Cultura
Guerra e terror
A Voz de Hind Rajab concorre ao Oscar e reconstitui a tragédia de uma garota palestina vítima dos Israelenses
Em janeiro de 2024, na região de Tel al-Hawa, em Gaza, um carro com sete passageiros é alvejado por forças militares israelenses. Duas crianças sobrevivem ao ataque. Uma delas, de 15 anos, liga para a ONG Crescente Vermelho e pede socorro. Pouco depois ela é morta numa segunda investida. A garotinha de 5 anos, Hind Rajab, permanece viva no carro ao longo de muitas horas, em contato constante com a ONG enquanto aguarda a chegada de ambulâncias. Ao fim do dia, ela também não sobreviverá ao Exército de Israel.
O drama da menina é reconstituído num misto de ficção e documentário em A Voz de Hind Rajab, coprodução entre Tunísia e França que estreia na quinta-feira 29 nos cinemas. A direção é de Kaouther Ben Hania, e o filme vem embalado pelas indicações ao Globo de Ouro e ao Oscar de melhor longa-metragem internacional. No Festival de Veneza, onde teve estreia mundial no ano passado, ganhou o Grande Prêmio do Júri.
Para ampliar o impacto da tragédia na versão fílmica, a diretora se reapropria dos áudios originais da menina, gravados pela ONG, e os reproduz na íntegra enquanto o elenco de atores e atrizes reencena as tentativas de conseguir enviar ajuda para salvá-la. Há, então, o hibridismo de um arquivo real, que intitula o próprio filme, e a dramatização dos acontecimentos a partir de relatos dos envolvidos.
Questões éticas envolvem o uso da voz real de uma garota de 5 anos horas antes de ela morrer pelas balas dos militares, mas o longa-metragem se sustenta o suficiente nisso para tentar passar incólume por essas discussões. O choque de “reviver” Rajab pela sua voz para então ela morrer novamente a cada reexibição do filme é um recurso que não vai além de seu próprio efeito de horror.
É claro que o filme é emocionante, mas ter a voz real da garota, para além do dado extrafílmico (ainda que informado num letreiro), tem pouco lastro. Há carga forte de sensacionalismo, ainda que de intenções humanitárias, numa narrativa que sofre pela encenação carregada de interpretações melodramáticas a tentar repassar a angústia dos envolvidos.
Ainda assim, A Voz de Hind Rajab tem causado muita comoção em plateias do mundo e não deverá ser diferente no Brasil. Há força nisso, além do fato de concorrer ao Oscar num ano de filmes de destaque na disputa, incluindo outro a lidar com traumas do Oriente Médio, Foi Apenas Um Acidente, do iraniano Jafar Panahi, e ainda o brasileiro O Agente Secreto. •
Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Guerra e terror’
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