Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

"La La Land" e os amores contrariados

por Matheus Pichonelli publicado 24/01/2017 08h00, última modificação 24/01/2017 15h53
A fantasia, aqui, já não é o sonho, mas a impossibilidade de sonhar junto e de ceder. Suspiramos pelo que podia ter sido, não pelo destino dos comuns
La La Land

O filme rompe com a atmosfera sombria de "Whiplash", longa anterior de Damien Chazelle

*ATENÇÃO: texto não recomendável para quem ainda não viu o filme

 

J.K Simmons, o sádico e impiedoso professor de jazz de “Whiplash”, é dono de um restaurante onde Sebastian, o pianista interpretado por Ryan Gosling em “La La Land”, está proibido de tocar qualquer música que não seja alegre, festiva e de fácil digestão na noite de Natal. A ironia é um dos muitos truques do filme.

Se em seu primeiro trabalho Damien Chazelle mostra que a perfeição é uma nota erudita inalcançável aos ouvidos comuns, no segundo, um musical, a busca do sucesso não é menos arbitrária. Ela exige a reconstrução de sonhos, de identidades, de perspectivas. É uma espécie de marretada em talentos e vocações que devem caber dentro em uma mesma caixa - acessível, pré-moldada, de fácil acepção.

Vencedor de sete Globo de Ouro, incluindo melhor filme, “La La Land” provavelmente puxará a fila dos indicados ao Oscar em 2017 e dará pistas do que veremos daqui em diante.

No ano passado, parte dos concorrentes tinha um pano de fundo comum: o esforço de seus protagonistas para atravessar praticamente sozinhos um terreno inóspito – a selva (“O Regresso”), o espaço (“Perdido em Marte”), o oceano (“Brooklyn”), as relações abusivas (“O Quarto de Jack” e “Mad Max”). Uma exceção era “Spotlight”, uma história sobre um trabalho em conjunto – justamente o vencedor do Oscar de Melhor Filme.

“La La Land” rompe com a atmosfera sombria de seu antecessor e propõe um resgate, com referências em camadas aos grandes musicais de Hollywood (levem a lupa e divirta-se), onde tudo é venerado e nada é valorizado, como resume o pianista que tem como proposta evitar a morte do jazz.

Mas aquele terreno de sonhos, cores e música é também inóspito, frustrante – do alto, o conjunto de estrelas vistas em um observatório parece um cemitério de subjetividades. Logo no início, vemos uma fila de carros que não andam, não fluem. Todos querem o mesmo destino, mas só alguns serão vistos na multidão - até aqui, uma história como tantas outras. É Hollywood vista por dentro, e revista como releitura.

Desta vez, porém, o esquisitão que se tornava um eremita à medida que o projeto fracassava, tem a companhia de Mia (Emma Stone). De mãos dadas, eles conseguem arrancar suspiros do público enquanto tentam descobrir a veracidade da máxima embutida em refrão segundo a qual o sonho que se sonha junto é realidade. Mas sonho, no singular. Sonhos, no plural, podem ser linhas paralelas que jamais se encontram. Ele, de fazer de seu trabalho um resgate de um gênero esquecido. Ela, de se tornar atriz.

A partir de então a história do encanto se torna também desencontro, e é aí que o diretor parece fazer seu maior resgate: as grandes histórias de amor são as histórias de amor contrariados, como ensina Gabriel Garcia Marquez em seu “O Amor nos Tempos do Cólera”. Para ele, a força que impulsionou o mundo não são os amores felizes. “Casablanca” ou “E o Vento Levou...”, pedras angulares do cinema, não o deixam mentir. Nem Romeu e Julieta, que tiveram apenas uma noite juntos.

A fantasia, aqui, já não é o sonho, mas a impossibilidade de sonhar junto e de ceder. No fim (e a não ser que tenhamos um pedaço de acém no lugar do coração), suspiramos pelo que podia ter sido, não pelo destino dos comuns – casa, carro, filhos, quintais, janelas e sonhos às favas. Para o restante, sempre teremos Paris. E a música. E o cinema.