Cultura
Michel Foucault faz 100 anos
Poucos filósofos do século XX tiveram influência tão duradoura e profunda quanto o intelectual francês
Neste ano que se inicia, comemora-se o centenário de Michel Foucault, intelectual nascido em 1926, em Poitiers, na França. E, no momento de seu centenário, há de se constatar que poucos foram os filósofos do século XX a ter uma influência tão duradoura entre nós quanto Foucault.
Suas análises sobre a estrutura do poder em nossas sociedades e sobre como o poder nos constitui – além de constituir nossas formas de saber – foram decisivas para a maneira como questionamos princípios universalistas e desconfiamos de nossa própria razão ocidental.
Suas análises sobre as ciências humanas mostraram que a loucura e nossa ideia de sexo como lugar de verdade tinham uma história, e que nossas formas de punir e exercer a lei não eram expressões de alguma concepção celeste de ‘justiça’. Ou seja, todas as suas análises mostram de que maneira nossos discursos científicos, quando nos tomavam como objetos, não simplesmente nos descreviam, mas nos produziam.
A maneira como pensávamos nossa sexualidade, nossa normalidade, nossa saúde, nossa relação com a linguagem, a vida e o trabalho, era a expressão mais bem-acabada de como tínhamos sido produzidos por nossa forma de saber. Sem tais reflexões, nosso olhar crítico atual em relação à maneira com que estudamos nós mesmos e nos descrevemos cientificamente, certamente não seria o mesmo. O desconforto em relação ao que hoje chamamos de “matriz epistêmica” não seria possível.
O Que É a Crítica? Michel Foucault. Tradução: Cláudio Medeiros, João Francisco Gabriel, Ivan de Sampaio, Mário Antunes Marino, Rafael Furtado. Ubu (192 págs., 79,90 reais)
Sua originalidade é fruto de um questionamento sistemático sobre o lugar da filosofia nas sociedades contemporâneas. Foucault temia que a crítica filosófica se tornasse, como ele mesmo afirmou, uma “perpétua reduplicação sobre si, um comentário infinito de seus próprios textos sem relação a exterioridade alguma”.
Foucault sabia bem o que a tendência à profissionalização da filosofia e sua adaptação a uma carreira universitária especializada estavam a produzir. Por isso, desde o início, ele constituiu uma experiência intelectual forjada na procura de objetos que pareciam não ter dignidade filosófica. Quem, antes dele, havia pensado em fazer filosofia olhando para asilos psiquiátricos, prisões, tratados médicos, livros sobre regras da vida sexual e amorosa ou manuais de guerra?
Pelas suas mãos, o filósofo tornou-se algo muito próximo de um antropólogo de si mesmo, que se olha com o estranhamento de quem encontrou uma tribo perdida e se espanta com seus hábitos, evidências e relações naturais. Nesse sentido, Foucault era a pessoa certa para uma modernidade que começava a se achar muito pequena, para um tempo histórico que começava a se achar muito curto e que procurava preparar-se para a descolonização de si mesmo.
Mas o interesse ainda sempre desperto por Foucault vem também de um fato editorial relevante e que nos faz pensar sobre o que é efetivamente um autor.
Ao falecer, em 1984, Foucault havia deixado uma obra escrita relevante, com momentos claramente definidos. Tudo parecia ter começado a partir da reflexão crítica sobre as ciências humanas e médicas, tendo em vista uma arqueologia de nós mesmos, e caminhado em direção a uma reatualização daquilo que Nietzsche um dia havia chamado de “genealogia”. Ou seja, um questionamento sobre o que a origem esconde. Voltar à origem não é encontrar nossas raízes orgânicas, mas descobrir estruturas de violência, coerção e poder.
Contraponto. O também filósofo Immanuel Kant é uma figura central do recém-lançado O Que É a Crítica? – Imagem: Biblioteca Nacional/Moscou
Mas a morte o levou cedo, aos 58 anos, com vários projetos anunciados que aprofundavam esse caminho. A partir do fim dos anos 1990 começa, no entanto, a publicação dos seminários que Foucault ministrava no Collège de France.
Descobrimos, então, um professor sistemático e preciso, que parecia estar a escrever um livro diante de seu auditório. Foi como se um novo autor aparecesse: várias dimensões importantes de seu pensamento ganham nova luz. As reflexões críticas sobre o neoliberalismo, a função crítica do recurso aos gregos e suas práticas de cuidado de si como forma de repensar o que entendemos por emancipação e autonomia ficaram mais evidentes com a leitura de seminários.
A partir daí os organizadores do espólio ampliaram o escopo e começaram a publicar também transcrições de cursos ministrados em outros lugares, de palestras ou mesmo de manuscritos, como o quarto volume da História da Sexualidade: Os Prazeres da Carne (2017), um texto sobre Binswanger e a análise existencial (2021) e sua dissertação de mestrado sobre Hegel (2024).
Dentro desse processo, como sempre ocorre, há material cujo interesse é questionável devido ao caráter muito incompleto. Mas há outros que nos permitem complexificar a compreensão que temos de Foucault.
Dentre esse último grupo, há textos que acabaram de ser traduzidos, como O Que É a Crítica?, lançado pela Ubu, ou que devem ser traduzidos para o português ainda este ano, como Genealogia da Sexualidade (também pela Ubu), onde se encontra o texto dos cursos sobre a genealogia do saber moderno sobre a sexualidade ministrados em São Paulo. Esperemos também que seja traduzido o curso ministrado na Universidade de São Paulo, em 1965, e publicado ano passado com o título Arqueologia das Ciências Humanas.
O Que É a Crítica? é um belo exemplo do tipo de surpresa que Foucault ainda é capaz de produzir. Trata-se de um volume com dois textos: uma conferência com o mesmo título ministrada na Sociedade Francesa de Filosofia, em 1978, e outra proferida, em 1983, na Universidade da Califórnia – Berkeley com o título A Cultura de Si.
A primeira conferência muda radicalmente a visão que se tentou disseminar de Foucault como um pensador antimoderno ou para quem a modernidade deveria ser um projeto a ser recusado em sua totalidade.
O que vemos aqui é Foucault filiando-se a essa “atitude crítica que seria específica da civilização moderna”, e que é descrita, de forma astuta, como “a arte de não ser governado” ou, ao menos, “a arte de não ser governado dessa forma”. O que, em uma formulação lapidar, dará: “A arte da inservidão voluntária, da indocilidade refletida”.
Ou seja, a crítica é indissociável do questionamento das formas estabelecidas de autoridade e de sujeição às normas. Ela é fruto da consciência do sofrimento provocado pela obediência externa.
Sua originalidade é fruto de um questionamento sistemático sobre o lugar da filosofia nas sociedades contemporâneas
O que não deixa de nos impressionar é, digamos, o classicismo dessa proposição. Se a crítica é a arte de não ser governado, é porque ela é o exercício de tentativa de realização da autonomia, do governar a si mesmo. Nada mais moderno. E isso é algo que Foucault reconhece muito bem, já que vincula essa concepção de crítica a Kant e, mais profundamente, à Reforma Protestante e seu questionamento de como fomos até agora governados.
Mas, em uma reviravolta, o gesto ganha ainda mais tensão ao ser associado de forma surpreendente à Dialética do Esclarecimento, obra que os alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer escreveram em 1947, durante o exílio nos Estados Unidos. Pois, em vez de compreender a crítica em moldes kantianos, como a análise dos limites do que podemos conhecer, do que podemos esclarecer, ele define os limites de nosso esclarecimento, nos fazendo acreditar que ele pode sempre nos guiar, desde que definidas suas fronteiras.
Outra coisa é falar, como Adorno e Horkheimer, que a modernidade esclarecida organizou estruturas de saber que são, na verdade, formas de poder, que seus discursos organizaram processos sociais que não garantiram a autonomia procurada. Nesse mesmo momento, Foucault começa a procurá-la por meio de um retorno aos gregos e de suas formas de cultivo de si.
É como se, para realizar o que um dia a modernidade nos prometeu, fosse necessário escutar mais uma vez essa promessa, mas para procurá-la navegando outros mares. O que talvez seja a melhor maneira de descrever o que estamos a tentar fazer agora. •
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Michel Foucault faz 100 anos’
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