Cultura

Fat food

As pessoas consomem mais carboidrato do que o corpo precisa. Isso porque comer deixou de ser uma necessidade física

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Não sou frequentador de shoppings, mas às vezes não há como evitá-los. Ontem à noite decidi que era preciso assistir a determinado filme e os cinemas, com zero vírgula qualquer coisa de exceção, fugiram todos para essas ruas com ar condicionado e muitas, muitas vitrines. Essas ruas onde não chove e cujas lojas nos arrancam os olhos e nos deixa sorrindo. A extorsão consentida e, por que não dizer, até desejada é uma das marcas de nossos tempos de consumo transformado em fomento de nossa felicidade.

Mas havia uma divergência de horário entre o jornal e o painel do cinema. Estávamos adiantados alguma coisa como uma hora, pouco mais. Bem, e como não havíamos jantado antes de sair de casa, resolvemos lanchar para matar o tempo e a fome.

Um dos meus vícios, verdadeiro deleite, é ficar olhando gente. E isso é o que não faltava do outro lado do vidro. Corredor largo, enfeitado com plantas muito verdes, muito mais verdes do que as plantas de nossas praças, passava gente indo e gente vindo. Mulheres, homens, crianças, cabeças brancas. De tudo passava. Alegres, casmurros, brincando, brigando, de mãos dadas, de corações distantes. De tudo havia. Pessoas feias, que nem percebiam quanto. Pessoas lindas, que, pelo modo como exibiam a beleza, sabiam muito bem quanto.

Tínhamos acabado nosso lanche e o tempo tinha andado muito pouco, para quem quer ser morto. Resolvi bisbilhotar a distância o que se comia nas mesas ao redor. O que vi me deixou assustado. Bocas lambuzadas de maionese e ketchup abrindo-se desmesuradamente para morder aquelas montanhas de pão, anunciadas como fast food.

Escandalizado, me voltei novamente para o corredor por onde as pessoas iam e vinham. Como minhas tendências metafísicas são extremamente frágeis, não me perguntei para onde iam nem de onde vinham, e se tinham noção do que estavam fugindo ou o que estavam buscando.

De repente, numa epifania inesperada, como são todas as epifanias da ordem literária, o clarão revelador: as pessoas estão cada vez mais gordas. Muito mais gordas. Me dei ao trabalho de contar quantos gordos para cada magro e não revelo aqui o resultado da minha pesquisa porque sou ruim nisso, e sei que o método empírico pode me enganar. Estamos engordando. Me senti em uma rua de Nova Iorque vista há alguns meses numa reportagem. Tanto quanto, em matéria de obesidade.

Não me venham, agora, com essa de politicamente incorreto (esta praga que tomou conta de nossas mentes) falar mal de gordos. Mesmo porque não estou falando mal. Estou simplesmente assustado. O obeso, não perde só em estética. Há campanhas, eu sei, para repor a auto-estima dos excessivamente gordos. Mas não se trata disso. Os obesos perdem muito mais é em saúde. Pobre coração, que bate, bate, mas não dá conta, é muito trabalho.

As pessoas consomem, agora que podem consumir, muitas vezes mais carboidrato do que seu corpo precisa. E isso, porque comer deixou de ser uma das necessidades físicas do ser humano, para se tornar um de seus prazeres. Coisa antiga, os gregos e romanos da antiguidade clássica já tinham promovido essa transformação. As descrições dos banquetes, de Petrônio, por exemplo, nos mostram como não mudamos nada.

Juro que vou passar uma semana só tomando água.

CartaCapital

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