Cultura
Não verás país nenhum
O Rio do Desejo e Noites Alienígenas, ambos passados na Amazônia, desvelam um Brasil contraditório
A Amazônia é, no imaginário, um lugar de exuberância natural, riquezas inexploradas e povos originários. Essa imagem mental é, no entanto, limitada e enxerga somente a árvore no lugar da floresta.
Os longas-metragens O Rio do Desejo, em cartaz desde a quinta-feira 23, e Noites Alienígenas, que estreia dia 30, trazem olhares divergentes sobre esse espaço que a maioria dos brasileiros só vê na tevê.
No primeiro filme, baseado no conto O Adeus do Comandante, do escritor amazonense Milton Hatoum, o diretor Sérgio Machado navega por uma Amazônia quente e úmida, integrando natureza e paixões numa trama trágica.
Noites Alienígenas, primeiro longa-metragem do cineasta acriano Sérgio de Carvalho, também tem origem num texto literário, o romance homônimo do próprio realizador. Aqui, o espaço amazônico concentra os efeitos da exploração desregrada, da degradação econômica e da ação do crime organizado.
As imagens contraditórias projetadas pelos filmes dos dois Sérgios também contradizem o discurso oficial. Da ditadura ao bolsonarismo, a promessa de Eldorado produziu miséria, morte e destruição.
O Rio do Desejo não se interessa frontalmente por questões sociais ou econômicas. A força passional é o que junta e destroça uma família com a entrada da jovem Anaíra (Sophie Charlotte) na vida de Dalberto (Daniel de Oliveira), Armando (Gabriel Leone) e Dalmo (Rômulo Braga).
As questões míticas relacionadas ao sangue e ao sexo, a danação que seus personagens carregam, ganham força com a onipresença da natureza. A largueza dos rios e o emaranhado vegetal são enfatizados pelo filme de forma a nos proporcionar prazer visual. Em meio à beleza, O Rio do Desejo não deixa, porém, de mostrar como a violência define e regula as relações tanto afetivas quanto sociais.
Noites Alienígenas, por sua vez, inverte o estereótipo amazônico. A Rio Branco mostrada é árida e rústica como as periferias de toda cidade brasileira média ou grande.
Ali, como em Sete Anos em Maio, Marte Um ou Mato Seco em Chamas, o país refletido na tela é soturno e amedrontador. Os jovens vivem acuados entre subempregos e violências. O que poderia, contudo, ser apenas mais um filme sobre as misérias brasileiras destaca-se pela forma narrativa.
Ao escolher uma lógica desconectada e descontínua para os personagens, Noites Alienígenas aproxima o lá e o cá, desvelando um Brasil que não é uma sociedade, mas um amontoado de gente. •
Publicado na edição n° 1252 de CartaCapital, em 29 de março de 2023.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Não verás país nenhum’
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