Juçara Marçal lança álbum com base eletrônica e poesias inesperadas

Com produção musical do inovador Kiko Dinucci, disco explora novas linguagens com a voz contundente da cantora

Foto:  Pablo Saborido/Divulgação

Foto: Pablo Saborido/Divulgação

Cultura

Juçara Marçal tem a característica de apresentar nada óbvio nos projetos em que se envolve, como, por exemplo, no grupo Metá Metá e quando interpretou Joana na peça Gota D’água {Preta}.

No seu segundo álbum solo, Delta Estácio Blues, não foi diferente. A produção musical do trabalho de Kiko Dinucci, um dos mais criativos músicos da atualidade, ajudou bastante na tarefa.

O disco usa bases eletrônicas em canções com letras inesperadas, atuais e incisivas. Segundo Juçara Marçal, somente a partir delas é que se pensou em desenvolver letras e melodias.

“Decidimos fazer um álbum em que canções partiriam de bases eletrônicas que construiríamos no computador, trazendo para isso samplers, riffs, gravação de som ambiente e ruídos aglutinados com diferentes ritmos”, explica a cantora. “É um processo usual para o rap. O rapper parte de bases. Para o nosso universo foi uma coisa bem diferente”.

 

 

No seu primeiro disco solo, Encarnado, Juçara fez um trabalho de interprete. Neste, ela mergulhou na composição. Nas 11 faixas, ela assina seis.

“Este trabalho exigiu uma atitude autoral, de fazer composição desde os primeiros passos. Quando você está dentro do processo, é natural que você componha. Eu fiz com Kiko a base e já vinha com uma ideia de melodia, uma sugestão de tema”, conta.

 

Robert Johnson

A faixa-título Delta Estácio Blues é dela com Rodrigo Campos e Kiko Dinucci. É uma bem inventiva música: “Robert Johnson escreveu 29 canções / Era um homem medíocre / Tocando violão / No Estácio pagão / Bide, Baiaco, Ismael / Fez trato com três malandros / E desapareceu / Alguns anos no breu / E reapareceu / Delta Blues Mississipi / Cultua novo Deus”.

“Essa música a gente mandou a base para o Rodrigo. E toda a ideia de criação foi imaginação dele. Pôs o Robert Johnson tendo contato com os malandros sambistas do Estácio e, assim, mudando o jeito dele tocar”.

A lenda Robert Johnson morreu cedo, aos 27 anos, mas mudou a história da música americana ao impor uma nova maneira de tocar cujo estilo referenciou o chamado Mississipi Delta Blues.

“No processo de escolha do nome do disco, essa ideia fantástica de unir o blues ao samba urbano tinha a ver com o processo inteiro do álbum, que usou base de rap, autores brasileiros, nossas referências com a música afro. Eram vários símbolos que davam significado ao cruzamento de linguagens e cultura e tinha a ver com disco todo”, explica Juçara.

Delta Estácio Blues traz ainda composições de Siba (Vi de Relance a Coroa) e Tulipa Ruiz (Ladra). A composição Crash, de Ogi, é um grito sutil à realidade e tem um videoclipe feito no Rio de Janeiro. Também entrou uma música do projeto em que interpretou em francês a obra de Brigitte Fontaine.

 

 

Em Corpus Christi (dela com Douglas Germano e Kiko Dinucci), uma crônica do feriado na praia do litoral sul. Em Iyalode Mbé Mbé (dela com Kiko), o ioruba converge com a música eletrônica. O projeto conta com o patrocínio do Natura Musical. O lançamento é do selo QTV.

Ouvir Juçara Marçal e Kiko Dinucci é essa inventividade. Os dois viajam em novembro para 32 shows pela Europa pala apresentar Rastilho, disco de Kiko lançado ano passado e eleito um dos melhores de 2020.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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