Cultura

Morte de Cassiano reacende a falta de reconhecimento do soul brasileiro

Reina a falta de entendimento sobre o movimento, que integra ainda Tim Maia, Jorge Ben Jor e outros

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A morte do paraibano radicado no Rio de Janeiro Genivaldo Cassiano dos Santos, conhecido apenas como Cassiano, nesta sexta 7, aos 77 anos, por problemas cardíacos, reacende a falta de reconhecimento e importância de sua geração à música brasileira enquanto movimento musical, integrada ainda por Tim Maia, Jorge Ben Jor, banda Black Rio com Oberdan Magalhães à frente, Hyldon, Claudio Zoli, Gerson King Combo (morreu ano passado por complicações de diabetes), Tony Tornado, entre outros.

Esse pessoal todo é ligado ao movimento soul no Brasil nos anos 1970. Por usarem referências do movimento Black Power norte-americano, foram considerados antinacionalistas, inclusive pela esquerda, que na época queria afirmar uma arte tipicamente brasileira. O ritmo mais dançante, com guitarras e baixos elétricos, sofreu forte resistência e era considerado ‘americanização’ da música nacional.

A questão é que todo esse empenho tinha uma afirmação da negritude muito forte – e pouco estudada. Era uma afirmação afro-brasileira e não necessariamente afro-americana, como supunha alguns. Foi a incorporação de uma manifestação de fora, com uso de seus elementos, até por falta de referências ativistas negras no Brasil.

O caso de Tim Maia e Jorge Ben Jor é emblemático. São extremamente executados até hoje, inclusive pela nova geração, mas não se sabe exatamente de qual movimento vieram e fizeram parte. Os dois se reconheciam nos bailes black do subúrbio carioca, que tocava soul americano e coisas já produzidas nacionalmente. Sem falar no aprendizado do período de Tim Maia nos Estados Unidos, quando resolveu tresloucadamente morar lá.

Gerson King Combo e Tony Tornado que o digam. Com eles protagonizando as equipes de som, esses eventos atraiam multidões.

A banda Black Rio fundiu a black music internacional com o samba de gafieira, dançante. Hyldon estourou com Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda. Claudio Zoli, descoberto por Cassiano, expôs o soul na voz, sem perder a essencialidade brasileira, com A Noite do Prazer e A Namoradeira.

Cassiano é compositor de A Lua e Eu, Cedo ou Tarde, Primavera, Eu Amo Você, Coleção etc. Sua obra está condensada num álbum maravilhoso que lançou em 1991, com várias participações.

Esse pessoal do soul brasileiro influenciou diretamente dois movimentos da música brasileira importantíssimos: o rap e o manguebeat. E seguem sendo tocados e gravados. E não é à toa. Trata-se de um som poderosíssimo, que tem muito da alma brasileira, ao contrário do que curiosamente se propaga.

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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