Cultura

Mujica, Haddad, um projetor e uma distopia

Uma tarde de sábado em uma sala de cinema no meio do furacão brasileiro

Parece o  Brasil, mas é a cena de um filme sobre Mujica
Parece o Brasil, mas é a cena de um filme sobre Mujica
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Estreou há algumas semanas o filme “Uma noite de doze anos”, sobre a longa prisão de três líderes do movimento tupamaro: Mario Rosencof, Eleuterio Fernández Huidobro e José Mujica Cordano, futuro presidente do Uruguai. É inegável a identificação com os abusos perpetrados pelas demais ditaduras latino-americanas: perseguições, tortura, desumanização.

No sábado 3, às quatro e meia da tarde, um dos dois últimos cinemas que ainda exibem o filme em São Paulo teve sessão lotada. O Espaço Itaú faz parte da última dezena de salas de rua que resistem na maior cidade da América do Sul.

Nos anos 1950, quando o cinema era evento dedicado à coletividade, e não solitário, limitado à tela estreita do celular ou tevê, a cidade chegou a ter mais de duzentas salas de rua.

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Começa a sessão. O filme, baseado no livro Memorias del Calabozo, de Rosencoff e Huidobro, tem o mérito de oferecer ao espectador a angústia da espera num aprisionamento cruel e sem sentido.

Não há interrogatórios, pois o grupo está desbaratado. Quase não há visitas, pois os presos raramente “estão disponíveis”. Não há banho de sol, sequer comunicação entre os condenados.

A menos de uma semana após a definição das eleições brasileiras a favor do candidato saudoso da ditadura, seria difícil supor que os espectadores não pensassem no ano vindouro e em Lula, virtual vencedor das eleições se não tivesse sido encarcerado como resultado de um apressado e errático processo judicial inconcluso, a cargo de um juiz que acaba de ser guindado à condição de futuro Ministro da Justiça.

O filme produzia na plateia um aperto no peito, feito distopia.

 Após uma pungente versão de The Sounds of Silence, o filme chega ao fim. No cinema, ainda antes de correrem na tela os créditos, ouve-se o primeiro grito feminino de “Lula Livre!”, seguido por um coro de vozes que faz reviver um canto dos anos da ditadura, “O povo unido jamais será vencido”, e aplausos de quase um minuto, de toda uma plateia emocionada.

Em seguida, ouve-se grito solitário de “Obrigado, Haddad” e as interjeições de surpresa de quem descobre que está presente à sessão o candidato do PT, ao lado de sua esposa Ana Estela.

O canto metamorfoseia-se para “Brasil, urgente, Haddad Presidente”. Destoa apenas um homem, barba grisalha que o afronta com impropérios e a palavra golpe. A comoção segue-se portas afora, mais fortes o canto e os aplausos. Minutos depois ainda é possível ouvir as manifestações rua abaixo, por onde Haddad vai descendo.

Enquanto caminhava pela rua, pensei no outro grande filme político do ano, “O processo”, de Maria Augusta Ramos, documentário sobre o impeachment de Dilma Rousseff, que assistira por streaming, no isolamento da sala doméstica.

Pensava em como a sala de exibição, ou o teatro,  podem transformar um filme em evento catártico, político, que se derrama sobre as ruas da cidade. As mesmas ruas que, na semana anterior, abrigaram militantes espontâneos com seus cartazes dirigidos aos transeuntes: Está indeciso? Quer conversar sobre as eleições?

Eles não eram militantes do PT, assim como muitos daqueles que estávamos no cinema tampouco o éramos. Éramos sim o que o presidente eleito genericamente chamou de “vermelhos”, os que seremos varridos do País, a quem cabe a prisão ou o exílio. Aqueles, enfim, de espírito crítico, consciência de classe e capacidade de se emocionar diante da beleza e da injustiça.

Por isso continuam a fechar os cinemas de rua, os teatros, as livrarias, os cadernos de cultura. Deliberadamente ou não, delega-se o debate e a reflexão para fora do espaço público, para a rede social, para a tela do telefone, odiosamente manipulados nas últimas eleições por grandes empresas.

O enfrentamento ao arbítrio não há de acontecer apenas nessas pequenas telas. Ainda seguem vigentes as palavras de Gill Scott-Heron: a revolução, a utópica ou a possível, qualquer que seja ela, não será televisionada.

É preciso seguir nas ruas, sem medo, diante de alteridades e semelhanças, buscando alguma costura para o tecido social.

* Escritor e professor da UFSCar

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