Cultura

São Paulo

João Doria contra a arte

por Raisa Pina — publicado 31/01/2017 14h42, última modificação 31/01/2017 17h16
Se o dono do muro é quem decide o que é arte, o que fazer quando o dono é o Estado e a rua é pública?
Suamy Beydoun/AGIF/AFP
O prefeito de São Paulo João Doria

A parede pública tem que ser cinza, sem nada a ser interpretado, questionado, criticado ou pensado. Na foto, Doria lança operação Cidade Linda na Av. 23 de maio, em São Paulo

“Quem decide o que é arte?”, ouvi uma mulher perguntar em tom de retórica, sem dar tempo de alguém argumentar.

Ela mesma respondeu: “É o dono do muro. E se o muro é público – se é meu, se é seu e se é de outra pessoa, e cada um tem um gosto diferente por arte –, então eu concordo com o Doria: tem que ser cinza.”

A polêmica suscitada a partir da decisão do prefeito de São Paulo acalora o debate do que é ou não é arte, mas vai além: transborda para a disputa política e a defesa dos princípios capitalistas.

Entender que o dono do muro é quem decide o que é arte é eleger o detentor da propriedade privada como o rei de todas as regras: “Se eu paguei, é meu e eu mando” – simples, arrogante e equivocado assim.

Vivemos em circunstâncias onde manda quem tem dinheiro para pagar e a discussão sobre o grafite coloca estética e política num plano comum que explicita a ganância capitalista.

Se o dono do muro é quem decide o que é arte, o que fazer quando o dono é o Estado e a rua é pública?

Apesar de a palavra “pública” envolver diversas acepções, neste caso específico, podemos entender o público como aquilo que pertence a todos. Público é aquilo que é meu, é seu e é de outra pessoa, como bem disse a mulher equivocada do início do texto.

O curioso que se faz presente aqui é uma distorção do público enquanto “de todos” para um público que é “de ninguém”, numa arrogância bastante autoritária, do tipo “Se eu não faço, então ninguém mais deve fazer” ou “Se eu não gosto, então não pode existir”.

Esse é o neoliberalismo direitista distorcendo a noção de democracia como tem feito nos últimos tempos: é assim no Palácio do Planalto, é assim na 23 de Maio.

Enquanto o caminho do progressismo tende à valorização da arte urbana muito pela acessibilidade cultural que ela cria à população, pela aproximação que se faz entre arte e público sem distinção de classe e cor, o neoliberalismo de Dória opta por silenciar a diversidade inclusiva, por calar a voz legítima que vem das ruas e por enfatizar que vivemos em um regime onde quem manda é o dono daquele pedaço de chão.

A parede pública, do povo, essa tem que ser cinza, sem nada a ser interpretado ou questionado ou criticado ou pensado. Pensar não é bom, obediência e silêncio são melhores. Cabeça baixa, sem nada para olhar ao redor, é melhor. E assim a vida mecânica segue, do jeito que a direita gosta.

Quando ouvi aquela mulher falar com tanta força que o muro “tem que ser cinza”, perguntei-a imediatamente: “Mas por que cinza? Por que não pode ser vermelho?” A resposta veio com aquela sensatez forjada depois de um leve gaguejar: “Porque é questão de bom senso”. Não me aguentei e ri. “Bom senso de quem?”, perguntei. “Bom senso, oras”, ela disse como se fosse algo bem definido no dicionário Aurélio.

Bom senso: s.m.; parede cinza. A gota d’água para mim é ter que, além de tudo, engolir em seco o nome do projeto: “Cidade Linda”.

Não há nada de lindo em um muro cinza fúnebre que aniquilou obras de arte tão importantes seja pela estética, seja pela contribuição à história da arte no Brasil e no mundo, seja pela apropriação dos espaços públicos urbanos que devem sim ser cada vez mais ocupados, seja por colocar arte no cotidiano de pessoas que não se identificam com as instituições culturais ou que não tem tempo para a arte devido a exploração capitalista da mão de obra.

O que Doria cometeu foi um crime ainda não previsto no Código Penal, um desrespeito imensurável à arte como prática, como poética, como política e como instituição.

Quem decide o que é arte passa longe de ser o dono do muro, assim como quem decide uma sentença judicial não é o dono da ação, mas uma instituição especializada.

Quem decide o que é arte é também uma instituição própria, formada por artistas, pesquisadores, curadores, museólogos, teóricos, críticos e historiadores, profissionais sérios e dedicados à arte, todos eles ignorados pelo dono da cidade de São Paulo e seus apoiadores, que decidiram que o cinza é melhor que um painel urbano.

Está na hora de a arte ser levada a sério, como deve ser; está na hora de a instituição artística ser respeitada enquanto tal. Porque para além da mera subjetividade individual do gosto, existe uma objetividade científica muito clara que Doria assassinou.

São Paulo era um acervo a céu aberto. Agora só ficaram as cinzas e o luto.

Ainda bem que luto é verbo (frase pichada nas paredes da Universidade de Brasília. Genial e perigosa, como a arte sempre é). 

* Raisa Pina é jornalista e mestranda em Teoria e História da Arte