‘Mil Sóis’ mostra a inédita obra poética do italiano Primo Levi

Livro mostra não apenas a resistência sobrenatural do espírito, a eclosão da liberdade, mas também a posterior vigília do pesadelo

Foto: Gianni Giansanti/Getty Images

Foto: Gianni Giansanti/Getty Images

Cultura

Com uma literatura produzida sob a égide do nazismo, como cativo em Auschwitz, o escritor italiano Primo Levi (1919-1987) iluminou as esperanças humanistas de gerações com livros como É Isto um Homem? (1947) e Os Afogados e os Sobreviventes (1986). Levi ficou mais conhecido por sua prosa, mas a iniciação foi com a poesia, que produziu regularmente a vida toda (“pouco mais de um poema por ano”, escreveu). Em 1946, publicou os primeiros versos, um poema de 22 versos na terceira página do semanário L’Amico del Popolo (O Amigo do Povo). O poema chamava-se Buna Lager. “Buna” quer dizer, em alemão, goma sintética, e a outra palavra, Lager, não requer tradução. É o nome da usina de goma sintética nazista nas imediações de Auschwitz, na qual o escritor, que lutou na resistência italiana, foi colocado por Hitler para trabalhos forçados sobre o horror monótono da lama.

Com o impacto de sua obra em prosa, a poesia de Levi ficou em segundo plano. Mas agora, com a publicação de Mil Sóis (Todavia Livros), é possível saber de que material se alimentou Primo Levi para forjar sua poesia, um cogumelo que cresce numa noite. Ele pontua os versos com diálogos com o italiano Dante Alighieri, o britânico T.S. Eliot, o alemão Heinrich Heine, o francês François Villon, o poeta latino Catulo. A contundência da poesia de Levi o impõe para adiante do seu tempo, estafeta de um diagnóstico desconcertante do Mal. O ouro injetará o ódio na outra metade do mundo/ lá onde o intruso mantém no berço seus monstros.

A poesia dos anos 1940 trata da condição de prisioneiro, exercício da força humana sob o jugo do terror

Mil Sóis é uma seleção cronológica da poesia de Primo Levi, e mostra não apenas a resistência sobrenatural do espírito, a eclosão da liberdade, mas também a posterior vigília do pesadelo. Para Adolf Eichmann traz um pedaço desse espírito. Ó filho da morte/ não lhe desejamos a morte/ que você viva tanto quanto ninguém nunca viveu: que viva insone cinco milhões de noites, e que toda noite lhe visite a dor de cada um que viu/ encerrar-se a porta que barrou o caminho de volta/ o breu crescer em torno de si, o ar carregar-se de morte.

Levi e o amigo químico Alberto Salmoni, companheiro na resistência./ Foto: Arquivo Pessoal

O título do livro vem do poema No Princípio, um tema desenvolvido sobre a inserção do humano no cosmos, (inspirado na tese do Big Bang abordada na revista Scientific American em 1970), essa nossa “catástrofe reversa” de ter nascido de uma explosão. Primo Levi é um mestre. Não quero escrever sobre essa fileira/ não quero escrever sobre essa fileira escura. A tradução brasileira cortejou um de seus tesouros, o ritmo. Retornem ao seu nevoeiro/ não tenho culpa se vivo e respiro/ e como e durmo e visto roupas.

É preciso anotar também que a prosa de Primo Levi, hoje desfrutando de unanimidade, não foi bem recebida de início. Quando publicou É Isto um Homem?, pela casa editorial De Silva, em 1947, vendeu pouco mais de 2,5 mil exemplares. Somente em 1956 é que o interesse pelo seu trabalho seria despertado em todos os quadrantes da Europa e o livro seria reeditado. Para o tradutor dos poemas, Mauricio Santana Dias, a poesia de Levi, escrita na reentrância dessa outra produção, atravessou diversas fases nesse ofício silencioso e rarefeito. A poesia produzida nos anos 1940 trata ainda de sua condição de prisioneiro, um exercício de condensar a força do humano sob o jugo do terror. “Não são, contudo, peças eivadas de desespero, como se poderia supor. A despeito da negatividade de seus temas e motivos, há algo nesses poemas, talvez devido ao próprio esforço de trazê-los a lume, que parece correr no sentido contrário de uma escrita meramente desencantada. Há neles uma busca pela claridade, um trabalho contínuo contra as sombras.”

Três meses antes de se jogar da escada do lugar onde nascera, 67 anos antes, Levi escreveu algo terrivelmente premonitório para nós que vivemos no Brasil de 2019: Logo, logo dilataremos o deserto/ nas selvas da Amazônia. Vindo de alguém que conheceu o coração do horror nazista, é de assustar. É o último poema de Mil Sóis.

No dia 14, às 19 horas, haverá um debate em São Paulo sobre a obra de Primo Levi na Tapera Taperá (Avenida São Luís, 187, 2º andar, loja 29, Galeria Metrópole, República). Mauricio Santana Dias, que é o tradutor do livro, fará um bate-papo com leitores, e serão lidos poemas de Levi pelos poetas Bianca Gonçalves, Jeanne Callegari e Fabiano Calixto. A mediação será de Leandro Sarmatz, editor da Todavia Livros.

Poema

Dai-nos alguma coisa pra destruir

Uma corola, um canto de silêncio,

Um amigo de fé, um magistrado,

Uma cabine telefônica,

Um jornalista, um renegado,

Um torcedor do outro time,

Um poste de luz, um bueiro,

um banco.

Dai-nos alguma coisa pra rasgar,

Um reboco, a Gioconda,

Um para-lama, uma pedra tumular.

Dai-nos alguma coisa pra estuprar,

Uma menina tímida,

Um canteiro, nós mesmos.

Não nos desprezeis:

somos arautos e profetas.

Dai-nos algo que queime,

ofenda, corte, arrombe, suje,

Que nos faça sentir que existimos.

Dai-nos um cassetete

ou um Nagant,

Dai-nos uma seringa

ou uma Suzuki.

Comiserai-vos de nós.

(30 de abril de 1984)

 

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