Cultura
Inventar a vida
Mario Vargas Llosa revela as formas pelas quais os grandes romancistas nos convencem de que os mundos que criaram são como eles dizem ser
“Este não é um manual para aprender a escrever, coisa que os verdadeiros escritores aprendem sozinhos”, anuncia, na primeira frase de Cartas a um Jovem Escritor, Mario Vargas Llosa. Esse conjunto é, mais precisamente, uma “discreta autobiografia”.
Llosa, autor peruano ganhador do Nobel em 2010 e morto em 2025, aos 89 anos, nos mostra, neste pequeno e saboroso livro de 2011 agora reeditado, que, antes de um grande escritor, haverá sempre um grande leitor.
Em seu panteão literário estão Faulkner, Hemingway, Malraux, Dos Passos, Camus e Sartre. Mas muitos outros autores se farão presentes em suas cartas – Flaubert, Borges, Proust, Céline e Cortázar. Cada um a seu modo, todos eles tinham o que Llosa entende como vocação – algo que, sabemos, vai muito além do talento.
“Talvez o principal atributo da vocação literária seja que quem a tem vive o seu exercício como sua melhor recompensa, mais, muito mais que todas as que poderia obter em consequência de seus frutos”, afirma. “O escritor sente intimamente que escrever é a melhor coisa que já lhe aconteceu e pode acontecer.”
Ele nos diz que, para ser um romancista, é preciso, desde a infância, ter a predisposição para fantasiar e, depois, o “movimento da vontade que Sartre chamava de escolha” e que o próprio Llosa definirá como uma servidão que inclui disciplina e perseverança.
Cartas a um Jovem Escritor. Mario Vargas Llosa. Tradução: Ari Roitman. 176 págs., 59,90 reais
Se vivemos, hoje, um momento no qual parte da literatura se faz a partir da reconstrução de um “eu” explicitado – como aquele da autoficção, que serve, muitas vezes, como uma âncora para o real – o que encantava Llosa era, sobretudo, o fato de um romance ser “puro artifício”.
O ponto alto do livro são suas análises das ferramentas utilizadas pelos romancistas para nos convencer de que o mundo criado é, de fato, como eles contam que é.
Llosa puxa, desse novelo, outros fios: o que é o narrador e que formas ele pode adquirir; o que é o estilo e como as palavras se tornam história; o que são o espaço e o tempo na ficção; e como se instalam as noções de fantástico ou realidade.
O livro termina com um texto de 1997, no qual Llosa trata dos limites da crítica: por ser um exercício da razão, ela nunca conseguirá explicar totalmente a criação, um processo no qual sensibilidade, intuição e acaso se emaranham.
Também por isso, ninguém pode ensinar ninguém a criar. O que se pode, no máximo, é ensinar alguém a escrever e a ler. O resto, aposta ele, “cada qual ensina a si mesmo tropeçando, caindo e se levantando, sem parar”. •
Publicado na edição n° 1423 de CartaCapital, em 29 de julho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Inventar a vida’
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