Cultura

Mary Quant, a estilista que inventou a minissaia e a moda sem amarras

As saias curtas liberaram o erotismo na swinging Londres dos anos 60. E depois dominaram o mundo

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No ano passado, enquanto a equipe do Museu Victoria & Albert (V&A), em Londres, pesquisava para sua grande retrospectiva de Mary Quant, que estreou neste 6 de abril*, lançou uma campanha #WeWantQuant (Nós Queremos Quant), pedindo roupas que as pessoas estivessem dispostas a doar ou emprestar. “Fomos abarrotados”, disse uma das curadoras da exposição, Jenny Lister. “Recebemos mais de mil e-mails de mulheres – algumas amigas de Quant e membros do círculo boêmio que ela frequentava –, mas na maioria mulheres comuns. Ex-alunas, professoras e enfermeiras – algumas nos contataram de lugares distantes como de São Francisco e Austrália.”

Uma mulher – e isto faz Lister rir prazerosamente – contou que levou seu vestido Quant à Antártida, para usá-lo no Polo Sul. Algumas conservaram sua maquiagem (como as sombras para olhos que o marido de Quant e sócio dela, Alexander Plunket Greene, chamou jocosamente de “óculos escuros”). A mensagem coletiva foi que as roupas de Quant eram mais que meras roupas, eram pistas acalentadas do passado. Afinal, o museu só teve espaço para as ofertas de 30 mulheres. Mas para todos os que viveram a era Quant essa exposição será uma espécie de viagem no tempo – de volta aos anos 1960 e 1970 e ao mais badalado dos sobrenomes (aquele Q tinha magia) e o simples logotipo da margarida que não murchava.

Em um novo prefácio à sua primeira autobiografia, Quant by Quant (1966), Mary Quant lembra: “A vida era um show! Era tão divertida e inesperadamente maravilhosa, apesar, ou talvez por causa de sua intensidade… éramos tão felizes com nossa enorme sorte e sacação do momento. Também fazíamos festas – não havia limites, na verdade”. Seu estilo de texto, ingenuamente entusiasmado, combinava com suas roupas. Para Quant, a moda era “um jogo” e seu filho Orlando (que escreve no catálogo do V&A) admite que seus pais se divertiram depois que se conheceram quando eram estudantes de arte na Goldsmiths. Ele lembra que seu pai tornava a vida “loucamente excitante”. Lembra que as pessoas diziam: “Mas Mary, você não pode fazer isso…” (um convite para ela seguir em frente). Ele também afirma que os modelos de sua mãe eram mais sérios do que o modesto relato dela, que eles provocavam “uma revolução de atitude que mudava muito mais que a moda”.

Mary acreditava na moda para as massas, feita em casa – mas com detalhes só seus (Foto: Ronald Dumont/Getty Images)

Aos 85 anos, Mary Quant ainda mantém sua linha original. “Eu adorava vestir as roupas que eu criava para amigas de mentalidade semelhante e para mim mesma”, diz ela por e-mail. “Elas refletiam a sensação de liberdade que tínhamos na época – as saias curtas permitiam mobilidade, correr, saltar e divertir-se. Como eu me entedio rapidamente, estava sempre procurando novas inspirações, por isso, se funcionassem para mim, forneceriam moda para todo mundo que gostasse do estilo, os acessórios malucos e os cosméticos.”

Lister enfatiza a premonição de Quant: “Ela usava roupas para demonstrar que a mudança estava chegando. A moda não tinha mais a ver com alta-costura, mas com expressar a individualidade”.

“Suas roupas, ao tornar-se amplamente acessíveis, expressavam a disrupção da hierarquia de classes, assim como dos papéis de gênero”

Ela viu que a moda “antecipa”, e sua revolução de design brotou de uma Grã-Bretanha sem graça no Pós-Guerra, à beira da reforma social. Quant tornou-se uma figura pública e, como diz Lister, “expressava a maneira como a vida das mulheres se afastava dos estereótipos tradicionais. Suas roupas ofereciam uma linguagem para expressar o empoderamento das mulheres em uma época em que palavras como ‘sexismo’ mal tinham sido inventadas”.

Os designs também eram a rebelião pessoal de Quant, sua maneira de evitar tornar-se uma professora de escola primária (o destino que seus pais, que cursaram a universidade e vinham de famílias mineiras do País de Gales, tinham imaginado para ela quando a criaram em Blackheath, em Londres).

Mary Quant tornou-se aprendiz em uma chapeleira no bairro chique de Mayfair, depois de sair da Goldsmiths. Sua primeira loja, Bazaar, abriu na esquina de Markham Square e King’s Road, em Chelsea, em 1955, mas foi só nos anos 1960 que a marca decolou aparentemente sem interrupções. Foi um período muito ligado à energia, nas artes assim como na moda. Lister sugere que “a generosidade (de Quant) e o ímpeto para tornar a moda acessível por meio da produção em massa refletem uma qualidade de vida melhor, que ficou mais disponível no período do Pós-Guerra. Suas roupas, ao tornar-se amplamente acessíveis, expressavam a disrupção da hierarquia de classes, assim como dos papéis de gênero”. Uma evidência da força da marca Quant era que ela mesma fazia grande parte da modelagem, como haviam feito Coco Chanel e Elsa Schiaparelli, que foram suas inspirações.

A nova moda era um desafio à tradição. Diziam: “Mary, você não pode fazer isso”. Ela fazia. (Foto: Richard Davis / Victoria & Albert Museum)

Fotos de Mary Quant, com seu cabelo enrolado com bobs à moda dos anos 20, mostram como ela gostava de manter a modéstia da metade superior da mulher: colares Peter Pan, golas rulê, fechos com zíper. Decotes não apareciam. Os modelos são inteiramente pernas, atitude e bainhas provocantes: elas tinham uma qualidade lúdica, de menina – uma liberdade.

“Ela não queria crescer”, diz Lister. “As roupas buscavam conservar a infância, mas isso se tornou um novo tipo de sensualidade, definido por ela.”

Em termos de inventar a minissaia, Quant divide as honras com o estilista francês André Courrèges. Alguns insistem que ele chegou lá primeiro, em 1964, mas foi Quant quem colocou a minissaia – e os collants – nas ruas. Há uma anedota divertida em sua autobiografia sobre uma viagem que ela fez a um hotel em Malta nos primeiros dias da marca (para se recuperar do excesso de trabalho). Ela usava minissaia antes mesmo que o modelo fosse aceito em Londres, quanto menos em Malta. “As mulheres me olhavam fixamente. Os homens tentavam chamar minha atenção.”

Mas um ou dois anos depois foi assim que Alexandra Pringle, hoje editora-chefe da editora Bloomsbury (citada no catálogo), lembra do exuberante vale-tudo na King’s Road: “Grandes chapéus moles, suéteres justos nas costelas, vestidos com gola fechada, cintos largos… lábios com batom branco e delineador preto grosso nos olhos, cabelos cortados em ângulos alarmantes, brincos de Op art e botas brancas até o tornozelo”.

E não deixemos de mencionar os maravilhosos collants coloridos (que Quant lançou e que tinham visibilidade, graças às minissaias), as capas de chuva de PVC com zíper, roxas e vermelhas, os vestidos que imitavam de brincadeira os ternos masculinos – todos definidos pelo humor e a falta de classe.

(Foto: Victoria & Albert Museum)

As roupas não eram baratas – custavam, aproximadamente, o dobro do que se pagaria na Marks & Spencer –, mas também não eram couture. Quant acreditava na moda para as massas – você podia até costurar seus próprios modelos com moldes Butterick. A partir de 1962, as roupas foram produzidas em democráticos milhares, mas muitos detalhes não pareciam produzidos em massa: zíperes espertos, pespontos contrastantes, mangas enviesadas. Em 1963, um vestido-avental “Snob” custava 6 guineus – o equivalente a pouco mais de 100 libras (hoje 500 reais). Eram modelos confortáveis para mulheres – para lhes dar liberdade, melhorar suas vidas.

Dito isso, suas roupas não eram amigas das curvilíneas. “Para as mulheres que cresceram durante a Guerra, com uma dieta de guerra, as roupas davam certo”, diz Lister, possivelmente forçando uma tese. Ela acrescenta que Quant queria “lisonjear a personalidade e adorava a funcionalidade” (certa vez, ela disse que queria ter inventado os jeans).

Pode parecer contraintuitivo olhar o passado de uma estilista que estava sempre enfocada na próxima coisa. Mas a retrospectiva no V&A mostra que Quant continua incrivelmente contemporânea – e ousada. Como Peter Pan, suas roupas não envelhecem.

Perguntada sobre seu legado, Lister diz: “Você não estranharia nada se alguém usasse Mary Quant hoje. Sua atitude definitivamente continua viva nos jovens estilistas londrinos, mantendo Londres no mapa como o centro da moda irreverente, enérgica, inspirada no estilo das ruas. E se você olhar o trabalho das jovens estilistas mulheres britânicas de hoje, como Molly Goddard ou Simone Rocha, seus modelos incorporam o espírito empreendedor e arriscado das mulheres, a inovação e a diversão que sempre estiveram no centro do trabalho de Quant”.

Foi assim que a Women’s Wear Daily, a Bíblia da indústria da moda americana, elogiou Quant em sua época áurea: “Esses britânicos têm uma avalanche enorme de talento, charme e ideias inovadoras. O chic inglês é ferozmente AGORA”.

Com Mary Quant, aquela época e agora vêm a ser a mesma coisa.

Por Kate Kellaway

*Mary Quant, patrocinada pela King’s Road, está em exibição no Museu Victoria & Albert, em Londres, até 16 de fevereiro de 2020. Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves

The Observer

The Observer
Fundado em 1791, é um semanário publicado sempre aos domingos no Reino Unido. Pertence ao mesmo grupo de mídia do reconhecido The Guardian.

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