistas que o influenciam. Seus projetos se desenvolvem em meio às mudanças do mercado e uma conturbada conjuntura.

“Se, por um lado, o contexto político é opressor, por outro, nós, artistas surgidos nos anos 2000, esbarramos em muitas dificuldades relativas ao mercado digital e à crise na indústria da música. Infelizmente, minha geração é cobaia de um novo momento, que não sabemos para onde vai.”

O músico afirma buscar profissionalização ao máximo e tomar as rédeas de seus projetos para colocar a criatividade em prática. O seu quarto álbum, o Rei Ninguém (2017), foi patrocinado pela Natura, mas os três anteriores foram com poucos recursos.

“É preciso se desligar dos antigos modelos da indústria fonográfica e tocar a vida de artista sem idealizações. Aprendi que, para colocar meu trabalho no mundo, eu não preciso ter, necessariamente, uma infraestrutura ideal”, diz.

“Para que pudessem se estabelecer no mercado, os artistas que gozaram do auge das gravadoras contaram com muito mais do que talento. Havia uma indústria poderosa por trás deles, com grandes departamentos de marketing e estratégias de promoção infalíveis, capazes de tornar até os esquisitos — ‘exquisitus’, em latim, tem o sentido de ‘requintado’ — vendáveis.”

Ele, por outro lado, crê que sua geração, por não ter a indústria de seu lado, tem compreensão clara da cadeia produtiva: “Sigo ligado no que há de bom, apesar do mal que nos espreita, e trabalho incansavelmente em prol do que me emociona de verdade, sem medo nem esperança. As conquistas têm mais valor assim”.

O projeto que desenvolveu no ano passado envolvendo Cazuza e Renato Russo, diz ter sido estimulante: “Interpretar esses autores foi reconfortante diante da demagogia reacionária e religiosa que toma conta do Brasil e ameaça as conquistas do Estado de direito, como a liberdade de expressão, as liberdades individuais, a autonomia da ciência e da arte, etc.”

Poesia

Ainda nesse projeto, em que fez voz e violão, diz ter ganho mais confiança para seguir em frente: “Nessa terrível conjuntura política, mantive um trabalho musical centrado na poesia”.

Aliás, sobre poesia lírica, diz ter pensando bastante no assunto recentemente. “Diferentemente dos trágicos, os líricos não cantavam os grandes feitos dos heróis e dos deuses. Eles cantavam, ao contrário, os pequenos fragmentos da vida cotidiana”, cita Arthur Nogueira, a partir de explicação dada por Antonio Cicero ao tema em um livro organizado pelo paraense e lançado em 2013 com entrevistas com o poeta e filósofo carioca.

“Ao invés da vitória em uma difícil batalha, a perda de um amor. Poderia até ser algo banal se uma obra lírica monumental, como a de Safo, não fosse capaz de atribuir a esses temas pretensamente menores a mesma dignidade das tragédias. Quando escrevemos sobre uma paixão não correspondida, acabamos por transformar essa sensação humana de impotência em poder de expressão.”

Aliás, as canções em parceria com Ronaldo Bastos e Zélia Duncan falam exatamente sobre a paixão.

“O artista não é um vagabundo, mas, de fato, precisa ser livre. Ele precisa da ‘paz essencial’, como diz Paul Valéry, ‘durante a qual os elementos mais delicados da vida se renovam e se reconfortam, durante a qual o ser, de algum modo, se lava do passado e do futuro, da consciência presente, das obrigações pendentes e das expectativas à espreita’”.

A produção musical do último álbum da conterrânea Fafá de Belém, Humana (2019), além dos shows, a cargo de Arthur Nogueira, pode parecer à primeira vista um pouco distante do trabalho mais denso do músico, mas ele afirma ter apresentado novas possibilidades à cantora.

“A fase mais popular da Fafá, chamada pejorativamente de ‘brega’ por muitos críticos, teve um papel importante e trouxe grandes belezas, que ouço sempre. Aliás, uma das coisas que mais admiro nela, além da voz, é sua capacidade de se reinventar e circular. Na verdade, meu trabalho foi no sentido de reiterar a grande cantora que ela é, sugerindo caminhos sonoros surpreendentes, que apresentassem seu canto pertinente e vigoroso.”

Nesse último projeto em que apresenta singles (o primeiro foi lançado em composição com Fernanda Takai, como dito), um de cada vez ao longo do semestre em um formato com o qual nunca trabalhou, Arthur Nogueira segue mais um caminho irreversível não só para sua mas para todas as gerações da música: “Ao apresentar o novo repertório dessa maneira, eu talvez facilite não só a divulgação como também faça com que as pessoas prestem mais atenção a cada faixa. O tempo dirá”.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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