Cultura

Em novo romance, Cristovão Tezza mergulha na pressão existencial no Brasil contemporâneo

Em ‘Beatriz e o poeta’, os personagens do escritor lidam com a pandemia e com a crise política

O escritor Cristovão Tezza.
O escritor Cristovão Tezza.
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O novo romance de Cristovão Tezza, Beatriz e o poeta (Todavia, 192 págs., 69,90 reais), está ancorado no presente pandêmico e político. “O que resta da democracia americana está implodindo sob Trump”, escreve ele. Ou: “[o] governo mais completamente imbecil da história [desse] país”. O autor explica que, no entanto, não foram exatamente os fatos atuais que o estimularam a escrever o livro.

“Como às vezes acontece comigo, o projeto romanesco inicial acaba ‘contaminado’ pelo tempo presente e suas circunstâncias”, diz, em entrevista a CartaCapital. “No momento em que comecei a escrever este romance, a pandemia acabou se tornando uma presença inescapável, e até determinante do comportamento e evolução dos personagens.”

Ele explica que o centro e o ponto de partida do romance são a forma como seus personagens lidam com o mundo e o momento em que vivem. “Eu não estou escrevendo um livro sobre a pandemia ou sobre o momento político brasileiro; meus objetos literários são Beatriz e Gabriel, o poeta, e a pressão existencial que sofrem no Brasil de hoje”, afirma. “Veja que o romance, como gênero, jamais teve medo do instante presente. Aliás, ele se alimenta do tempo imediato de uma forma muito mais orgânica do que qualquer outro gênero literário.”

Nesse livro, Tezza retoma uma personagem cara à sua obra, a tradutora Beatriz, que ele acompanha desde quando ela tinha 20 anos – primeiro em alguns contos, reunidos na coletânea Beatriz (2011), e, depois, nos romances Um erro emocional (2010) e A Tradutora (2016). Agora, ela está na faixa dos 40 anos, traduz a obra de um filósofo catalão e é assediada por um poeta – tudo isso durante a pandemia.

Romance ‘Beatriz e o poeta’ é atravessado por questões da pandemia. Foto: Divulgação

Beatriz passa boa parte dos dias trabalhando num pequeno café, em Curitiba, onde mora, tirando a máscara apenas para beber alguma coisa, e sempre diante de seu computador. Numa ocasião, o jovem poeta se põe à frente dela e começa a falar. O romance alterna capítulos narrados em terceira pessoa com outros construídos como um longo monólogo de Gabriel, tentando seduzi-la. Nesses trechos, ele acaba revelando não apenas fatos sobre sua vida, mas sua percepção do aqui e agora.

Gabriel é um  típico jovem de seu tempo: fala muito e maneira dispersa, emenda um assunto no outro e procura um rumo na vida. É filho de uma psicóloga com um comentarista político de televisão que desfruta de uma certa fama. Como personagem, o poeta é marcante e, acima de tudo, verossímil.

Tezza conta que tem um processo peculiar de construir suas personagens: “Eles são uma espécie de criaturas de Frankenstein, montados aos pedaços”. Beatriz, o autor já conhece de longa data, mas Gabriel foi sendo criado aos poucos. “A tensão emocional se cruza com a tensão política. No momento em que a linguagem dele se cristalizou, já em sua primeira fala, o personagem como que começou a andar sozinho. Na verdade, vou descobrindo meus personagens à medida que os escrevo. Não tenho nada previamente fechado na cabeça.”

Em Beatriz e o poeta, a pandemia acaba por funcionar como um motor narrativo, uma vez que os personagens precisam leva-la em conta em suas ações – eles não podem, por exemplo, ficar muito próximos, especialmente porque a trama se passa num momento no qual não havia vacina. “A literatura é uma esponja dos costumes, absorve tudo, mesmo à revelia do escritor”, justifica ele.

Ele conta que, anos atrás, quando esteve no Japão, estranhou as pessoas usando máscara na rua. “Era apenas um traço cultural refinado: se estou gripado, uso máscara para não espalhar o vírus.” Após o enorme impacto da pandemia na vida contemporânea, a realidade é, no entanto, outra, e “a máscara veio para ficar.”

“E é engraçado que, no Brasil, ela se tornou presente não apenas pela função sanitária, mas, curiosamente, também pelo papel político, diante de um presidente  que trabalhou ativa e furiosamente para demonizar a vacina e estimular a propagação da Covid-19. Acho que não há, na história brasileira, uma barbárie concreta e simbólica semelhante à que vivemos.”

Apesar de mostrar-se um elemento incontornável na literatura contemporânea, a pandemia, na visão de Tezza, não transformará a produção. “Acaba sendo pano de fundo da percepção literária, entre mil outros temas do nosso tempo. Mas daí a imaginar que transforme num estalo as formas literárias é um exagero”, diz. “A literatura sempre foi uma arte lenta, de transformações demoradas, que se medem em séculos”

Tezza, autor do premiado O Filho Eterno (2007), vê, inclusive, um risco na ficcionalização de um presente tão imediato. “O perigo é você escrever algo datado, que se esgota no presente”, diz. “É confundir a ficção com jornalismo, historiografia, filosofia, ensaísmo social ou panfleto. É verdade que é da natureza da literatura absorver todas essas linguagens, de um modo ou de outro — mas ela não pode perder seu rumo ficcional. O seu objeto central será sempre a pessoa concreta, a hipótese de sua existência, a percepção sensível, ambígua, contraditória do instante presente.”

Alysson Oliveira

Alysson Oliveira
Alysson Oliveira é jornalista, mestre e doutor em Letras pela FFLCH-USP, onde realiza também pesquisa de pós-doutorado. Escreve sobre livros para a CartaCapital.

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