Intenso como sempre, Caetano Veloso lança ‘Meu Coco’

O novo álbum do baiano chegou às plataformas de músicas nesta quinta 21; é o primeiro trabalho de inéditas depois de nove anos

Foto: Fernando Young/Divulgação

Foto: Fernando Young/Divulgação

Cultura

Em Meu Coco, novo disco que chega às plataformas de música nesta quinta 21,  Caetano Veloso mantém a inserção nos acontecimentos contemporâneos, sob seu olhar particular: às vezes amplo e universal, às vezes muito voltado para si.

“A pandemia atrasou o processo, quase me travou nos primeiros meses, mas terminou me levando a usar o estúdio que Paulinha [Lavigne, sua esposa] fez aqui na casa da Niemeyer em 2018 e gravar tudo com menos pretensão”, disse a CartaCapital o artista, que há nove anos não lançava um disco de inéditas. Sobre o que passou na sua cabeça – ou no seu coco, em referência ao título – ao gravar o álbum, crava. “Desejo de fazer coisas novas. Necessidade de inventar e registrar os inventos.”

Este desejo de gravar novas canções, afirma o cantor, despertou no final de 2019. “A pandemia mudou a perspectiva geral. Minha canção não pode ser invulnerável a isso”, diz. A partida foi a composição Meu Coco, faixa título que abre o disco. A música aborda as origens miscigenadas, mulheres brasileiras e “nosso futuro”. As composições então foram surgindo: “Canções que pareciam nascer de Meu Coco”, brinca.

A composição é dedicada a Jorge Mautner, Mércio Gomes e à memória de Manhã de Paula, filha do escritor  José Agrippino e da coreógrafa Maria Esther Stockler.

Caetano explica: “A Jorge Mautner – que exalta nossa miscigenação desde sempre – e diz que ‘ou o mundo se brasilifica ou vira nazista’, a Mércio Gomes – pelo seu Brasil Inevitável [livro lançado pelo antropólogo em 2019], que me deu a imagem do cafuzo dominando a dinâmica de nossas misturas, e à memória de Manhã, linda filha que ganhou esse belo nome e morreu na primeira juventude”.

Apesar da pandemia, a faixa Meu Coco, segundo Caetano, não sofreu mudanças desde que ficou pronta em sua casa do Rio Vermelho, em Salvador. Um ano e meio depois, convocou Lucas Nunes para, junto com ele, dar início a produção musical do trabalho em seu o estúdio caseiro.

Caetano assina sozinho as composições de todas as 12 faixas do novo álbum. As músicas independem umas das outras, mas são intensas, como é característico do baiano.

Ciclâmen do Líbano, a segunda faixa, é lirismo puro. Em Anjos Tronchos, já lançada como single em setembro, ele canta versos candidatos à sua antologia: “Agora a minha história é um denso algoritmo / Que vende venda a vendedores reais / Neurônios meus ganharam novo outro ritmo / E mais e mais e mais e mais e mais”. Também cita que “palhaços líderes brotaram macabros”, “mas há poemas como jamais”. Questionado sobre a canção, ele resumiu: “Um enigma.”

 

 

Política

A quarta faixa, Não Vou Deixar, é um novo rap, afetuoso, sem perder a contundência das questões atuais. “A mais diretamente política das canções de Meu Coco, minha favorita”. Diz trecho da letra: “É muito amor, é muita luta, é muito gozo, é muita dor”.

Autoacalanto foi composta para o neto Benjamin, filho de Tom Veloso nascido durante a pandemia, em maio do ano passado. A música já havia sido apresentada em live.

Em Enzo Gabriel, sexta faixa, versos ao nome mais escolhido para registrar recém-nascidos brasileiros nos anos 2018 e 2019. Já em Gilgal, na batida da percussão, “o sentido do som” a partir de Pixinguinha.

Cobre, a oitava faixa, é uma canção de amor. Na sequência, a música Pardo. “Fiz pra Céu [que gravou em 2019]. Eu já considero da família do repertório novo. Foi a primeira. Não serviu de nave-mãe, como Meu Coco, mas já tinha essas harmonias que fogem do 2/5/1 [cadência musical] e letra com coisas como ‘teu rosa é mais rosa que o rosa da mais rosa rosa’”, explicou Caetano sobre a gravação no álbum da composição.

Você-Você, um fado maravilhoso cantado com a portuguesa Carminho, tem a participação de Hamilton de Holanda no bandolim. Já Sem Samba Não Dá, com as misturas atuais com o rap e o sertanejo, deve incomodar os puristas.

O disco fecha com Noite de Cristal. “Foi feita pra Bethânia gravar em 1988. E foi ela mesma quem me relembrou e me sugeriu que a regravasse.”.

Longe do padrão estabelecido pandemia, em que muitos músicos acabaram retratando ferozmente em seus trabalhos a angústia do tempo perdido e enclausurado, ou demonstrando certa esperança onde não há (ainda), Caetano Veloso continua único. Manteve a força artística resignada de sempre.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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