Fernanda Abreu: ‘Nunca esperei que pensassem que a terra é plana’

A cantora, que lança álbum de remixes de algumas músicas de seus 30 anos de carreira, conta sua trajetória e do momento político difícil

Foto: Murilo Alvesso

Foto: Murilo Alvesso

Cultura

O primeiro álbum solo de Fernando Abreu completou em 2020 três décadas. O SLA Radical Dance Disco Club apresentou uma nova linguagem pop, introduzindo o sampler, bateria eletrônica e o auxílio de computadores. O projeto saiu quatro anos depois de ela deixar a banda Blitz.

“Quando lancei o disco em 1990, tive um apoio muito grande da cena dos djs, dos bailes. Isso me acompanhou a carreira toda”, diz. “Quando chegou o ano passado, tinha claro que queria fazer um disco de remix para homenagear, para agradecer essa galera que teve sempre ao meu lado todos esses anos”.

O trabalho de remix em questão é o 30 anos de Baile, que acaba de chegar nas plataformas de música. “Ele representa bem uma série de linguagens da música eletrônica. O disco ficou muito a minha cara”, afirma ela, que mantém no trabalho o ritmo dançante e misturado com hip hop, funk, baile charme, samba e house music.

O álbum reúne djs e produtores para novas versões de músicas conhecidas e outras nem tanto na voz da cantora em seus 30 anos de carreira. A lista de convidados tem nomes já de longa estrada, como Memê (que fez a direção artística), Zé Pedro e Corello, e outros da nova geração, como Gui Boratto, Bruno Be, Tropkillaz, entre outros. Há participação também de Emicida e Projota.

Rio 40 Graus

O álbum tem 13 faixas e mais oito com versões estendidas, para tocar nas pistas de dança. Conta com as regravações de Jorge da Capadócia (Jorge Bem Jor), Kátia Flávia, a Godiva de Irajá (Fausto Fawcett e Carlos Laufer), Veneno da Lata (dela com Will Mowat), A Noite (dela com Carlos Laufer e Luiz Steins) e Você pra Mim (só dela).

E também a clássica Rio 40 Graus, uma das grandes músicas-crônicas já feitas nas últimas décadas e o maior sucesso de Fernanda Abreu. A composição é dela com Fausto Fawcett e Carlos Laufer. A música foi lançada em 1992, mas ainda é bastante atual.

“A gente continua com a sensação de que o Rio de Janeiro é o melhor e o pior do Brasil. É uma cidade que simboliza essa desigualdade brasileira”, afirma. “Ao mesmo tempo, esse contraste traz uma novidade, uma potência de expressão cultural, através do funk, do samba. Através de linguagens que descem o morro e seduzem o asfalto”.

A introdução da música Rio 40 Graus fala da “capital do sangue quente do Brasil, do melhor e do pior”. E trata do “controle” que tem a ver com a política nacional: “De comando, de comando, submundo oficial / Comando de comando, submundo bandidaço / Comando de comando, submundo classe média”.

Fernanda Abre segue discorrendo sobre a música: “Depois a gente fala um pouco de pertencimento: ‘Quem é dono desse beco? Quem é dono dessa rua?’”.

No final da crônica, aborda a novidade da época, que era o funk chegando nas favelas. “Ao lado do funk, as facções criminosas subindo o morro com armamento pesado”, cita.

“Marcação, invocação / Pra gritaria de torcida da galera (funk) / Marcação, invocação / Pra gritaria de torcida da galera (samba) / Marcação, invocação / Pra gritaria de torcida da galera tiroteio / De gatilho digital, de sub-uzi equipadinha / Com cartucho musical, de contrabando militar”.

Além da letra, trata-se de uma música dançante. “Quero que quando tirem a minha voz (da minha música), ela pareça com uma base brasileira”, resume o lado harmônico-melódico de sua discografia.

60 anos

A cantora, que fez 60 anos no último dia 8 de setembro, desenvolve um trabalho sempre atual, muito próximo do cotidiano, dialogando com a favela, a periferia e o asfalto e o que representa essa convergência.

Essa influência e preocupações sociais a levou em setembro a virar nome de biblioteca do projeto Favelivro em Rocha Miranda, no Morro do Faz Quem Quer, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Fernanda Abreu doou à biblioteca cerca de 400 títulos, incluindo parte do acervo de seu pai, o arquiteto e urbanista Armando Abreu (falecido ano passado), que possui enciclopédias portuguesas, diversos títulos sobre a cidade do Rio de Janeiro e coleção completa da obra do escritor Júlio Verne. “Tudo que a gente quer é difundir a leitura, o conhecimento”, afirma.

“A gente vê na ONU o discurso do Bolsonaro. É feio, um presidente do Brasil manipulando informações, dados sobre o meio ambiente. Preconizando o tratamento precoce”, diz.

“Todo esse negacionismo. Esse pensamento de extrema-direita. Nunca esperei que teria uma galera que pensasse que a terra é plana. É tudo muito louco”.

Ela também lamenta o momento vivido pelos artistas, cujo presidente os elegeu “inimigos, demonizando a arte.”

Entre seus projetos, pretende fazer um documentário do CD Da Lata (lançado em 1995). E, ainda, montar uma exposição que fala da música urbana carioca passando pela sua trajetória.

No ano que vem, planeja um trabalho de samba: “Tem a ver com a minha história. Amo de paixão”. E fazer um disco “feminino feminista” com a participação de cantoras da nova geração.

 

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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