Janet Malcolm fez do jornalismo a profissão impossível

Entre reportagem e reflexão, os dilemas do livro 'O Jornalista e o Assassino' não voltam atrás

Foto: Divulgação

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Cultura

“Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”, diz a primeira frase de O jornalista e o assassino, obra-prima de Janet Malcolm, falecida na quarta-feira 16, aos 86 anos.

Repetida sempre que seu nome é lembrado, a frase mais conhecida da jornalista poderia vir acompanhada de um adendo grosseiro, que pouco lembraria sua escrita sofisticada: “E qualquer jornalista que se sinta pessoalmente ofendido por essa afirmação, ou ache que ela diminui seu ofício, entende pouco sobre o que pratica todos os dias.”

Lançado em 1990, o livro de não-ficção levou o jornalismo a um caminho sem volta. Por questionar com argúcia inédita os preceitos éticos da profissão, a obra de Janet Malcom foi recebida com hostilidade por parte considerável dos seus colegas. “Minha análise da traição jornalística foi vista como uma traição ao próprio jornalismo, bem como um exemplo de insolência aristocrática”, lembrou ela em 2011 à revista Paris Review, numa das raras entrevistas que concedeu. Os jornalistas ofendidos viam também nessa atitude uma postura arrogante, de quem se apresentava como alguém que teria “rompido as fileiras” e se considerava “mais honesta e clarividente que o resto”.

O jornalista e o assassino se tornou onipresente em cursos de graduação e suas críticas hoje beiram o “truísmo” – como aponta Katie Roiphe, autora da entrevista de 2011 –, mas a obra garantiu a Malcolm um lugar entre “a controvérsia e o establishment” e a posição de “grande dama do jornalismo e, de algum modo, sua enfant terrible”. Os rótulos inspirados na frase inicial do livro atraíram interlocutores ferozes, que a interpelavam sempre que ela se dispusesse a falar em público. Conta Michelle Dean em Afiadas (Todavia), que também em 2011 a autora teve de responder um jovem que, indignado com o que ela dizia em um festival de jornalismo, questionou a hipocrisia na abertura do livro. “Bem, foi um pouco de retórica, você entende?”, disse Malcolm, desconcertando o rapaz.

Por mais retórica que a frase pudesse conter, o sentimento de “dedo na ferida” que lançou dali em diante tem sua força baseada na franqueza, na curiosidade e na capacidade de reflexão das quais Malcolm é representante singular no jornalismo. Ao explorar os problemas centrais do livro: a relação ambígua entre repórter e fonte, os limites mútuos da confiança e a eterna traição que decorre desse encontro, ela não poupa nenhuma das partes envolvidas nesse jogo. Ao contrário, busca as contradições e põe sempre todas as cartas na mesa, questionando a si mesma enquanto escreve e dando pistas de percursos possíveis para encarar esses problemas. Por mais que o tom taxativo da frase célebre possa sugerir o contrário, o compromisso de Malcolm é com a dúvida, com o impasse e com a desarrumação (nunca gratuita) da linguagem.

Ainda que esses dilemas da prática jornalística valham debates por si só, a abordagem de O jornalista e o assassino não teria o mesmo efeito se empreendida por uma autora interessada em teorias da comunicação, metodologias ou qualquer influência que sugerisse hermetismo ou academicismo. Talvez a maior qualidade da autora seja desenvolver um nível tão apurado de reflexão no formato de reportagem – que apresenta, expande e confunde os temas que desenvolve. A história do criminoso que acredita ter o apoio total de um repórter até ver o resultado de suas entrevistas publicado desenvolve todos os requisitos clássicos de uma boa matéria.

Malcolm apura detalhes do processo judicial que decorre entre ambos, vai a lugares importantes para a história, entrevista personagens principais e secundários, analisa documentos e apresenta versões disputadas sobre os fatos. Sua reportagem tem cenas, reviravoltas, declarações poderosas, ambientação detalhada e construção narrativa que não ficam devendo a nenhum manual. Mas vai além da simples narração do caso: se interessa por trazer o problema para perto e fazer perguntas que não raramente superam a própria história. O que faz é principalmente reportagem. Mas, quando faltam respostas definitivas a suas perguntas, faz também análise crítica e ensaio.

O percurso entre reportagem e reflexão marca toda sua obra. A mulher calada toca em problemas claros da linguagem de não-ficção e reverbera questões encontradas não só no jornalismo. Em Anatomia de um julgamento: Ifigênia em Forest Hills e The Crime of Sheila McGough, analisa a relação entre lei e verdade a partir de processos judiciais confusos que condenam duas mulheres provavelmente inocentes. No perfil 41 Inícios falsos, os 41 começos possíveis para um texto sobre o pintor David Salle formam o mosaico que compõem o perfil e brincam com o conceito jornalístico de lide – o primeiro parágrafo de uma matéria. Em todos esses textos, Malcolm nunca escreve a história dos casos que escolhe contar, mas principalmente a história de si mesma no processo de apuração, narrando os problemas, dúvidas e contradições de linguagem envolvidos nesse percurso.

Essa mesma maneira de pensar a reportagem, que explora o formato pela reflexão e metalinguagem constantes, é o que faz Malcolm ter um lugar de destaque em todos os tipos de experimentação jornalística. O Novo Jornalismo, que uniu a reportagem com técnicas narrativas da ficção em meados do séc. XX nos EUA, entretanto, nunca traz seu nome em nenhuma coletânea de textos famosos, nem aquelas que se propõem a reunir seus herdeiros atualmente.

Com artifícios repetidos à exaustão, a herança do Novo Jornalismo pode ser considerada uma maldição viciosa. Quase todos os esforços de se experimentar no jornalismo quase sempre recaem nos preceitos dessa escola. Malcolm foi uma das poucas exceções, ao mudar o foco das técnicas da ficção para a digressão e o questionamento – principalmente pela força relativizadora de ambos. Esse passo à frente específico no fazer da reportagem, é bom lembrar, não é facilmente reproduzível e provavelmente teve nela sua única praticante regular.

Desde a publicação de O jornalista e o assassino, é provável que poucos livros-reportagem tenham desarrumado tanto noções fundamentais sobre a profissão, além de abalar, com maldade eficaz, a consciência de profissionais que até hoje se indignam ao ler sua frase inicial. Desnecessário dizer que o livro e a obra toda de Malcolm, ao invés de atacar gratuitamente a linguagem jornalística, prestam uma espécie de serviço ao escancarar suas contradições, arriscar saídas, encontrar novos problemas e jamais deixar de fazer perguntas – o que em nada diminui ou destrói a importância do ofício. Mais fácil apontar que nem a própria Malcolm sabia a resposta exata para esses dilemas éticos: o que fez foi descrevê-los, analisá-los, tentar compreendê-los. Nossa sorte, mesmo depois de sua morte, é que não podemos voltar atrás nessa discussão, nem mais fingir que os problemas indicados por ela nunca existiram.

 

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Repórter da revista CartaCapital

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