Cultura

Crônica

Eu te dedico

por Redação Carta Capital — publicado 13/03/2012 13h35, última modificação 13/03/2012 13h38
Nos últimos tempos minha diversão tem sido caçar dedicatórias, um capítulo a parte nessa aventura de percorrer sebos
dedicatória

Foto: Galeria de Cirofono/Flickr

Por Alberto Villas
 
Confesso que sou rato de sebo. Meu vício começou no início dos anos 70 nas ruelas do Quartier Latin, em Paris. Foi lá que percorrendo os porões da livraria Joie de Lire descobri as edições originais com os primeiros poemas de Ernesto Cardenal. Foi na Shakspeare and Company que tive o prazer de conhecer aquelas edições maravilhosas das obras de Ezra Pound. Foi lá também que arrematei alguns exemplares amarelados cheirando a mofo da National Geographic americana. Era lá que, ao cair da tarde, costumava tomar um chá preto ao lado de George Whitman, que não tirava os olhos do New York Review of Books, sua paixão.

Em São Paulo e no Rio já percorri todos, creio. Cada um mais curioso que o outro. Alguns já informatizados e outros ainda bastante desorganizados, como eu gosto. Já corri sebos pelos quatro cantos do mundo. Um dia em Veneza trombei com um livro de Luiz Fernando Emediato e outro sobre a vida de Zé Arigó. Foi em Lisboa que comprei um compacto-simples de Zé Keti com a gravação original de A Voz do Morro. E foi em Les Andellys, no interior da França, que paguei um punhado de euros por um Henri Salvador cantando Juanita Banana. O vício não me deixa passar uma semana sem entrar num sebo. Seja para namorar aquela coleção da Placar dos anos 70 no Red Star de Pinheiros ou para admirar os volumes impecáveis do Tesouro da Juventude no Sebo do Messias.
Nos últimos tempos minha diversão tem sido caçar dedicatórias, um capítulo a parte nessa aventura de percorrer sebos. Outro dia encontrei num exemplar de Teorema, de Pier Paolo Pasolini, a seguinte dedicatória: “O teorema é legal, o teorema é tudo, sou eu, é você, tudo que vejo e o que não vejo. O teorema está solto na vida, vagando, pensando, sendo”. Quem teria escrito essa equação hiponga em 1970 e para quem?
Num velho exemplar de Fazenda Modelo, de Chico Buarque, encontrei o seguinte: “Laura, essa terra ainda vai tornar-se uma imensa fazenda modelo”. Onde andará Laura? E que fim levou a nossa fazenda modelo? Que motivo teria levado Laura a se desfazer de tão raro exemplar? Por que o livro do Chico foi parar nesse galpão na Praça João Mendes?
Num livro de poemas de Drummond, alguém escreveu: “José, e agora? Paixão”. Mas as grande paixões mesmo estão perdidas, sem dúvida, nas capas dos vinis de Maria Bethânia, Simone e Gal Costa. “Amor, não vou assinar essa dedicatória, mas saiba, eu sou o seu pássaro proibido!”, escreveu alguém na capa do Pássaro Proibido. No disco Cigarra, de Simone, um certo Luiz Gustavo escreveu apenas “Zi zi zi zi zi zi zi... Te amo!” No Caras e Bocas da Gal Costa, Mauro caprichou na letra: “Ana, com um beijo do teu primeiro amor”. Teria sido Mauro o primeiro amor de Ana? E porque será que Ana abandonou o Caras e Bocas nesse sebo da Lapa?
No dia 25 de dezembro de 1987, alguém ganhou de Natal da Dri A Volta do Parafuso, de Henry James, com a seguinte dedicatória: “Tomara que a gente sempre fique dando voltas junto no parafuso da vida”. O tempo fechou para a Fátima, que deu de presente a Kristina o livro Bruxaria no Pé de Feijão, de Maria Helena Coelho: “Os tempos mudaram, mas há muito tempo não acontece nada”, disparou ela na dedicatória.
Há vinte e cinco anos, Mônica deu de presente a José Antônio o Livro dos Sonetos, de Vinícius de Moraes, com a seguinte dedicatória: “Ao meu amor, um simples incentivo para que você sempre ganhe as nossas apostas”. Que apostas? Bruno Andreucci, autor do livro Versos que guardei, mandou os seus poemas para o Silvio Vernosa. O Silvio não guardou os versos de Bruno e o livro foi parar num sebo da Avenida São João.
Não faz muito tempo arrematei num sebo da Freguesia do Ó uma coleção completa da fase áurea da revista Planeta. Dentro de um exemplar, um papel envelhecido trazia um nome e um endereço: Francelina 61 8692. Pensei em ligar só por curiosidade. Inútil, pois esse número não há mais. Talvez nem mesmo Francelina haja mais.
Se você gosta de bisbilhotar dedicatórias dê um pulinho no site HTTP://eutededico.tumblr.com que fiquei conhecendo hoje. Você vai se divertir, você vai se emocionar.

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