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Etarismo superado

A vida doméstica deixa, finalmente, de ser o ambiente principal de personagens idosas nos filmes e livros

Etarismo superado
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Em cartaz. Em O Diabo Veste Prada 2, Meryl Streep, aos 76 anos, vive Anna Wintour, que tem essa idade. Em Dolores, Carla Ribas faz o papel de uma mulher que, aos 65 anos, quer abrir um cassino – Imagem: Mujica Saldanha e 20th Century Studios
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Para estrelar O Diabo Veste Prada 2, Meryl Streep recebeu 12,5 milhões de dólares. Vinte anos atrás, ao ser convidada para protagonizar O Diabo Veste Prada (2006), o cachê proposto inicialmente foi de 2 milhões de dólares. Ela só aceitou o papel quando os produtores dobraram o valor oferecido.

À época, ela disse: “Tenho 56 anos – levei todo esse tempo para entender que eu era capaz! Eu tinha certeza de que seria um sucesso. E eles precisavam de mim, eu sabia. E eu queria fazer isso, mas, se eles não quisessem, tudo bem. Porque eu sou velha – estava pronta para me aposentar”.

Na continuação, em cartaz nos cinemas brasileiros, a atriz se destaca não apenas pela sagacidade que empresta à personagem – inspirada na ex-editora da Vogue norte-americana Anna Wintour –, mas por ser uma mulher de mais de 70 anos em um grande papel de um ­blockbuster hollywoodiano.

“Muitas vezes, as mulheres com mais de 50 anos, eu diria, desaparecem no anonimato. Seus interesses e opiniões são menos valorizados em nossa cultura”, afirmou a atriz recentemente em vídeo divulgado pela Associated Press.

No filme, a personagem de Meryl ­Streep é uma editora que está vendo seu poder diminuir com o enfraquecimento da versão impressa da revista em que fez história. A personagem não cede a opressões e, ao mesmo tempo, faz jogos e conchavos para manter sua posição de destaque.

Com o aumento da expectativa de vida­ da população mundial e a discussão sobre o “etarismo” na ficção – especialmente no que diz respeito às mulheres –, as protagonistas com mais de 60 anos vêm se fazendo mais presentes em obras literárias e cinematográficas.

O longa-metragem brasileiro Dolores (2025), recém-lançado nos cinemas, capta essa mudança. O filme dirigido por Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes tem como protagonista uma mulher que acaba de completar 65 anos, e quer transformar sua vida a partir de um sonho premonitório: abrir um cassino.

“Como um espelho, o cinema reflete a sociedade, ao mesmo tempo que alimenta essa transformação”, diz Carla Ribas

Ao redor dela há muitas outras personagens femininas, de diversas idades, às voltas com as consequências de ir atrás de seus sonhos e aspirações.

Carla Ribas, que tem 68 anos e interpreta a personagem-título, viveu, duas décadas atrás, uma protagonista na casa dos 40 anos, a manicure que protagonizava A Casa de Alice (2007). De lá para cá, diz a atriz, houve uma clara mudança na forma como o cinema aborda a maturidade.

“Está se entendendo que a mulher de mais de 60 anos tem sonhos, não quer só ficar em casa cuidando dos netos. O movimento feminista e o Me Too nos fizeram entender que o patriarcado quer nos colocar em gavetas, cada uma com uma categoria”, afirma a atriz. “Há uma mudança em curso. E, como um espelho, o cinema reflete a sociedade, ao mesmo tempo que alimenta essa transformação.”

A renovação descrita pela atriz se materializa em outro filme brasileiro recente, O Último Azul (2025), de Gabriel ­Mascaro, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim. O filme, disponível na Netflix, é ambientado num futuro em que idosos devem ser internados compulsoriamente em uma colônia. Antes disso, Tereza (Denise Weinberg), de 77 anos, quer realizar um sonho: andar de avião.

Karina Almeida, que estuda, em um doutorado na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a representação das mulheres com mais de 50 anos no cinema brasileiro contemporâneo, tem notado a recorrência do tema. Se, durante muito tempo, a mulher mais velha era associada à ideia de feiura e decadência física e moral, nos últimos anos isso começou a mudar.

A pesquisadora observa que longas-metragens como Tia Virgínia (2023), de Fabio Meira, disponível no Globoplay, e Um Dia com Jerusa (2020), de Viviane Ferreira, disponível na Netflix, colocam essas mulheres em outro lugar: o da rebelião contra o sufocamento.

Sonhar. No filme O Último Azul, Denise Weinberg vive uma mulher de 77 anos – Imagem: Guilhermo Garza/Desvia Filmes

Em Tia Virgínia, a personagem-título (Vera Holtz) tem 70 anos, é solteira, não tem filhos, e, no passado, foi convencida pelas irmãs de que deveria ficar em casa cuidando da mãe. Num Natal, com a mãe em estado terminal, todos os conflitos familiares reprimidos vêm à tona.

Para Karina, Um Dia com Jerusa – protagonizado por uma mulher negra idosa (Léa Garcia), entrevistada por uma pesquisadora que trabalha para uma marca de sabão – ocupa um lugar particular nesse contexto. “As culturas indígenas e afrodescendentes têm um olhar diferente para a velhice”, diz. “A pessoa é vista como guardiã de conhecimentos e experiências a serem transmitidos aos mais novos.”

Karina assinala, porém, que raramente a sexualidade dessas personagens é abordada. Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho, também disponível na Netflix, é uma exceção: a protagonista, Clara (Sonia Braga), vive sua sexualidade de forma plena.

Na literatura, a sexualidade da mulher idosa tende a surgir de forma mais livre. O romance E Se Eu Morrer Amanhã? (Editora Dublinense), da portuguesa Filipa Fonseca Silva, recém-lançado no Brasil, combina drama e comédia para abordar as descobertas de Helena, uma viúva de 79 anos.

Filipa partiu da história real de uma senhora francesa que guardava brinquedos sexuais debaixo da cama, mas, para criar sua protagonista, fez pesquisas e entrevistas.

“Eu achava que o tema não era um ­tabu. Nunca havia pensado nisso, mas essa história me fez pensar em minha avó”, diz a autora. “E se descobríssemos que ela comprou esses brinquedos? Ou, ainda: e se ela tivesse descoberto mais sobre o próprio corpo? É preciso desmitificar a sexualidade feminina.”

A autora lembra que, por muito tempo, o homem sexagenário, se enviuvasse, era incentivado a buscar uma nova companheira. “Já a mulher precisava sufocar seus desejos e dedicar-se apenas à família”, diz Filipa. “Isso está mudando, mas ainda há um peso, e as mulheres não podem dizer que gostam de namorar.”

Septuagenária. O livro E Se Eu Morrer Amanhã? é sobre as descobertas sexuais de uma viúva de 79 anos

A história da protagonista, que abriu mão da vida profissional para cuidar da família, é a de muitas mulheres do século XX – e o romance dá voz a essa geração.

A narração é em terceira pessoa, mas em alguns capítulos é Helena quem conta a própria história. “O livro estava quase pronto, mas faltava algo”, diz Filipa. “Entendi que era preciso ouvir a voz dela, trazer seus pensamentos, aos quais nenhum narrador teria acesso.”

E esse movimento de dar voz e visibilidade a mulheres maduras na ficção se espraia para a vida real. No mês passado, a Vogue, nos Estados Unidos, estampou na capa duas septuagenárias – algo inédito. Não eram, é verdade, duas mulheres quaisquer, e sim Meryl Streep e Anna Wintour, fotografadas por Annie ­Leibovitz – ela própria, aos 76 anos.

Não deixa de haver ironia no gesto: a editora que, durante décadas, decidiu quais jovens mereciam estar na revista, ocupou esse lugar aos 76 anos. Prova de que não só escritores e cineastas, mas também o mercado, estão de olho nesse nicho em ascensão. •

Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Etarismo superado’

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