Cultura
Inventário afetivo
Em uma nova autobiografia, Patti Smith volta-se para a infância e revê as epifanias que moldaram sua sensibilidade
Na véspera do Natal de 1948, Beverly Williams comprou dois pinguins de madeira pintados à mão e dois pirulitos para colocar na meia das duas filhas, Patricia e Linda, como presente do Papai Noel. Aquilo era tudo o que estava ao seu alcance.
Voltando do trabalho de garçonete, grávida, ao descer do ônibus, notou que os presentes haviam sido roubados no trajeto. Ver as filhas sem um presente no Natal deixou um buraco enorme no coração de Beverly, que durou anos a fio, conta Patricia, uma das filhas, chamada de Patti.
“Desde então, acho impossível deixar passar pequenos pinguins em mercados de pulgas ou lojas de artigos baratos, como se quisesse preencher o vasto campo de gelo deixado em seu triste e sólido coração”, escreve a cantora, compositora, artista, poeta, fotógrafa e escritora Patti Smith em seu mais recente volume autobiográfico, Pão dos Anjos.
Embora este seja seu sexto trabalho autobiográfico, é o primeiro que não se limita a um período específico – daí o subtítulo, A História de Minha Vida.
Relatos cheios de humanidade como este fazem com que seja o mais íntimo e contemplativo de Patti Smith – artista cuja obra sempre transitou entre o sagrado e o terreno, entre a memória e o mito. Em determinado trecho, ela declara: sou memória. E é.
Por meio da memória e do afeto, ela transforma a realidade em uma narrativa mágica. Na infância, por exemplo, ao encontrar dezenas de balas de M&M jogadas no chão, as vê como pedras preciosas prontas para serem coletadas pelos anões da Branca de Neve.
Pão dos Anjos vai de sua infância nômade e humilde no pós-Guerra, passada em quartos de pensão e apartamentos cedidos pelo governo, e marcada por doenças, até sua consagração artística, chegando aos desafios da velhice.
Em Só Garotos, Patti revisitou a juventude ao lado do fotógrafo, amigo e namorado Robert Mapplethorpe; em Linha M, explorou o fluxo errante de lembranças e viagens e seu processo de criação; e, em O Ano do Macaco, descreve a cansativa turnê que realizou em 2016.
Pão dos Anjos – A História de Minha Vida. Patti Smith. Tradução: Camila von Holdefer. Companhia das Letras (272 págs., 89,90 reais)
Agora, a artista volta-se principalmente para o núcleo mais profundo de sua formação: a infância, a família e as pequenas epifanias que moldaram sua sensibilidade artística e espiritual. Patti resgata as anotações feitas pela mãe em seu diário de bebê com perguntas que fazia quando tentavam lhe ensinar a rezar: O que é a alma? De que cor ela é?
O resultado é uma autobiografia curta, que funciona menos como relato linear e mais como um mosaico de iluminações coloridas – fragmentos que brilham por sua delicadeza e pela força emocional que carregam.
O título, que evoca o alimento espiritual da tradição cristã, não se refere à liturgia, mas ao que a autora descreve como “um raio repentino de luz capaz de capturar a vibração de um momento específico”. Essa definição resume o espírito do livro: Patti Smith busca, em cada lembrança, a centelha que transforma o ordinário em revelação, seja ela a alegria da gravação do primeiro disco, seja a dor da perda dos pais e do marido.
Há ternura na forma como retrata os pais, ambos trabalhadores, e a descoberta precoce da literatura e da música, que se tornariam seus pilares. Foi por meio de um livro que pertenceu à mãe, Silver Pennies (algo como centavos de prata, mas que também pode referir-se à expressão “um centavo de prata por seus pensamentos”) que a poesia entrou em sua vida para nunca mais sair.
“Compreendi a importância daquele livro e o aceitei com solenidade”, lembra ela. O pequeno volume surrado é uma das lembranças mais valiosas de sua infância. As portas estavam abertas para a jovem Patti encontrar em Rimbaud, Lewis Carroll e Bob Dylan não apenas referências, mas portais para uma vida possível, uma vida movida pela arte.
Um dos elementos mais impactantes do livro é a revelação tardia de que Grant Smith, o homem que a criou e foi seu suporte emocional durante vários períodos, não era seu pai biológico. A descoberta levou a artista a interromper, por dois anos, a escrita da obra.
Esse abalo identitário permeia o texto com uma vulnerabilidade que amplia o caráter de busca que atravessa toda a autobiografia. Patti não dramatiza o fato: ela o acolhe como mais uma camada de sua história, mais um enigma que compõe sua identidade.
Ao revisitar sua trajetória, a autora não esquece das figuras centrais de sua vida adulta: Mapplethorpe, Fred “Sonic” Smith, os anos do punk nova-iorquino, a construção de sua voz artística. Mas, como são histórias já vistas a fundo em outros livros, aqui essas presenças surgem como ecos que seguem a reverberar em sua memória. “No desapego, o que resta é a honra”, diz.
Nesse sentido, Pão dos Anjos foca menos no acontecimento e mais no rastro que ele deixa, construindo um inventário afetivo, um gesto de resistência contra o esquecimento.
Não se trata de uma autobiografia convencional, mas um convite para caminhar com a autora por entre as ruínas luminosas de seu passado, uma porta de entrada para uma das vozes mais singulares da arte contemporânea. •
Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Inventário afetivo’
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