Josyara se impõe com voz firme, violão percussivo e canções com novos olhares

Cantora e compositora une sonoridade do samba de roda com letras e melodias atuais

Foto: Julia Rodrigues/Divulgação

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Cultura

Nascida em Juazeiro, terra de João Gilberto, ícone do violão da Bossa Nova, Josyara acabou se apaixonando mesmo pelo instrumento de corda dedilhado por Roberto Mendes, do Recôncavo Baiano. Não que ela não quisesse aprender a música projetada pelo filho ilustre de sua cidade natal, mas é que, ao chegar em Salvador, viu que a música ali difundida na capital baiana tinha muito do autêntico samba de roda.

“Quem me chamou a atenção em Salvador pra o samba de roda foi a cantora e violonista Marília Sodré. Ela estava tocando um pout pourri e fiquei impressionada. Ela tocava completamente diferente. Isso foi me pegando. Chegar em Roberto Mendes foi inevitável”, afirma.

A cantora e compositora de 29 anos tem no seu violão esse embalo mais percussivo, típico do Recôncavo Baiano. Mas isso é apenas uma forma de se expressar com mais força. A voz firme associada às canções com olhar sensível e melodias modernas fazem Josyara se impor no cenário musical atual.

No início da pandemia, ano passado, ela lançou pela Joia Moderna um trabalho novo, o Estreite, em parceria com Giovani Cidreira. O projeto tem um aspecto mais experimental.

“No Mansa Fúria [trabalho anterior lançado em 2018], meu violão estava em evidência. Estreite ele fica picotado, vira sample”, explica.

O Mansa Fúria ela considera de fato seu primeiro disco. Em 2012, ela lançou o Uni Versos que, segundo ela, teve circulação restrita e nem nas plataformas de streaming está.

 

 

Durante a pandemia, fez alguns singles com parceiros. Se o mundo não estivesse em quarentena no ano passado, ela estaria viajando ao exterior percorrendo festivais, dando sequência ao trabalho de lançamento de Mansa Fúria.

“Tenho frustração e luto. Quando a gente foi percebendo que [a pandemia] só piorava, não queria compor, cantar, fazer live. Comecei a fazer porque vi que era única forma de entrar algum dinheirinho. Ia fechar o lançamento do Mansa Fúria no exterior, mas não deu tempo. Fora esse luto eterno no Brasil que não se tem perspectiva de nada”.

Essa incerteza sobre o futuro tem a deixado apreensiva do que pode ser realizado. Josyara tem composto para novo álbum, mas sem definir quando entrará no estúdio.

“Não quero lançar um disco sem poder fazer um show. Eu estou refém dessa coisa nebulosa que estamos vivendo. Mas estou em processo de criação”.

Josyara saiu de Juazeiro aos 15 anos e já tocava violão. Foi morar em Salvador, estudar música e cantar na noite. Em 2014, passou a fazer shows em São Paulo, onde hoje mora.

Sua influência, o cantor, compositor e violonista Roberto Mendes, de Santo Amaro da Purificação, diz que ela parece ter nascido no Recôncavo Baiano. “Essa coisa percussiva do violão é de estontear. Toca muito bem. E é uma compositora ímpar, visceral”.

A cantora não gravou nada ainda de Roberto Mendes, que é bastante conhecido por ter composições interpretadas por Maria Bethânia. A estreita relação dele com as manifestações do Recôncavo o faz ser uma referência da matriz musical brasileira.

Assim como ele, Josyara pensa o violão como tocasse tambor, como os violeiros do samba de roda e da chula. Um instrumento mais percussivo e menos harmonizado. “João Gilberto (da terra de Josyara) tem um violão todo harmônico, harmonia verticalizada”, compara Mendes.

O Mansa Fúria é um álbum de composições próprias de Josyara, bastante peculiar de seu cotidiano e de reflexões, movimentos e pensamentos atuais. A produção do Mansa Fúria é de Junix 11, que também trabalhou em Estreite. Nas lives que tem feito dá pra conhecer bem a força de seu trabalho.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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