Filho rejeitado do manguebeat, Otto exalta o movimento: “Universal”

Disco marco do movimento, Da Lama ao Caos de Chico Science completa 25 anos

(Foto: Kenza Said)

(Foto: Kenza Said)

Cultura

O Manguebeat ainda buscava reconhecimento como movimento musical transformador e Otto já havia tocado com Chico Science, Nação Zumbi e Mundo Livre S/A. Viu de perto o que ocorreu antes e depois do lançamento do disco Da Lama ao Caos em 1994, marco daquela cena cultural nascida no Recife.

“Foram importantes as amizades que fiz com Fred Zero Quatro e Chico Science (idealizadores do movimento Manguebeat), dois ídolos. Viver aquela efervescência. Foi superimportante para a minha carreira. O reino da música de verdade, do autêntico”, relata Otto.

“E o principal foi ter sido rejeitado por eles numa determinada hora e ter que fazer o meu caminho solo. No mundo da música se você sai de algum lugar tem que fazer o seu. Se não (tivesse sido assim), acho que ainda estaria lá, triste e renegado, falando das ex-bandas.”

E Otto seguiu muito bem sozinho. Lançou 1998 Samba pra Burro, seu primeiro solo e um dos discos referência do movimento.

“O Manguebeat foi lindo e raro de acontecer na vida em qualquer lugar. Foi uma concentração de música em uma cidade, uma luz que fez Recife respirar sua cultura e confirmar seu lugar no mundo. Acho que fomos bem ousados, como sempre fomos”.

Cenário apocalíptico do mangue

Um livro publicado recentemente intitulado Da Lama ao Caos: Que Som É Esse Que Vem de Pernambuco (Edições Sesc), de José Teles, crítico musical e profundo conhecedor das expressões culturais pernambucanas, relata com intimidade 25 anos depois o nascimento do disco seminal de Chico Science (falecido 3 anos depois de seu lançamento num acidente de carro) e Nação Zumbi.

Francisco de Assis França, antes Chiquinho e depois Chico Science, viveu a infância num conjunto habitacional próximo ao manguezal, que passaram a jogar lixo, misturando-se ali urubus e caranguejos.

Essa referência foi uma das principais a levá-lo a identificar o que estava fazendo de ritmo do mangue, com mensagens de crítica social a partir daquele cenário apocalíptico.

Otto ressalta a riqueza cultural da região, a partir da integração de raças, “que se condensou em várias vertentes populares e com uma alta técnica tradicional, clássica, literal”. Isso contribui fortemente dentro do movimento no seu aspecto musical.

Do lado contestatório, o músico remonta a histórica disparidade social local: “Uma estrutura escravagista, patronal abusiva e exploratória. A música que vem do homem sabe que tem que estar próxima das injustiças. Por isso é tão contestadora socialmente, tão reagente e resistente. O resto é a sobra da elite que não somos”.

O som das alfaias

A música do movimento misturava ritmos regionais, com influência evidente do maracatu, a outros sons mais modernos e universais, que naquela época alguns rotulavam de world music.

“Esse termo world music é algo que pode separar o mercado (fonográfico) anglo-saxão dos outros. Acho o manguebeat pop roots contemporâneo. É universal como a música africana, cubana, escandinava, ou seja, é música brasileira contemporânea e ponto”, define Otto.

Chico Science já ressaltava a importância das alfaias, que são os tambores do maracatu, no som que o manguebeat pretendia produzir. Essa preocupação com a propriedade da percussão é relatada no livro de José Teles desde as primeiras formações musicais do movimento no início dos anos 1990.

Não é que quando o disco Da Lama ao Caos de Chico Science e Não Zumbi, produzido por Liminha, ficou pronto, a maior crítica a ele foi o fato da percussão não representar o impacto que gerava nas apresentações da banda ao vivo.

Acho que a percussão brasileira é o nosso groove divino, nossa marca. Tem discos em que a percussão voa e faz piruetas, outros em que ela se inibe e perde a delícia da batida. Na verdade, se existe percussão na música o produtor tem que ter noção do percussivo”, avalia Otto, percussionista nato e que lá atrás, no início do movimento manguebeat, fazia a função.

Ele lembra que os seus discos, de produção de Pupillo, que integrou o Nação Zumbi e é mestre da percussão, nesse aspecto nunca teve problema.

“Músico percussionista tem que tirar o som, ser artesão, ter percepção e ancestralidade. Ou sente ou não sente. É na veia mesmo! Tem que ter alma para a percussão vibrar. É o tempo de tudo, é como andar. Sou da terra de Naná Vasconcelos, do Maracatu. Tudo vibra no peito e na alma.”

O bit musical

Otto lança em breve seu sétimo álbum solo, o Canicule. Diz ele ser o projeto mais ousado da sua vida, “o mais autoral, mais vigoroso”.

O músico fez cada música do novo disco com auxílio do Garage Band, o aplicativo com funcionalidades para execução de vários instrumentos musicais.

“É um momento meu em que precisava mudar profundamente a forma de fazer minha música, sair da zona de conforto, me desafiar. Às vezes tento definir ou conceituar, mas não consigo. Mas é um fruto desse meu caminho escolhido, da minha liberdade, minha ousadia musical. É um disco muito essência, muita mudança”.

O manguebeat surgiu da fusão do mangue com o bit, a unidade de armazenamento de dados que na época começava a fazer uma revolução – e o nome originário do movimento era manguebit. O bit, no seu conceito de inovação, segue alimentando aquela notável geração.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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