Lazzo Matumbi: ‘A sociedade acha que a questão racial é só do negro’

Compositor e ativista vê inquietação na periferia com o descaso do governo e perdas na pandemia: 'Parece projeto de extermínio'

Foto: Caio Lirio/Divulgação

Foto: Caio Lirio/Divulgação

Cultura,Entrevistas

“Estamos em 2021. A gente acreditava que a sociedade teria evoluído até chegar ao estágio de compreensão de respeito às diferenças. Mas observamos em todo o mundo, e principalmente no Brasil, que essas diferenças ainda não são respeitadas quanto se trata das comunidades negra e indígena”.

As palavras do cantor, compositor e ativista baiano Lazzo Matumbi são complementadas com uma avaliação ainda pior do momento atual: “Tem-se o sentimento que a sociedade trouxe o que estava escondido embaixo do tapete. Nós, da comunidade negra, já sabíamos que o Brasil não assumia o racismo, mas ele esta aí agora ainda mais vivo. O pior de tudo é que a gente vive numa sociedade que não assume essa responsabilidade, que acha que a questão racial é só do negro, mas ela é de todos nós”.

Nascido em Salvador e referência da música baiana e dos blocos afros pela defesa do povo negro, Lazzo afirma que a postura é provinciana. “A gente só se move quando acontece algo, como foi o caso do George Floyd (morto ano passado por um policial nos EUA) em que o mundo se mobilizou, inclusive no Brasil”.

 

Na pandemia, a situação foi agravada, com mais mortes entre negros e pobres, muitos nem computados nas notificações. “Parece um projeto de extermínio. Um descaso muito grande da sociedade e dos governantes”.

O ativista, porém, crê que existe uma parte da sociedade empenhada em reconstruir de forma mais justa e igualitária o País. “Mas boa parte está adormecida por conta da escravidão mental e do privilégio”, diz.

Nas suas conversas com pessoas ligadas à comunidade negra, diz que “percebe uma inquietação positiva”.

“Existe uma percepção da sociedade negra, periférica e de indígenas que não se pode continuar assim. É necessário que mobilizemos. Não adiante sonhar que venha alguém para fazer por nós”, afirma.

Sobre o Dia da Consciência Negra, neste 20 de novembro, porém, as palavras são de esperança: “Desistir jamais, acreditar sempre. Estamos numa guerra eterna e a gente precisa se aquilombar, se acolher e se juntar se quisermos reconstruir este País e deixarmos algo para as próximas gerações”.

Tributo

Os DJs Peu Araújo e Bruno Komodo (eles formam o Rabo de Galo), em parceria com o produtor baiano Ubunto, produziram o álbum Ainda Atrás do Pôr do Sol, que homenageia Lazzo Matumbi. O projeto foi contemplado pelo programa Natura Musical.

Alguns singles já foram lançados dessa iniciativa, que conta com a participação de Luedji Luna, Anelis Assumpção, Curumin, Larissa Luz, Fran, Josyara, Nara Couto, Nikima e Fabriccio.

O título do projeto é uma referência direta ao álbum Atrás do Pôr do Sol (1988), clássico álbum de Lazzo com exaltação ao negro. “Fico lisonjeado com o tributo. O disco de 1988 é tão atual. Meus questionamentos de lá são atualíssimos”, afirma ele, que também elogia a nova geração envolvida no projeto sobre suas músicas.

Em setembro, Lazzo Matumbi havia lançado um disco em que celebrava 40 anos de carreira. É o seu nono álbum, intitulado Àjò, palavra de origem yorubá cuja tradução para algumas etnias africanas significa jornada. No Brasil, ganhou significado que para a comunidade negra e para a luta antirracista se traduziu como união.

Lazzo Matumbi foi vocalista de blocos afros na Bahia, como o Ilê Aiyê, popularizou o samba-reggae e entre suas composições mais conhecidas estão Me Abraça e Me Beija (composta com Gileno Félix), sucesso com a Banda Eva, e Alegria da Cidade (dele e Jorge Portugal), com Margareth Menezes. Na música Abolição, a verve de luta do compositor baiano: “Acabar com a tristeza / Com a pobreza e o Apartheid / Não fazer da humanidade / A metade da metade / Parte branca e parte negra”.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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