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Eu quero votar pra presidente

Cultura

Minha vontade de votar para presidente da República começou cedo. Pego por um golpe militar na infância, nunca tinha sentido o gostinho de entrar numa cabine de lona e marcar um X no nome do candidato. Era assim que se votava. 

Lembro-me do meu pai, Juscelino roxo, com sua pasta 007 cheia de adesivos JK 65, propaganda de uma eleição que ficou pelo meio do caminho. 

Quando peguei o avião com destino à felicidade, no início dos anos 1970, fiz uma promessa, a de não cortar o cabelo enquanto a ditadura militar não caísse. Promessa que quebrei, oito anos depois quando a abertura começou a criar asas e o meu cabelo bater na cintura. 

A luta pelas diretas, no início dos anos 1980 – eu já de volta à Terra Brasilis – foi contagiante e, ao mesmo tempo frustrante, quando aqueles picaretas de Brasília disseram não e vieram com indiretas.  

Eu escrevia, toda semana, uma crônica no “Caderno 2” do Estadão, quando comecei com essa mania de contagem regressiva. No final de cada crônica, eu escrevia: Faltam tantos dias para as eleições diretas. Isso durou um ano, enquanto estive no “Caderno 2”, sem jamais ser censurado. Gostava de ver aquilo impresso no jornal O Estado de S.Paulo, tão conservador, porque sentia o sangue rebelde circulando nas veias a todo vapor.  

Quando passei do jornal impresso pra televisão, essa ideia de contagem regressiva me acompanhou. Toda noite, assim que a Dóris Giesse aparecia na tela da Band, no final da escalada do Jornal de Vanguarda, ela dizia: Faltam tantos dias para as eleições diretas no Brasil.

AÍ, mudei de canal, fui pro SBT fazer o telejornal da Lillian Witte Fibe e a história continuou. Só que lá, em vez de ela dizer que faltavam tantos dias para as eleições diretas, aparecia escrito no cantinho da tela, em caracteres amarelos, a contagem regressiva. 

Como um controle remoto, eu passei do SBT pra Globo e, na Globo, no telejornal do final de noite que eu comandava com uma equipe nota 10, era a mesma coisa. Toda noite, depois de a Sandra Annenberg ler a escalada, aparecia, agora em azul, a contagem regressiva para as eleições diretas. 

Até que um dia, finalmente, chegaram as tais eleições diretas. Votei no Lula mas quem ganhou foi o falso caçador de marajás. Collor foi eleito, veio o impeachment, Itamar Franco assumiu e depois vieram as diretas de novo, pra nossa felicidade.

Votei no Lula mais uma vez, perdi mais uma vez. Fernando Henrique foi eleito e, quatro anos depois, foi reeleito, tudo dentro das normais gerais do estatuto da gafieira. 

Até que um dia, oito anos depois, Lula foi eleito. Ganhamos! Foi reeleito e ganhamos de novo. Ele lançou Dilma candidata, vieram as eleições e nós ganhamos pela terceira vez e depois pela quarta vez. 

Ai veio o golpe. 

Dilma Rousseff

Protesto contra Dilma em 2015. Deu no que deu (Foto: Rodrigo Lôbo / Fotos Públicas)

Aécio, o segundo, não se conformou com a vitória do Partido dos Trabalhadores pela quarta vez seguida e chegou até a pedir uma vergonhosa contagem de votos. O vice Aloysio disse, numa entrevista, que iria sangrar a presidenta reeleita. E sangrou. 

Milhares e milhares de pessoas, inconformadas com a vitória de Dilma nas urnas, vestiram uma camisa amarela da CBF e foram pras ruas pra derrubar a presidenta eleita, com o incentivo da maior parte da mídia, que alegava pedaladas fiscais. 

Uns pediam até mesmo a volta dos militares. Outros carregavam cartazes dizendo “Tchau, querida!”, Fora PT, Somos todos Cunha, enquanto me mandavam pra Cuba ou pra Venezuela. Podia escolher.  

Deu no que deu. 

Sendo assim, tantos e tantos anos depois, eu volto a escrever no final da minha crônica, agora não mais pro “Caderno 2”, mas pra CartaCapital, o meu grito de guerra. 

Eu quero votar pra presidente

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