Cultura

Narrado apenas por diálogos, ‘Newton’ imagina um homem radical 

O protagonista do romance de Luís Francisco Carvalho Filho se nega a fazer parte do sistema

Narrado apenas por diálogos, ‘Newton’ imagina um homem radical 
Narrado apenas por diálogos, ‘Newton’ imagina um homem radical 
(Foto: Divulgação)
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Advogado criminal renomado, Luís Francisco Carvalho Filho usa a experiência em tribunais na construção de seu novo romance, Newton (Fósforo, 136 pgs, 54,90 reais). A trama toma por base diálogos construídos sem a presença de um narrador ou definições de tempo ou espaço. As dicas, para o leitor, estão no título dos capítulos, compostos por apenas uma palavra: Filho, Visita, Faxina. 

Ao compor o livro dessa maneira, o autor buscou radicalizar com a forma, permitindo que o leitor participasse da construção da narrativa. “A linguagem verbal chama muito a minha atenção, a sua construção é algo que me interessa”, conta. “Na minha experiência em audiências judiciais, sempre fiquei atento a como as pessoas dizem o que pensam.”

Para Carvalho Filho, uma audiência judicial é composta por incompreensão e solidão: “Aquilo que a pessoa diz nem sempre é aquilo que ela pensa. Por isso, o tempo da escuta é muito importante”. E ele leva isso à sua obra de ficção.

É do embate verbal entre Newton, o protagonista, e as pessoas que contracenam com ele que caminha o romance. E esse é um livro interessado, sobretudo, no presente. O personagem está numa espécie de teia kafkiana: ele se recusa a ter documentos, a ter um sobrenome, a existir burocraticamente. É um escritor até renomado, mas que não quer fazer o jogo do sistema. 

Nesse sentido, Newton pode ser lido como um romance sobre as diversas identidades (sociais, culturais etc.) no presente. Essa construção surge de forma metafórica nos documentos que o protagonista se recusa a ter – é como se, sem documentos, o personagem se negasse a ser colocado sob rótulos ou caixinhas identitárias.

A saga do protagonista começa quando ele escreve um texto satírico na internet, em seu blog, no qual sugere a criação de um imposto para pessoas com animais. Mal compreendido, recebe uma ameaça de processo, além de outras verbais, na própria internet e pessoalmente. De forma bem humorada, Carvalho Filho toca na super contemporânea questão do cancelamento. 

“O mundo do politicamente correto, às vezes, se torna indiferente às outras pessoas”, defende. No romance, os inimigos de Newton ignoram que seu texto é irônico. Novamente, surge um tema caro ao romance: a incompreensão da linguagem. 

Na medida em que a trama avança, o protagonista cai numa espécie de limbo existencial e burocrático porque não quer ter documentos. “Uma figura como ele não existe no mundo civilizado. É impossível que uma pessoa viva assim, sem qualquer documento, sem qualquer papel”, diz o autor, que de leis também entende. 

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