Estudo mostra como a cultura musical se forma e muda na comunidade

Trabalho de Rodrigo Cantos historiciza a manifestação da música em uma aglomeração urbana e evidencia contextos semelhantes País afora

Foto: Rodrigo Cantos/Arquivo Pessoal

Foto: Rodrigo Cantos/Arquivo Pessoal

Cultura

Mont Serrat é um bairro central e antigo, mas à margem das iniciativas estruturantes de Florianópolis. Igual a ele existem vários pelos centros urbanos do País. A transformação cultural que ocorreu no lugar evidencia semelhanças a outros locais em condições de vida similares.

“As transformações culturais em torno das práticas musicais da comunidade do Mont Serrat acontecem de maneira aproximada em diversos outros contextos brasileiros, em alguns lugares com características particulares daquela região”, avalia Rodrigo Cantos Savelli Gomes, mestre em música e doutor em antropologia na UFSC. Mas ressalta que hoje “é possível observar em quase todos os contextos a forte influência das grandes mídias e dos mercados internacionais sobre o gosto e o consumo da juventude, incidindo fortemente na construção identitária destas comunidades”.

 

 

O antropólogo fez um trabalho durante o curso em licenciatura em música sobre mulheres negras de Florianópolis, suas práticas musicais e as formas de resistência exercidas por elas, mas o projeto ficou arquivado por alguns anos. Recentemente, o pesquisador o concluiu e publicou em livro com o título A Música do Morro das Mulheres – Resistência e Relações de Gênero na Comunidade do Mont Serrat de Florianópolis, disponível tanto no formato e-book como impresso pela Amazon.

A obra relata as primeiras manifestações musicais daquela histórica comunidade da capital catarinense, como a folia de reis, o canto das lavadeiras nos cursos de água então existentes no morro e o cacumbi, que é considera uma variação da congada.

 

Influência nos jovens

Posteriormente, cita a influência do samba, das religiões afro-brasileiras e do catolicismo na atividade musical local e, nas décadas recentes, o surgimento do pagode, do rap e das igrejas pentecostais como dinamizadores da música. Em todos esses casos, a influência costuma ser mais perceptível e clara junto aos jovens.

“Esse movimento da juventude costuma gerar um caloroso debate no meio cultural que tende a polarizar termos como tradição e espetáculo, cultura popular e cultura de massa, autenticidade e manipulação. Entretanto, se mergulharmos a fundo na história, verifica-se que aquilo que se defende hoje como ‘tradição’, poucas décadas atrás também foi contestado como algo que estaria desvirtuando a tradição e as raízes culturais”, diz.

Ele exemplifica o samba, que no início do século 20 passou de uma estética ‘folclórica’ para uma estética mais ‘popular’, a qual gerou polêmicas entre os sambistas mais antigos, que inclinavam em não reconhecer a nova vertente como parte do universo do samba por se tratar de algo transformado e misturado.

 

Transformações

“Exemplos como estes encontramos em diversos contextos, inclusive no meio religioso”. No trabalho, Rodrigo Cantos avalia que as novas manifestações culturais ainda geram “desconfiança e incerteza” dentro das comunidades, apesar de estabelecidas.

“Muitas vezes o rap, o funk e até mesmo a música pentecostal são vistos como invasoras, como algo que vem desestabilizar a ordem, a coesão e a harmonia da comunidade. Observo na fala dos moradores mais antigos o uso frequente a expressão ‘nós somos uma comunidade’, como uma tentativa de preservar algo que está se esfacelando aos seus olhos, mas que esperam ansiosamente retomar”, explica.

Mas ele acredita que essa coesão em torno de um território e determinados costumes e práticas culturais talvez nunca tenha existido de fato numa comunidade. “As mudanças, as modificações, as inovações são requisitos básicos para existência da própria tradição. Uma tradição se perde quando se torna engessada, quando deixa de ser dinâmica. Aí, ela vira coisa do passado e desinteressa a juventude. Para manter uma tradição cultural viva em uma comunidade ela precisar ser fluida”.

A esposa do pesquisador é integrante de uma das famílias mais tradicionais e influentes da comunidade, que possui atuação nas mais diversas instituições sociais, como a escola de samba, conselho comunitário, igreja católica, centro cultural.

“Desde que nos conhecemos, passei a frequentar assiduamente a comunidade e semanalmente conduzimos as atividades musicais da igreja católica local, juntamente com outros participantes”, afirma.

O livro é bom entendimento de como a música se transforma em uma comunidade pouco assistida pelo poder público, as mulheres nesse contexto e como hoje a cultura de massa e a igreja neopentecostal ocupam espaços nesses lugares. Um mergulho de perto à realidade.

 

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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