Cultura

‘Escravidão’ de Laurentino Gomes relembra os tambores no Brasil Colônia

Volumes I e II da obra do escritor aprofundam-se na história do tráfico negreiro no País e recorda heranças sociomusicais

Imagem: Reprodução
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Leitura imprescindível, fruto de um extenso trabalho de pesquisa, os volumes I e II de Escravidão (o volume III e último está previsto de sair no ano que vem), do escritor e jornalista Laurentino Gomes, lançados pela Globo Livros, têm passagens que remontam as origens que definem algumas de nossas heranças sociomusicais.

O desumano e violento sistema escravista português e brasileiro era também extremamente corrupto. O tráfico negreiro envolvia líderes de nações e reinos africanos, mercadores e traficantes europeus e brasileiros, monarquias europeias, membros da Igreja Católica, fazendeiros, mineradores, instituições financeiras, entre outros.

Mas aqui não se trata de resenhar de forma pormenor os volumes. São trabalhos com detalhes e contrapontos bastante complexos e fundamentados. A ideia é pôr na linha de frente, em meio a tantas possibilidades de análise desses dois livros lançados, o seu aspecto de legado cultural, na sua vertente sociomusical.

No Quilombo dos Palmeiras, localizado onde estão hoje os estados de Pernambuco e Alagoas, que perdurou por cerca de 100 anos, batuques eram ouvidos a quilômetros de distância, relata o volume I. No Brasil recém-ocupado, o absurdo já sendo vivido em intensidade e alguns escravizados buscando o sonho de liberdade, do resgate das origens, de suas danças e sonoridades.

O comandante militar desse “reino” africano em território brasileiro, Zumbi, e alguns guerreiros remanescentes lutaram pela sua permanência até sucumbirem em 1695. Os muitos outros quilombos surgidos no País, com atos de sociabilidade com canto e dança, se manifestaram no Brasil Colônia.

A Igreja vivia a contradição do amor ao próximo e a piedade com a brutalidade da escravidão. A instituição traficava escravos e era servida por eles. A Igreja no Brasil colonial também exercia o controle social de um Estado português exploratório e em busca desenfreada por riquezas. Assim, recomendava a participação dos negros cativos e nascidos no País nos eventos católicos, além de evangelizá-los.

Dessa aproximação, surgiram inúmeras irmandades religiosas negras, que promoviam suas versões para as festividades: folias, reisados, congadas, eleição de reis e rainhas, com trajes típicos, protegidos por guarda sol, típicos das monarquias africanas, ao som de tambores e outros instrumentos musicais.

O uso de estandartes, nobres e súditos em vestes especiais se faziam presentes nesses acontecimentos religiosos, de louvação a santos, que congregavam entes de origens africanas. Procissões religiosas que muitos acreditam ter desaguado na forma que é hoje o carnaval de escola de samba.

A escravidão urbana no Brasil Colônia influenciou uma nova cultura nas cidades e vilas, embora o regime escravista tenha se estabelecido no País, inicialmente no âmbito rural, para atender a monocultura de cana de açúcar e, depois, de café.

Em Cachoeiro, Recôncavo Baiano, o rufar dos atabaques num terreiro de candomblé ecoam até hoje. Cativos da República do Benin que influenciaram no desenvolvimento de religiões africanas no Brasil, notadamente na Bahia, empenharam o som alto e forte dos tambores, instrumento percussivo mestre da linguagem musical brasileira.

Na Vila Bela da Santíssima Trindade, Mato Grosso, na fronteira com a Bolívia, conta o volume II de Escravidão, de Laurentino Gomes, que atualmente há a Dança do Congo, onde homens tocam tambor e vestem-se com adereços africanos, portando na cabeça indumentárias indígenas. Ainda no mesmo lugar existe a Dança do Chorado, a qual mulheres vestem roupas que lembram mãe e filhas de santo do candomblé e as cholas, as mestiças bolivianas.

Na primeira capital de Mato Grosso, em um Brasil ainda colônia, impulsionada pela cobiça do ouro e os escravos como mão de obra, o legado se confluem nas danças do Congo e Chorado, ainda remanescentes de uma herança sociomusical viva, de referências afro-indígenas que contam muito das expressões da arte nacional. É a nossa história cultural exuberante, ainda que marcada pela crueldade da escravidão.

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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