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Dona Onete: o abraço do Pará contra a "burra discriminação"

por Miguel Martins publicado 02/04/2017 14h08, última modificação 03/04/2017 02h00
No terceiro vídeo da série CartaTeca, a compositora de 77 anos refaz sua trajetória rumo à fama tardia e hasteia a bandeira contra o preconceito

Após completar sua sétima década de vida, Ionete da Silveira Gama jogou-se em um novo tipo de “banzeiro”. Em vez das ondas formadas pelo deslocamento dos barcos nos rios, mergulhou em uma exigente carreira artística profissional há cinco anos, quando lançou seu primeiro álbum. “Por que fui inventar de fazer sucesso depois de velha?”, pergunta-se aos risos, pouco antes de subir, em 17 de fevereiro, ao palco do Cine Joia, em São Paulo. “Podia estar deitada numa rede neste momento.”

O patriotismo paraense de Dona Onete ao sonhar com a tranquilidade de um descanso em Igarapé-Miri, município de 60 mil habitantes, está também na Jamburana, licor de jambú que “deixa a boca muito louca”, no Tipiti, prensa de palha usada para secar a mandioca, e no próprio banzeiro, símbolos culturais do estado e títulos de três das mais de 300 canções de sua lavra.

Após lecionar história e estudos amazônicos, atuar como secretária de cultura de Igarapé-Miri e organizar diversas festas e rodas de dança, Dona Onete talvez tivesse motivos para curtir a aposentadoria como professora. Abandonou, porém, o barco da vida pacata e jogou-se nas ondas da fama. Em Banzeiro, Dona Onete já avisava que não titubeia em águas instáveis. “Te mete, te joga e vem com a gente. ”

No terceiro vídeo da série CartaTeca, Dona Onete refaz sua trajetória rumo à fama tardia e hasteia a bandeira contra o preconceito. Ao explicar a letra de “Na Linha do Arco-Íris”, um hino pela igualdade de gênero, mostra sua disposição em abraçar e beijar todas as diferenças. “Eu, com 77 anos, sempre ouço que tenho coragem de lançar essa bandeira. Se eu não tivesse coragem, nascia morta.” Em show realizado em 17 de fevereiro no  Cine Joia, a compositora paraense convidou a cantora Liniker para subir ao palco e “tremer” ao ritmo de Jamburana

Como Cora Coralina, poeta que lançou seu primeiro livro aos 76 anos, Onete guardou por décadas suas composições na gaveta. Inicialmente, por pressão do ciumento primeiro marido. Nos ensaios de festas de carnaval e boi-bumbá, ela criava versos e melodias a despeito da censura do parceiro, com quem casou-se aos 19 anos. 

“Eu ouvia sempre: ‘Onete, saia desta
cidade, vai-te embora,
tu és uma artista’"

Certa vez, Pinduca, cantor paraense nascido em Igarapé-Miri, foi à casa de Dona Onete pedir licença para usar uma de suas músicas. “Meu marido olhava as canções, via umas coisas apimentadas e começou a criar ciúme”, lembra. “Passei a escondê-las, justamente essas canções que tenho reciclado atualmente. Acho que guardei umas 300.”

Compositora prolífica, Onete era estimulada por vizinhos e amigos a seguir um carreira como cantora, mas a possibilidade de fama não a atraía. “Eu ouvia sempre: ‘Onete, saia dessa cidade, vai-te embora, tu és uma artista’. Mas eu tinha uma carga horária como professora de história de 5ª a 8ª série, que era o suficiente para eu me manter. Eu queria primeiro me aposentar. Eu largava tudo, e depois? Eu sou muito cabeça centrada.”

Após 25 anos de casada, Dona Onete divorciou-se e jogou-se no mundo. No início da década de 1980, foi convidada por amigas a aderir à militância do PT, pouco após a fundação da legenda. De passagem pelo ABC Paulista, berço do movimento sindical liderado por Lula, Onete passou a ser pretendida por vários homens da região. “Eu dizia que não queria namorar, estava ali para lutar.” No Bar Brahma, próximo ao pavilhão Vera Cruz, em São Bernardo, a cantora paraense animava os frequentadores com apresentações musicais. “Eles me tratavam como rainha”.

Após um de seus shows no bar, Onete compôs Proposta Indecente, gravada pela cantora paraense no álbum Banzeiro, de 2016. “O pessoal ficava me cantando, aí eu disse: ‘aquele que ganhar no jogo do bicho, vou recolher para passar o inverno comigo e, se tudo der certo, o verão também’. Alguém respondeu: ‘Mas Onete, isso é uma proposta indecente!”

Se o sambista Donga anunciava em sua canção Pelo Telefone a novidade tecnológica do início do século XX, Onete trazia na letra de Proposta Indecente uma recente novidade na comunicação dos anos 1980. Embora pareça atual, o verso “Você pode ligar pro meu celular a hora que você quiser” é daqueles tempos. “Na época em que eles eram ainda eram aqueles tijolões”, recorda a cantora.

Na década de 2000, a poesia orgânica e o “carimbó chamegado” de Dona Onete associaram-se à banda Coletivo Rádio Cipó, responsável também por valorizar artistas paraenses como Mestre Laurentino e Mestre Bereco. Por quase três anos, Dona Onete apresentou-se em São Paulo ao lado da banda e conquistou improváveis fãs na cena de rock da cidade.  “Eu tenho impressão que eu era uma atração à parte. A banda fazia as loucuras dela e depois eu fazia as minhas.”

Aos 72 anos, Dona Onete finalmente lançou seu primeiro disco, Feitiço Caboclo. Cinco anos depois, sua arte escapa às fronteiras brasileiras e conquista admiradores na Europa e nos Estados Unidos. Em novembro do ano passado, apresentou-se em Nova York para um grande público, com a presença de dois ilustres fãs: Caetano Veloso e David Byrne, líder da banda Talking Heads.

No show em terras norte-americanas, fez questão de carregar a bandeira de seu estado nas costas. “Eu prometi: meu Pará, eu vou te levar. vou te levar nas costas e vou levar Belém aqui no meu colo.” Esse patriotismo reforça sua ascendência sobre artistas paraenses da nova geração, como Saulo Duarte e Gaby Amarantos, que a tratam como uma madrinha informal. “A Dona Onete para eles é uma espécie de porto seguro.”

E o que explica o crescente fascínio por seu "carimbó chamegado"? "“Acho que talvez seja essa minha humildade, meu jeitinho carinhoso com as pessoas. Lá no Pará o abraço é muito forte. Quando a gente se abraça, sentimos o corpo do outro.” 

Em Na Linha do Arco-Íris, a compositora manda às favas o preconceito e a “burra discriminação”. Dona de um afeto ecumênico, Onete faz sucesso ao distribuir carinho em tempos de intolerância. "A gente é livre, não importa o jeito, amor é amor", comenta em crítica ao preconceito de gênero, antes de se despedir. "É isso ai meu amor, Dona Onete continua, aplausos para todos os sexos, para todos os amores, e beijo."

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