Cultura
No palco, em primeira pessoa
Relatos baseados nas vidas dos próprios artistas dão a tônica das peças estrangeiras convidadas para a MITsp
Dieudonné Niangouna, Édouard Louis, Safia Nolan, Mohammed Al Qudwa, Olga Mouak e Arne De Tremerie. Desta vez, em cinco dos seis trabalhos estrangeiros da 11ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp), os artistas estão no palco não para interpretar papéis inventados por outrem, mas para encenar relatos próprios, baseados em vivências pessoais alinhavadas de maneira ficcional. E, no único espetáculo em que atores e atrizes encarnam personagens de fato, a dramaturgia adapta uma narrativa literária de cunho autobiográfico.
Além disso, a defesa da palavra em cena – sob a forma de monólogos, diálogos ou cantos – é outro aspecto compartilhado pelas obras internacionais da MITsp, cuja programação ocupa palcos e espaços culturais da capital paulista entre 6 e 15 de março.
“O desenho original da minha curadoria nesta edição já apontava para uma presença mais forte do texto e menos do movimento ou da dança, como foi em anos anteriores”, afirma o diretor artístico do festival, Antonio Araújo.
O plano inicial previa uma grade maior de peças estrangeiras. Em razão dos recursos insuficientes, algo que se tornou recorrente nas últimas edições do festival, obras da América Latina e da Ásia, por exemplo, não puderam ser trazidas.
A proposta começou a ser desenhada a partir do convite ao congolês Dieudonné Niangouna, que teve um espetáculo escrito e dirigido por ele, Alicerce das Vertigens, apresentado na MITsp em 2019. Naquela ocasião, o artista não pôde vir ao Brasil com o elenco por impedimento do governo da República do Congo, que se recusou a renovar seu passaporte.
Hoje vivendo na França, Niangouna traz a São Paulo o solo Do Lado de Cá, no qual recria poeticamente a trajetória de um diretor e dramaturgo de certa nação africana, que, perseguido em seu país, busca recomeçar a carreira artística no exílio, enquanto se questiona se o teatro tem ou não alcance político.
Na mostra deste ano, o movimento e a dança cedem espaço, em cena, para a palavra e as vivências de atores e atrizes
“Dieudonné é um artista que defende o verbo”, diz Araújo. “A polêmica que ele teve com o Festival de Avignon (em 2017) girava justamente em torno disso. Segundo ele, o festival só convidava espetáculos africanos de dança ou cunho ritual, como se a África fosse apenas corpo e a razão coubesse à França e aos demais. Em seu manifesto público, ele defendia uma África do pensamento, da palavra.”
Os relatos em primeira pessoa dos intérpretes Olga Mouak e Arne De Tremerie e o jogo cênico entre eles são a base de A Carta, do diretor suíço Milo Rau. Conhecido por suas criações provocativas, de alta voltagem política, Rau volta à MITsp com um espetáculo mais intimista, que valoriza a essência do teatro, tendo uma abordagem e uma temática bem distantes daquelas presentes nas três obras apresentadas em 2019, quando foi o “artista em foco” da mostra.
Em entrevista à Rádio França Internacional, antes da estreia da peça no Festival de Avignon em 2025, Rau disse que, em seus trabalhos, buscava conectar o pessoal com o político. “O que me interessa é contar uma grande história a partir das pequenas histórias dos atores e atrizes”, afirmou. A dramaturgia entrelaça vivências de Olga e Arne a memórias familiares e menções a figuras célebres do teatro e da história.
A valorização do texto em cena também está presente na aproximação entre teatro e literatura. Duas peças baseadas em livros do francês Édouard Louis, escritor-sensação da produção contemporânea, estão na programação: História da Violência, que abre o festival, e Quem Matou o Meu Pai. Ambas são dirigidas pelo alemão Thomas Ostermeier, diretor artístico da Schaubühne – teatro sediado em Berlim que é referência da cena contemporânea –, e compõem um díptico.
Na primeira obra, quatro atores encenam o caso de agressão sexual sofrido por Louis em 2012 e relatado no romance homônimo, combinando a perspectiva do autor e a de sua irmã, que narra o fato ao marido. “A violência homofóbica vai aparecendo em todos os níveis: na delegacia, quando ele faz a queixa; no hospital, entre médicos e enfermeiras; e, na família, de forma velada”, comenta Araújo.
Íntimo e político. A Carta, do diertor suíço Milo Rau, entrelaça vivências dos artistas a memórias familiares e menções a figuras célebres do teatro e da história – Imagem: Christophe Raynaoud
Na segunda peça, o próprio escritor está em cena para narrar sua complexa relação com o pai doente, que foi operário de fábrica até sofrer um acidente. Aposentado por invalidez, torna-se dependente da assistência do Estado.
Oscilando entre um tom amoroso e ressentido, Louis traça um paralelo entre o corpo enfermo do pai e as classes mais vulneráveis da França sob as políticas de austeridade de sucessivos governos.
Embora todos os trabalhos internacionais da MITsp abordem a expressão da violência em algum grau, no espetáculo canadense Vigiada e Punida, dirigido pelo quebequense Philippe Cyr, o ódio e o linchamento digital são o tema por excelência.
A alusão no título à célebre obra do filósofo francês Michel Foucault não é gratuita: o poder coercitivo na atualidade tem sido exercido nas redes sociais, por meio de julgamentos morais amplificados pelos algoritmos.
“Há algum tempo, eu queria abordar a questão da liberdade de expressão, mas principalmente a falta de responsabilidade sobre o tema no espaço público”, contou Cyr a CartaCapital. Em cena está a cantora quebequense Safia Nolin, alvo continuado de insultos e ataques nas redes – inclusive com incitações ao suicídio –, diante de um coro que reproduz os milhares de comentários recebidos ao longo de anos.
Trata-se, portanto, de um espetáculo musical, criado em conjunto com a cantora. As letras abordam aspectos relacionados à percepção pública sobre Safia, como misoginia, gordofobia, racismo, homofobia, evocação da morte e assédio. Seu corpo se torna um campo de batalha.
“O palco nos permite materializar e compreender a natureza real das palavras supostamente virtuais”, afirma o diretor. “O espaço público das redes sociais é transposto para o palco, o que permite uma relação concreta e engendra um atrito esclarecedor.” Em resposta, Safia se reapropria de seu lugar na arena coletiva com canções autorais, entoando sua própria música.
“O palco nos permite materializar e compreender a natureza real das palavras”, afirma Philippe Cyr
O monólogo do palestino Mohammed Al Qudwa, Três Estações e Um Corpo, fecha o rol de trabalhos internacionais. Sob direção da brasileira Martha Kiss Perrone, trata-se de uma obra ainda em construção, apresentada na programação como “abertura de processo”.
O jovem escritor e campeão de caratê Al Qudwa deixou Gaza em 2024 e, depois de um breve período no Egito, chegou à França por meio de um programa de acolhimento a artistas no exílio.
O solo começou a ser criado numa das residências artísticas da qual participou, no Passages Transfestival, em 2025. Al Qudwa entrelaça suas vivências em um território permanentemente em guerra – desde a infância, ele presenciou cinco ataques militares a Gaza, além da operação israelense em curso – com reflexões sobre o exílio, fragmentos de memórias e testemunhos de um cotidiano turbulento. Sonoridades registradas em Gaza pelo próprio performer perpassam o monólogo.
A programação da MITsp se completa com a mostra de espetáculos e performances nacionais, ações formativas, lançamentos de livros, debates e conversas de vários dos artistas convidados com o público. •
Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘No palco, em primeira pessoa’
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