Cultura

Crônica do Villas

Helicópteros e sabiás

por Alberto Villas publicado 19/05/2017 05h00, última modificação 18/05/2017 21h16
O que as pessoas ouvem, logo cedo, quando abrem a janela do quarto
Janela

As janelas da minha vida nunca foram assim tão emocionantes

Como editor de cadernos culturais e telejornais, eu tinha um sonho. Produzir uma matéria – quem sabe uma série - mostrando, a primeira coisa que uma pessoa vê quando, de manhã, abre a janela do quarto.

Tinha certeza que teria na mão um material bacana para editar, com imagens maravilhosas, curiosas ou dramáticas, flagradas nos quatro cantos desse mundo de meu Deus.

Na minha cabeça, não seriam apenas lugares paradisíacos. A ideia era mostrar janelas que tanto podiam dar para a torre Eiffel, na Cidade Luz, ou para o esgoto a céu aberto na favela da Maré, na Cidade Maravilhosa.

Sei que tem gente, longe daqui, que abre a janela do seu quarto de manhã e enxerga, lá longe, as neves do Kilimanjaro, na fronteira do Quênia com a Tanzânia. Como tem gente que, logo cedo, dá de cara com as águas caudalosas do Rio Arno, ao abrir a janela do seu quarto em Florença.

Sei que tem gente que abre a janela e vê uma vaquinha pastando, como tem gente que vê o vento soprando a areia do deserto. E tem aquele, do outro lado do mundo, vê o esplendor e sente silêncio do parque de Shinjuku, no centro de Tóquio.

Um dia, cheguei a fazer um projeto para o Show da Vida, mas não decolou. Argumentaram: Como bancar todas essas viagens pelo mundo para gravar uma simples janela abrindo ao amanhecer?

As janelas da minha vida nunca foram assim tão emocionantes. Quando criança, abria a janela do meu quarto, em Belo Horizonte, e dava para um paredão da casa vizinha. Não via nada, apenas ouvia o latir do cachorro.

Na juventude, abria a minha janela no planalto central do país e via apenas redemoinhos de terra vermelha de uma Brasília em construção.

Em Paris, abria a janela e via, lá embaixo, logo cedo, uma espanhola cantando óperas e arrumando cerejas, morangos, framboesas e pamplemouses na sua venda cheia de frutas vistosas e maravilhosas.

Quando mudamos pro outro lado da cidade , a janela dava para um parque cheio de pinheiros. Lá longe, enxergava o muro alto que separava o cemitério do meu condomínio. Um cemitério onde repousam em paz Oscar Wilde, Max Ernst, Marcel Proust, Allan Kardec, Jean de la Fontaine, Isadora Duncan, Maria Callas, Marcel Camus, Colette, Frédéric Chopin e Jim Morrison. Sim, a janela do meu quarto dava para o Père-Lachaise.

Um dia mudei de ideia. Pensei em gravar os sons que as pessoas ouvem ao abrir a janela do seu quarto, todas as manhãs. Outro projeto que o Show da Vida não topou, argumentando, de novo, orçamento.

Repliquei, mas não adiantou, que da janela da Fazenda do Sertão, ouve-se o mugido de vacas magras a caminho do curral, onde era tirado o leite.

Da Avenida Gobelins ouve-se a sirena das ambulâncias, a caminho do hospital.

Da janela de um ap em Istambul, a reza das mesquitas que, pra gente, soa como um simples lamento.

Da janela de uma casa em ruína de Damasco, as rajadas de metralhadoras e estrondos de bombas.

Da Avenida Paulista, o barulho intenso dos automóveis, dos ônibus e das motocicletas.

São projetos que vão ficando pra trás, esquecidos, que de vez em quando voltam à memória.

Hoje, acordei não eram seis horas da manhã e, na cama, fiquei pensando nesses projetos que ficaram perdidos no meio do caminho.

Se abrir minha janela, sei que vou dar numa selva de pedras e uma ameixeira que plantei na jardineira.

Então comecei a ouvir barulhos, o mesmo que ouço há dias nessa época do ano, aqui nessa cidade com quase trinta milhões de habitantes.

São barulhos dos helicópteros da polícia sobrevoando o bairro da Lapa e o canto dos sabiás, que começam no meio da madrugada e vão até o amanhecer.

Fiquei aqui matutando como é a vida. Enquanto os helicópteros acompanham o movimento dos primeiros presos do dia, o sabiá canta livre, leve e solto, mostrando que nem tudo está perdido.

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