Cultura

Mais um Bahia! Mais um Buchinha!

O grito que me perseguiu durante os anos que passei lá fora

Foi quando completei um ano fora do Brasil que chegou um aviso cor de rosa do correio. Eram sete horas da manhã quando desci os quatro andares daquele velho edifício da Rue de la Roquette e encontrei, dentro do escaninho vermelho, o tal aviso cor de rosa de encomenda internacional, que estaria disponível na agência do meu bairro somente no dia seguinte. 

No dia seguinte, antes mesmo de abrir a agência lá estava eu, debaixo de uma garoa fina e um frio de doer os ossos. Oito horas da manhã, ainda escuro, já estava em casa, com aquele pacote medindo 35 por 35 centímetros, segundo as especificações do papelzinho que veio colado no papel kraft que embrulhava a encomenda. 

Era tanta emoção quando chegavam esses pacotes do Brasil que inventei um ritual. Antes de abrir, preparava um chá de pamplemouse, esquentava um pão preto no forninho e colocava uma camada de geleia de laranja amarga por cima. Aí então é que começava a abrir o pacote. 

Aquele, sabia que era um disco de vinil. Pelo peso e pelo formato. Depois de retirar o papel kraft, encontrei duas placas de isopor, fechadas com várias tirar de fita crepe nas bordas. Lá dentro sabia que estava um disco, mas não fazia ideia que disco era. 

Um suspense que era cultivado com pequenos goles de chá de pamplemouse e mordiscadas no pão preto com geleia de laranja amarga.

Com um estilete, fui cortando cada fita crepe até chegar ao disco, tomando cuidado para não ferir a capa.

Aos pouquinhos fui vendo a borda colorida de vermelho e amarelo mas mantive o suspense. Aos vinte e poucos anos de idade, eu cultivava uma paciência de Jó e enchia minha vida de suspenses. Não pense que saía rasgando embrulhos e retirando lá de dentro a encomenda. 

Minha paixão pela música popular brasileira era tamanha que eu fechava os olhos, apalpava o disco, sem saber de quem era. Ia caminhando até o toca fitas bem tosco que compramos na Darty, ligava e ia apalpando até conseguir colocar o vinil no prato e a agulha em cima dele. Foi assim com esse disco. 

Primeiro, ouvi aquele chiado produzido por nossa agulha estava sempre meio gasta e depois veio a surpresa. 

Mãe é mar

Mares não maré, água e terra

Mãe é mar

Mares não maré, água e terra

Mar, amar

Pra saber da árvore com galhos pra quebrar

Em secas folhas ao chão

Secos e duros gravetos

Em lenha pro fogo que cozinha esses anos todos

A grande panela do mundo

Identifiquei de cara que eram os Novos Baianos e foi ai que abri os olhos e vi a capa, a foto de uma pelada no sítio em Jacarepaguá e o título: Novos Baianos F.C. 

Enquanto rolava a primeira faixa – Sorrir e cantar como Bahia – fui logo ver a contracapa, saber que outras músicas tinha, todas elas desconhecidas: Só se não for brasileiro nessa hora, Cosmos e Damião, O samba da minha terra, Vagabundo não é fácil, Com qualquer dois mil reais, Os pingo da chuva, Quando você chegar, Alimente e Dagmar.

Aquelas canções eram a mais perfeita tradução de um Brasil longínquo, que estava ficando pra trás, esquecido na memória. 

Era um tempo em que a gente tinha saudade do guarani ao guaraná. Aquela vontade de comer farinha de mandioca, de morder um caju, de comer uma tapioca, de traçar uma feijoada completa.

Ouvi dez vezes a música Cosmos e Damião durante o dia, fique intrigado, fui dormir com ela na cabeça. 

Qui qui qui qui não é qui qui qui

Que bom é bom demais pra ser aqui

 Mais um! Mais um, Bahia! Mais um!

Mais um, Buchinha!

Quem era buchinha? Convoquei meus amigos baianos da Casa do Brasil e nada, ninguém tinha a menor ideia de quem se tratava. Talvez um craque do Bahia, lá dos anos 40? 

Não havia Larousse nem Petit Robert naquela Paris que me dissesse quem era Buchinha, aquele que fez mais um gol pro Bahia Futebol Clube. Mandei cartas pro Brasil perguntando a todos e nunca tive resposta. 

Mas hoje, mais de quarenta anos depois, fiquei sabendo, finalmente, quem era Buchinha, aquele que ficou na minha cabeça durante a década que passei fora do Brasil. 

Agora, vou dizer quem é. Buchinha era a filha de um dos Novos Baianos, o Paulinho Boca de Cantor, conhecido carinhosamente também como La Bouche, a boca em bom português. A filhinha dele, que adorava jogar futebol, era a tal Buchinha. 

E assim foi desfeito mais um mistério do Planeta. 

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