Cultura
Expatriação audiovisual
O movimento de artistas norte-americanos, como Jim Jarmusch, rumo à França gerou até uma palavra: Frollywood
Jim Jarmusch, um dos principais nomes do cinema independente norte-americano, vive hoje entre Paris e Nova York. No início deste ano, quando foi lançado na França o filme Pai Mãe Irmã Irmão, o diretor e produtor de 72 anos disse à rádio estatal France Inter ter o desejo de solicitar a cidadania francesa. Assim, prosseguiu ele, poderia fixar residência num lugar que o trata “como um verdadeiro diretor de cinema”.
Meses antes, em setembro de 2025, no Festival de Veneza – de onde Pai Mãe Irmã Irmão saiu com o Leão de Ouro –, ele havia explicitado o sentimento em relação ao país onde nasceu e fez carreira: “Filmar nos Estados Unidos tornou-se proibitivo, estressante, traumático”.
Seu mais recente longa-metragem, em cartaz nos cinemas brasileiros desde a quinta-feira 9, foi produzido, basicamente, com recursos europeus. Além da produtora do próprio Jarmusch, aparecem nos créditos duas produtoras francesas (Gillibert’s CG Cinema e Saint Laurent Productions), uma irlandesa (Hail Mary Pictures) e a Mubi, plataforma cuja origem remonta ao cinema autoral que tem, nos grandes festivais europeus, seu motor e sua principal vitrine.
O filme constitui-se de três episódios que remetem, pelo valor dos não ditos e pela fragmentação narrativa, a contos tchekovianos. Embora os personagens de cada segmento não se cruzem, as histórias são variações de um mesmo tema: as relações entre filhos adultos e seus pais.
A imigração é fruto do ambiente político nos EUA, mas também do sistema francês de apoio às produções internacionais
A unir os episódios há detalhes, como um relógio Rolex, que são retomados em cada história – um pouco como os motivos repetidos em cada movimento de uma peça de música clássica. A realização é simples e extrai sua força sobretudo dos enquadramentos, que remetem aos tempos do cinema analógico, e da excelência de um elenco que conta com nomes como Tom Waits, Adam Driver, Mayim Bialik, Charlotte Rampling e Cate Blanchett.
Geograficamente, a produção reflete a tendência internacional de filmagens que se espalham pelo mundo – movidas não apenas por locações, mas por investimentos locais ou incentivos fiscais. O segmento Pai foi filmado na região nordeste dos Estados Unidos; Mãe, em Dublin, na Irlanda; e Irmã Irmão, em Paris.
A opção de Jarmusch não é um caso isolado. Recentemente, o Le Monde apelidou a crescente migração de realizadores norte-americanos para a França de Frollywood. Diretores como Sofia Coppola, Wes Anderson e Frederick Wiseman, morto em fevereiro, foram descritos como “expatriados estéticos”.
Embora Paris sempre tenha sido um destino querido por cineastas norte-americanos, como Woody Allen e Samuel Fuller, parece haver agora uma pequena onda. O jornal inglês The Times aprofundou o tema e acrescentou à lista atores como George Clooney e Natalie Portman.
A reportagem do veículo britânico chamou a atenção ainda para a presença maciça de estrelas de língua inglesa protagonizando produções francesas. Em 2025, Angelina Jolie participou de Couture, de Alice Winocourt; Matt Dillon de A Cerca, de Claire Denis; e Jude Law de O Mago do Kremlin, de Olivier Assayas (ler texto à pág. 50).
Para o Le Monde, o expatriamento é motivado especialmente pelo atual cenário político dos Estados Unidos e pela pressão econômica imposta pelo governo Trump ao setor cinematográfico. O sistema de produção do país coloca sobre investidores e criadores uma pressão maior pelo retorno financeiro do que o sistema europeu – onde, além de incentivos fiscais, o Estado oferece um amparo por meio de subsídios.
Reside nessa diferença, como lembra o Times, uma pista fundamental para que se compreenda esse movimento. A pista tem nome: Centre National du Cinéma et de L’image Animée, o CNC, instituição criada em 1946, no pós-Guerra, para garantir a existência e a força do cinema francês ante o poderio hollywoodiano.
Um ano após a criação do CNC, a França levaria à rodada de 1947 do Acordo Geral Sobre Tarifas e Comércio (Gatt) o conceito de “exceção cultural”, segundo o qual os filmes não devem ser tratados, nas regras de comércio, da mesma forma que sapatos ou automóveis, por carregarem elementos de subjetividade e identidade nacional.
Sensação. Para Jarmusch, filmar nos EUA tornou-se “proibitivo, traumático”. Já na França, ele diz se sentir tratado “como um verdadeiro diretor de cinema” – Imagem: Theo Wargo/Getty Images/AFP
A partir da defesa da própria produção, a França foi se tornando, ao longo dos anos, um apoiador importante de outras cinematografias, como aquelas do Oriente Médio ou da África.
Os recursos que abastecem o CNC vêm de múltiplas fontes. Dentre elas estão uma taxa sobre os ingressos vendidos – a ser reinvestida na produção de filmes –, um imposto cobrado da tevê aberta e, nos anos mais recentes, uma contribuição feita pelas plataformas de streaming.
Não deixa de soar curioso o fato de a política cinematográfica francesa, feita durante muito tempo em oposição ao cinema norte-americano, agora abraçá-lo. O site do CNC elenca, em sua homepage, “cinco grandes motivos” para se filmar na França. Em um vídeo curto, no qual aparecem os Minions e a Netflix, a instituição mostra que está empenhada em atrair filmagens para seu território.
Hoje, os filmes internacionais beneficiam-se de um desconto fiscal, chamado tax rebate, de 30% se forem rodados na França. O porcentual sobe para 40% caso a produção gaste pelo menos 1 milhão de euros em efeitos visuais. Trata-se de uma política agressiva, voltada a grandes projetos de Hollywood e do streaming.
Para o cinema independente, o pilar de sustentação é o programa Aide Aux Cinémas Du Monde, criado em 2012 com o objetivo de encorajar e apoiar a coprodução internacional entre a França e o resto do mundo. O apoio financeiro, sujeito a uma rígida e disputada seleção, beneficia longas-metragens de ficção, animação e documentários destinados ao lançamento nos cinemas da França. O proponente deve ser uma empresa estabelecida no país.
Filmes com orçamento superior a 2,5 milhões de euros podem receber até 500 mil euros; para as demais obras, o teto é de 300 mil euros. Desde a sua criação, o programa apoiou 695 projetos. Os resultados dessa internacionalização têm sido expressivos.
No último Festival de Cannes, havia, na mostra competitiva, 16 filmes com algum tipo de participação do CNC. Alguns deles saíram do Palais des Festivals com prêmios: Foi Apenas Um Acidente, do iraniano Jafar Panahi; Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier; Sirat, do francês Olivier Laxe; e O Agente Secreto, do brasileiro Kleber Mendonça Filho.
E a prova definitiva de força seria estampada no Oscar deste ano: os cinco filmes indicados à categoria de Melhor Filme Internacional – O Agente Secreto incluído – contaram com recursos franceses. •
A VIDA NO KREMLIN
Com Jude Law no papel de Vladimir Putin, o diretor francês Olivier Assayas busca dar conta de 30 anos da política russa
Superprodução. Paul Dano dá vida, na tela, a Vadim Baranov, o “mago” inspirado no conselheiro real Vladislav Sourkov – Imagem: Carole Bethuel
Dirigido por Olivier Assayas, O Mago do Kremlin, em cartaz no Brasil desde a quinta-feira 9, é uma superprodução de 23 milhões de euros que busca contar 30 anos de política russa, de Mikhail Gorbachev à anexação da Crimeia em 2014. Adaptado do best seller homônimo de Giuliano da Empoli, o filme traz Jude Law como Vladimir Putin e Paul Dano como Vadim Baranov, o “mago” inspirado num conselheiro real do poder.
Filmado na Letônia, o projeto teve seu reembolso fiscal negado pelo Estado, que considerou a mensagem do filme ambígua por, de certa forma, explicar a ascensão de Putin. Assayas, diretor de alguns grandes filmes, parece, aqui, ter se encolhido ante a grandiosidade e a complexidade daquilo que retrata. – APS
Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Expatriação audiovisual ‘
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