Cultura
Nascida da escuridão
A autora sueca Hanna Nordenhök recria, na ficção, a vida da primeira criança vinda ao mundo por meio de uma cesariana
E comum que se diga, popularmente, que as palavras cesariana e cesárea derivam da forma pela qual nasceu o antigo imperador romano Júlio César. O romance Cesárea, da sueca Hanna Nordenhök, conta, todavia, outra história.
A protagonista do livro é Henrietta Alexia Cesárea, personagem ficcional que teria sido a primeira criança nascida de uma cesariana realizada por um médico, na Suécia do século XIX.
Obviamente, as discussões históricas são mais complexas, mas, dentro do universo ficcional, o que importa à autora é discutir outra coisa. Suas reflexões recaem sobre temas como maternidade, direitos sobre o corpo feminino e adoção de órfãos.
A mãe de Cesárea morreu no parto. Com isso, a menina passa a viver com o médico que a trouxe ao mundo, Dr. Eldh, que parece vê-la como uma espécie de troféu, dedicando-lhe cuidados extremos.
“O Dr. Eldh me tirou à faca da escuridão, depois me salvou das ruas e me levou para Lilltuna, sempre me trazendo brinquedos novos”, escreve a garota, cuja vida se limita à fazenda Lilltuna, onde mora.
Ela narra a própria história em primeira pessoa, de forma melancólica, quase alienada. Seu mundo, afinal de contas, é limítrofe, sem espaço para crescimento emocional ou grandes descobertas.
Cesárea. Hanna Nordenhök. Tradução: Fernanda Sarmatz Åkesson. DBA (216 págs. 82,90 reais)
Não são poucas as vezes em que a protagonista se refere ao seu nascimento de forma violenta: “O corte que me arrancou da escuridão”, diz. A perda da mãe, “a esquálida”, é uma dor que ela não compreende. Ela tampouco entende o peso do poder que o médico exerce sobre si.
Mas, mesmo em uma história marcada pela crueza, a autora transita pela poesia: “Os outonos em Lilltuna sempre carregavam consigo o cheiro de cadáver dos texugos e das frutas caídas das árvores”.
Cesárea pode ser definido como um romance de tons góticos que se articula em torno de uma investigação sobre as vigilâncias e punições que recaem sobre os corpos femininos – esse tema tão contemporâneo.
A opressão em torno da menina aumenta ainda mais quando um terceiro personagem entra no enredo: Valdemar, que se instala na mansão do médico para cuidar de uma estranha doença. Essa figura quebrará a aparente calma do local.
Hanna Nordenhök desenvolve uma narrativa desconcertante e não teme explicitar a crueldade para narrar uma história sobre a busca pela liberdade em meio ao sufocamento. •
Publicado na edição n° 1402 de CartaCapital, em 04 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Nascida da escuridão’
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