Cultura

Em álbum engenhoso, Don L caminha para ser um dos grandes do rap

Artista cearense radicado em São Paulo apresenta segundo álbum propositivo em letra e melodia

Foto: Bel Gandolfo/Divulgação
Foto: Bel Gandolfo/Divulgação

O segundo álbum da trilogia reversa de Don L, o RPA2, impulsiona o rapper rumo à lista dos grandes do gênero no País. O novo trabalho mescla citações históricas, políticas, adversidades, sonhos de mudança e utopias associadas a uma sonoridade que caminha pelos vários subgêneros do rap, do boom bap (rap clássico) ao trap e drill. Mas há inserções instrumentais nada convencionais nas músicas, que reforçam a originalidade do trabalho.

Trata-se de um álbum engenhoso, com letras e melodias propositivas. Roteiro pra Aïnouz, Vol.2, ou RPA2, é o segundo da chamada trilogia reversa, que começou com RPA3.

“Na sonoridade, o RPA3 tem uma atmosfera mais cinzenta, densa, desiludida do que eu poderia conquistar. O RPA2 fala de minha vida de volta aos grandes sonhos”, conta.

“No RPA2 faço uma analogia de meu momento com o momento político do país. Ao mesmo tempo em que você cai num lugar de desilusão, você retorna para grandes sonhos de mudança”.

O álbum tem menções históricas do Brasil Colônia interpretadas ao momento atual, com linguagens do rap, de discurso pesado, extenso e crítico, ao longo das canções. “A confusão temporal foi proposital no disco”, diz.

O trabalho conta com 13 faixas e quatro interlúdios com falas. O RPA2 foi produzido por Don L e pelo experiente Nave. O álbum tem muitas participações do universo do rap: Djonga, Tasha & Tracie, Rael, Daniel Ganjaman, Mahmundi, Giovani Cidreira, Alt Niss, Terra Preta, Mateus Fazeno Rock, Luiza de Alexandre, Fabriccio, Thiago França, Eddu Ferreira, 808 Luke, Willsbife, Deryck Cabrera, Donatinho e Guilherme Held.

Em Fortaleza, em 2005, Don L formou a banda Costa a Costa. Dois anos depois o grupo lançou o mixtape de nome Dinheiro, Sexo, Drogas e Violência de Costa a Costa, trabalho que ficou conhecida entre os rappers no país.

Don L depois seguiu o caminho solo com lançamento de singles e o trabalho Caro Vapor – Vida e Veneno de Don L. Em 2017, lançou o primeiro disco da trilogia reversa, o RPA3. Já Roteiro Pra Aïnouz é uma referência ao cineasta Karim Aïnouz, cearense como ele.

Don L está radicado em São Paulo desde meados da década passada e seu trabalho remete sua vinda do Nordeste para a capital paulista e tem ares autobiográficos.

O disco recém-lançado

O álbum RPA2 abre com interlúdio e mais três são distribuídos ao longo do disco. Trata-se de falas dissimuladas de pastores mensageiros da hipocrisia e interesses.

Na música Vila Rica (antiga Ouro Preto), no Caminho do Ouro, aparece um “bonde” dos nossos tempos em busca de riqueza e justiçamento. A inevitável vida bandida é apresentada em A Todo Vapor.

Em Pânico de Nada, a polícia inimiga, o conflito eminente e o tudo ou nada reinante; a faixa Pela Boca segue a mesma linha e também na música Volta da Vitória. Já em Enquanto Recomeça, a objetificação sexual da periferia; a cidade partida e os desejos na faixa Élewood.

Primavera é o sonho e as desilusões de um retirante. Em Favela Venceu, a ressurreição da comunidade. Auri Sacra Fame, o resultado da busca desenfreada pelo ouro no passado. Na faixa Bingo, nova relação do Brasil Colônia e a atualidade.

O rap afetuoso em Contigo pro que for. O disco encerra com Trilha para uma Nova, a luta que segue.

Don L faz uma epopeia em RPA2 com fluência e conhecimento de causa. É um dos grandes discos de rap do ano.

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