Leoni: ‘Morrem milhares de uma doença que já tem vacina’

Cantor e compositor diz que as pessoas poderiam estar bem menos preocupadas hoje com a pandemia se a imunização tivesse sido acelerada

Foto: Divulgação

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Cultura

Chovia cântaros em Leopoldina, cidade da Zona da Mata mineira. Leoni estava lá com sua banda. Sem condições de fazer a apresentação ao ar livre, quando se preparava para ir embora, o prefeito da cidade exigiu a realização do show, mesmo que as pessoas tivessem que assistir dentro de seus carros. E assim foi feito.

“Foi horroroso. Não tinha aplausos. Não sabia o que as pessoas estavam achando. Aí falei que caso elas gostassem da música, ao final poderiam dar uma buzinada. Aí virou um inferno”, conta o cantor e compositor, fazendo a comparação com a moda que quase pegou na pandemia de se realizar apresentação musical em um ambiente tipo drive in. Ele chegou a recusar proposta com essa opção em meio à dificuldade de se realizar shows presenciais por conta do isolamento social.

“Não deu certo [show drive in na pandemia], até pelo preço do ingresso, já que a limitação de acesso de carro aos locais de show acabava fazendo o ingresso ficar caro. Aí tornou-se muito elitista”.

Naquele longínquo período do famigerado show na cidade do interior de Minas Gerais, Leoni estava à frente do Heróis da Resistência, grupo que criou após deixar em 1986 uma das bandas de maior sucesso da época e que chegou a vender antes de sua saída meio milhão de discos: o Kid Abelha.

O músico foi autor de grandes sucessos e fazia o baixo da banda. Mas queria cantar. Daí formou o Heróis da Resistência, lançando mais sucessos, como Dublê de Corpo e Só Pro Meu Prazer, até que em 1993 desfez o grupo.

“Quando larguei o Kid Abelha para formar o Heróis da Resistência, todo mundo falou: ‘Como você vai abandonar uma banda bem sucedida?’. Depois parti para carreira solo. Aí, todo mundo de novo: ‘Pô, vai abandonar outra banda’. Mas fui. Passei de 1995 a 2002 sem lançar nada. Se perguntarem o que fiz nessa época, eu respondo: dívidas”, comenta aos risos.

Hoje, Leoni, aos 60 anos [celebrado no dia 8 de abril] vive um momento de tranquilidade na carreira e pode escolher o que fazer. Diz nunca ter pensado que como artista chegaria a isso.

“Não preciso estar brigando por primeiro lugar da parada, tendo que lançar e ser bem sucedido nisso”, afirma. O cantor e compositor criou carreira sólida, formou público e, diferente de boa parte de sua geração do rock surgida nos anos 1980, marca posição, não se atolou em dubiedades, escreveu livros e dá aulas sobre sua arte.

 

Tempos digitais

Há cerca de 10 anos, lançou o Manual de Sobrevivência no Mundo Digital, em que tenta explicar a revolução que passava a indústria.

“Na época que escrevi o livro, eu achava que não haveria dinheiro no mundo digital para a música. Mas me enganei redondamente porque a gravadoras estão ficando ricas, diferente dos cantores e compositores. Acredito que em algum momento esse dinheiro terá que ser redistribuído”, diz, sendo mais um artista a reivindicar melhor pagamento das execuções nas plataformas de streaming.

E o olha que Leoni tem suas músicas executadas bem acima da média dos músicos na web e fora dela (rádio, tv etc.), o que representa recebimento de direitos autorais regulares e razoáveis.

“O momento é ainda de revolução tecnológica. Meu livro, que foi escrito em 2010, parece que saiu no século XVIII. A live é capaz de continuar quando normalizar, com shows mais produzidos na internet. Você pode transmitir para todo mundo, mas também não tem mais turnê. Não me atraio muito”.

 

Pandemia

Ele não tem um cálculo preciso, mas acha que a indústria da música deve empregar tanto quando a indústria automobilística. “Imagina você pegar todos os shows que têm em barzinho no Brasil? Tem o transporte, o som, a bebida, a comida. Todo esse ecossistema ao redor da música emprega demais e, com certeza, neste momento, há muita gente passando necessidade”.

Diz que todo mundo poderia estar bem menos preocupado hoje. “Nós temos pessoas morrendo aos milhares de uma doença a qual já se tem uma vacina e a gente podia estar vacinando todo mundo. O que vai sobrar dessa desgraça? Acho muito triste a miséria que o nosso povo foi jogado”, lamenta.

“Essa pandemia mostrou que arte é algo essencial. Como as pessoas poderia ter sobrevivido se tivessem em casa sem uma série, sem um filme, sem música, sem um livro? Mas sei que isso pode cair no esquecimento quando voltar ao normal. Mas gostaria que as pessoas lembrassem a importância que as artes têm para a humanidade”.

Leoni tem lançado alguns trabalhos colaborativos e singles na pandemia. O mais recente foi uma parceria inédita com Henrique Portugal, do Skank. Existe outro para lançar ainda esse mês, dessa fez uma composição com Zélia Duncan. Com inquieto André Abujamra lançou um single, mas está previsto outros.

O músico também tem dado cursos online de composição para não compositores, algo que já fez no passado, presencialmente. Leoni havia escrito um livro tempos atrás onde conversa com compositores, a maioria de sua geração, sobre o processo criativo na composição. Leoni já fez música com muita gente, de Cazuza [como a clássica Exagerado, que tem ainda Ezequiel Neves como autor da música] a Ivan Lins, um dos artistas que admira.

“Estava na faculdade de letras, mas tranquei (por conta da pandemia). Tenho vontade de dar aula”, diz com voz serena, mas ainda preocupada em interagir a arte com o público: “Gosto muito disso”.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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