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O artesão da cena

O premiado diretor Gabriel Villela reinventa o texto de Sêneca e leva aos palcos uma Medeia repleta de brasilidade

O artesão da cena
O artesão da cena
Estreia. O encenador, cenógrafo e figurinista apresenta Medea, grafada assim, sem o “i”, no Sesc, em São Paulo – Imagem: João Caldas
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Quando o assunto é teatro, o encenador, cenógrafo e figurinista Gabriel Villela pode conversar animadamente por horas. Terá sempre um comentário interessante sobre algum texto dramatúrgico, uma anedota a respeito de uma das mais de 50 montagens que dirigiu ou, ainda, a recordação de algum lugar visitado, como o famoso Teatro de Epidauro, na Grécia, e Praga, capital da República Tcheca, com sua herança barroca.

Premiado diretor teatral, ele já levou para os palcos textos de autores tão diversos quanto William Shakespeare, Luigi Pirandello, Samuel Beckett e ­Nelson Rodrigues, entre vários outros, sempre com uma teatralidade apoiada em características barrocas e um evidente toque de brasilidade na concepção da cena.

Sua montagem mais recente, Medea, na versão do filósofo estoico romano Sêneca para a tragédia do grego Eurípedes, estreia na sexta-feira 29 no Sesc Consolação, em São Paulo. A tradução escolhida é a do pesquisador português Ricardo Duarte, publicada pelas Edições 70 – por isso a grafia do nome sem o “i”. “Queria o texto em um português mais sisudo, mais robusto”, conta.

Apaixonado pela “prática da palavra”, Villela confessa que, uma vez escolhida a dramaturgia com a qual vai trabalhar, monta seus elencos com base na habilidade vocal dos intérpretes. “Ao chamar este ou aquele ator, estou escolhendo a palavra, estou escolhendo a voz.”

Três atrizes encarnam Medeia na peça, ressaltando-a em diferentes momentos. Rosana Stavis faz a personagem no auge da fúria, em Corinto; Mariana Muniz a interpreta no momento de feitiçaria, quando prepara os venenos, e Walderez de Barros, em participação especial, representa a protagonista na maturidade, de volta à sua cidade natal.

“O teatro, para mim, precisa ser como o avesso do bordado da minha mãe: perfeito”, diz

O mito de Medeia, cujas primeiras referências se encontram na Teogonia do poeta grego Hesíodo, obra datada do século VIII a.C., narra a história da princesa de Cólquida (atual Geórgia), também feiticeira, que se apaixona pelo argonauta Jasão. Depois de ajudá-lo a recuperar o Velocino de Ouro (um carneiro mitológico com pelagem dourada e propriedades mágicas), foge com o amado para a Grécia, onde se casa e tem filhos.

Em Corinto, Jasão abandona Medeia para unir-se a Creúsa, filha do rei Creonte. Como vingança, a feiticeira mata a noiva e o rei para então assassinar os próprios filhos. Se na tragédia de Eurípedes, apresentada no ano 431 a.C., a protagonista se mostra racional e ciente de seus atos, na obra de Sêneca, escrita cerca de quatro séculos depois, ela é guiada até o fim por emoções desmedidas – da paixão à ira.

“Sêneca joga em Medeia um conteúdo fortemente estoico”, afirma Villela, lembrando que as tragédias latinas não se limitavam ao entretenimento, servindo também para veicular ideias filosóficas. “Como heroína trágica, em Eurípedes, ela faz o que tem de ser feito e ponto. Em Sêneca, Medeia titubeia. Experimenta uma escalada de emoções que sai do eixo humano: ela vira um bicho.”

Ao longo da peça, a protagonista profere longos solilóquios permeados pelo ideá­rio do estoicismo, que pregava o controle das emoções. “Sêneca viveu os governos de Tibério, Calígula, Cláudio e Nero, de quem se tornou preceptor”, diz. “Viu aquele homem virar um monstro. Por viver dentro do palácio, testemunhou um ambiente atroz, animalesco. O teatro, para ele, torna-se um espelho daquela realidade.”

A situação do Brasil contemporâneo “como pólis” e a ausência de mais montagens brasileiras de Sêneca, conta ­Villela, motivaram-no a encenar o texto do filósofo. “A palavra dele, em Medea, é bonita demais.”

Elementos populares. A Rua da Amargura, encenada em 1994, foi uma das montagens em que dirigiu os artistas do Grupo Galpão, de Minas Gerais – Imagem: Redes Sociais/Grupo Galpão

Um elemento cenográfico reforça a pretendida potência da palavra: as cabaças trazidas de Minas Gerais, vasos de barro que remetem às ânforas gregas, espalhadas pelo palco. “As ânforas eram o princípio da acústica do teatro grego”, diz. “O coro fala com a cabeça voltada para baixo por dois motivos: primeiro, porque veste a máscara, elemento essencial da cultura cênica da época; segundo, para dirigir a voz para dentro desses vasos.”

O cenário, idealizado por José Carlos Serroni, combina alusões gregas – a exemplo das ruínas de teatros e palácios, como o do rei Minos, em Creta – e referências do circo-teatro, como o picadeiro, evocando as memórias do menino Gabriel na fazenda da família em Carmo do Rio Claro, no interior mineiro, onde nasceu.

Villela deixou Minas Gerais no início dos anos 1980 para estudar direção teatral na Universidade de São Paulo, mas Minas nunca o abandonou. As cores e as paisagens da fazenda, as tosquias das ovelhas, os bordados da mãe, os cortes da tia modista, os tecidos em trama espinha-de-peixe típicos da cidade, a arte barroca das igrejas de São João del Rei, tudo isso constitui a base de suas escolhas estéticas e continua a aparecer, sobretudo, nos figurinos de suas peças.

“Os paninhos”, termo com o qual ele se refere aos tecidos, telas e outros materiais têxteis, lhe provocam um autêntico entusiasmo. No espaço cultural Vila Ouro Preto, no Bixiga, em São Paulo, onde o grupo ensaiava Medea, Villela montou seu ateliê em um amplo cômodo do andar superior e fez dele um espaço de invenção. Lá, criou 27 vestuários.

“Busco seguir uma espécie de antropologia do pano, usando tecidos que carregam memória, alguma história inscrita – um xale, um caminho de crochê, uma capa de almofada”, afirma. Para os figurinos de Medea, ele conta que passou cerca de cinco meses no sítio em Carmo do Rio Claro pesquisando materiais. “Entrei no mato e saí com sementes, cipós, cascas de madeira, pau-brasil”, brinca.

No início da trajetória teatral, ainda em sua cidade natal, Gabriel Villela integrou o Grupo Raízes, apresentando-se em festivais de teatro amador no sul de Minas. Embora nunca tenha fundado nenhum coletivo teatral, dirigiu vários grupos de destaque na cena brasileira, como Galpão, de Belo Horizonte, Clowns de ­Shakespeare, de Natal, e Os Geraldos, de Campinas.

O diretor conta que, ao escolher um ator ou uma atriz escolhe, na verdade, uma voz

Em Romeu & Julieta, o primeiro espetáculo realizado com o Grupo Galpão, Villela entrelaçou Shakespeare, elementos da cultura popular brasileira e um linguajar característico do sertão mineiro. A peça, que estreou em Ouro Preto em 1992, foi apresentada mais de 300 vezes no Brasil e no exterior. Teve também duas curtas temporadas no Shakespeare’s Globe Theatre, em Londres, no ano 2000 e em 2012.

“Foi fácil para nós chegarmos a uma identidade popular para Romeu & Julieta,­ porque a gente já tinha o ­(Movimento) Armorial colado na cara, desde a faculdade”, lembra, referindo-se à iniciativa artística criada por Ariano Suassuna em prol de uma arte erudita genuinamente brasileira. Villela voltou a dirigir os artistas do Galpão nas montagens de A Rua da Amargura (1994) e Os Gigantes da Montanha (2013).

Aos 68 anos, o artista soma quase cinco décadas dedicadas ao teatro. Tudo é feito com criatividade, mas também com rigor. Isso vale tanto para os figurinos quanto para a direção. “Costumo dizer que o teatro, para mim, precisa ser como o avesso do bordado de minha mãe: perfeito”, afirma. “Tenho essa exigência. Se eu deixar uma linha solta, acho que mamãe ou as irmãs dela vão aparecer para me dar uma surra.” •

Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O artesão da cena’

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