Cultura

Cinema

Em 'Real: O Plano por Trás da História', o elogio à 'tropa da elite'

por Miguel Martins publicado 26/05/2017 00h30, última modificação 02/06/2017 11h44
Longa sobre o Plano Real explicita o fosso entre os economistas de FHC, retratados como estrelas pop, e o povo
Divulgação
Economistas de FHC

Os artífices do plano são retratados como estrelas. A população, como passiva.

*Alerta de spoiler: este é um texto para quem assistiu ao filme ou não se importa de conhecer detalhes da trama.

No lado externo do Panteão da Pátria, na Praça dos Três Poderes, arde no alto de uma torre de algumas dezenas de degraus a “chama eterna”. À parte as visitas turísticas, o monumento brasiliense costuma ser mais frequentado nas madrugadas, quando rodas de violão regadas a vinho barato animam a República que dorme.

Não é lugar provável para uma conversa entre um ministro da Fazenda e um diretor do Banco Central, acostumados a gabinetes reservados. Diálogos sobre os destinos do País no alto de um cartão postal da capital federal, sem qualquer brasileiro para acompanhar, encontram justificativa como recurso dramático. É uma cena bastante distante do real.

No conjunto do filme Real: O Plano por Trás da História, a conversa travada por Pedro Malan e Gustavo Franco é apenas mais um dos esforços de conferir grandeza ao time de economistas formado no governo de Itamar Franco para combater a hiperinflação, base do que viria a ser a equipe econômica de Fernando Henrique Cardoso.

O formato bem-sucedido do filme Tropa de Elite, de José Padilha, ressurge na produção sobre o Plano Real, que substitui um incorruptível e violento capitão do Batalhão de Operações Especiais por um economista obcecado em desqualificar qualquer pensamento progressista como “coisa de comunista”.

O Gustavo Franco do longa de Rodrigo Bittencourt, interpretado por Emílio Orciollo Neto, é arrogante e absolutamente alheio ao povo, mas não deixa de ser um pop star que desfila de óculos escuros ao som de um rock enfurecido, ladeado por nomes como Malan, André Lara Resende e Pérsio Arida. Uma verdadeira “Tropa da Elite”.

Longas sobre personagens políticos de trajetórias frescas na memória dos brasileiros costumam descambar para o melodrama. Foi o caso do filme “Lula, o Filho do Brasil”, lançado em 2009, quando a popularidade do ex-presidente chegava a seu ápice. Na produção sobre o Plano Real, a tentativa de retratar economistas como estrelas não foge à regra. Celebra seus homenageados e ironiza os adversários como se a polarização fosse não apenas um recurso dramático, mas uma obsessão política.

A primeira e a última cena do filme tratam do mesmo tema, o único que parece ter restado aos círculos elitistas como desculpa para o atual estado de coisas. “Você votou no Lula?”, pergunta em tom de deboche o personagem de Franco em conversa com um colega economista. No diálogo fictício ambientado no início dos anos 1990, Franco ridiculariza seu interlocutor por ser um suposto exemplar da esquerda festiva.

É sintomático como uma produção dedicada a celebrar os importantes feitos de Fernando Henrique Cardoso e sua equipe não mencione o homenageado na primeira e última cenas, mas dedique o início e o fim da produção a dar lições de moral a Lula e ao PT.

O epílogo do longa remete à convocação de Franco, em 2003, pela CPI do Banestado, que investigava as responsabilidades sobre a evasão de divisas para paraísos fiscais. À época, Franco foi indiciado por envio irregular de dinheiro para o exterior a partir das chamadas contas CC5.

Alvo da comissão, Franco torna-se o acusador no longa. Elogia o trabalho de um certo juiz Sérgio Moro, “que tem feito um ótimo trabalho” à frente das investigações sobre o escândalo do Banestado. Em seguida, ataca seu inquisidor petista, um fictício deputado bigodudo de nome Gonçalves, ao sugerir que adeptos do neoliberalismo como ele terão de voltar ao poder para corrigir os erros da esquerda.

O longa termina com petistas irados a rebater os ataques de Franco, enquanto se aferram à defesa da postura “ética e ilibada” de sua legenda.  A teleologia do longa se torna evidente: uma hora, o PT teria de sair do poder para senhores que pensam como Franco retomarem o controle do País.

O desastre econômico legado pelo câmbio fixo no primeiro mandato de FHC e a compra de votos para a emenda da reeleição do tucano são mencionados no longa, mas são retratados como fatos menores de um projeto bem-sucedido. As críticas da população ao governo do PSDB parecem ser fruto apenas de ignorância. Prova disso é a fictícia cena em que Franco, ao chegar em frente ao prédio do Banco Central, depara-se com um protesto de trabalhadores contra a crise econômica. O então presidente do BC sobe repentinamente ao palanque e discursa até transformar vaias em aplausos.

A distância entre os gestores e o restante da população é explícita no intencional uso do futebol como ópio do povo. Franco, retratado como um crítico do fascínio nativo pelo esporte bretão, vê na Copa do Mundo de 1994 uma janela de oportunidade para implantar o Plano Real. Os economistas de FHC reúnem-se para assistir à final do Mundial entre Brasil e Itália e comemoram a vitória na disputa de pênaltis não como torcedores, mas como gestores que utilizarão o momento de otimismo no País para lançar a nova moeda no mercado.

O ator Herson Capri recusou a oferta para viver FHC no longa. Segundo o jornalista Ancelmo Gois, o ator confidenciou a um amigo que o filme é “uma peça de propaganda” para 2018. Se o objetivo era esse, a produção parece ter perdido o "timming": tucanos graúdos como José Serra, fidedignamente interpretado em seus trejeitos por Arthur Kohl, estão atualmente enredados em escândalos de corrupção assim como os petistas. Indeciso sobre o desembarque do governo de Michel Temer, o PSDB gestado nos anos de FHC está longe de representar uma saída ética para o País, embora condene seus pares. 

A “chama eterna” do Panteão da Pátria, onde Malan e Franco conversam no longa, está apagada, e não apenas no sentido figurado: desde setembro de 2016, o fogo da República deixou de arder por falta de recursos para a manutenção do monumento. Uma metáfora justa para tempos caóticos no País, sobre os quais o PSDB também tem parcela de responsabilidade.