Cultura

Dom Pedro Casaldáliga, o ‘bispo do povo’, ganha nova biografia

Documentos e relatos sustentam a história do religioso que rompeu barreiras no interior do Brasil

Foto: CEFEP/Reprodução.
Foto: CEFEP/Reprodução.
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Pedro Casaldáliga é um dos maiores defensores e propulsores da Teologia da Libertação no Brasil, mas não se limitou a ser bispo. É poeta, tem veias jornalísticas e atuou ativamente contra a ditadura. Ajudou a defender uma população pobre, esquecida, ameaçada pelo latifúndio e reprimida pelo Estado militar em uma cidadezinha do interior brasileiro. 

Em “Um bispo contra todas as cercas”, a autora Ana Helena Tavares resgata a vida do clérigo desde seus dias como Pere Casaldáliga (seu nome de batismo), até transformar-se em Pedro, bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia – um lugar escondido no estado do Mato Grosso que teria destaque nacional pela chegada do espanhol. 

Era 1968, época em que parte do Brasil já julgava as lutas defendidas por Cristo como extremistas demais. Como dito pelo cineasta Silvio Tendler à autora do livro, porém,  “A revolução não persiste se não houver contadores”. 

“Um bispo contra todas as cercas”, Ana Helena Tavares. Gramma, 2019. 220 páginas. R$49.

Ao tornar-se bispo, Dom Pedro não perdeu tempo para relatar o que via na região – uma predominância do latifúndio sobre a vida e a exclusão dos cidadãos das tomadas de decisão das próprias terras e vidas.

Escreveu uma carta pastoral aberta intitulada “Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”, que alçou voos, alcançou Leonardo Boff, José Oscar Beozzo e outros teólogos, e firmou naquele ponto do mapa uma movimentação importante de ideais para a Igreja Católica brasileira. 

Se os nomes de Julio Lancellotti, Frei Betto e Dom Paulo Evaristo Arns são projetados até hoje como referências para a discussão de direitos humanos na Igreja Católica, Pedro Casaldáliga não fica atrás. Por muitas vezes, esteve na vanguarda da linha de fogo. “Na década de 70, a percepção da dimensão da figura do Pedro era outra. Ele teve uma projeção nacional e internacional muito grande”, diz Ana Helena Tavares, que se encontrou com o bispo em São Félix do Araguaia algumas vezes no processo de escrita da biografia. “Ele é uma pessoa que se preocupou em dar divulgação ao que fazia”.

A relevância dada à informação em tempos de censura fez com que Casaldáliga estivesse na lista de mais censurados do jornal O Estado de S. Paulo entre 1972 e 1975, mas não o impediu de denunciar as vezes em que foi amordaçado em cartas para os bispos. “Como é bom ser perseguido pela causa do Evangelho, da Justiça e da total Libertação!”, escreveu, na ocasião em que foi submetido a um cárcere privado em uma das quatro vezes que a prelazia teve intervenção de militares.

Para a autora, a escrita do livro vai contra “um Brasil que não cultua a memória”. Tavares acredita que resgatar a imagem de Pedro, mesmo depois de quase 15 anos de sua aposentadoria, é relevante para reverter o processo vigente de ódio no país. Os diversos depoimentos de pessoas que conviveram, admiraram e seguiram dom Pedro também evidenciam essa necessidade.

Sobre a semelhança com os dizeres de Papa Francisco, atualmente marcado como o inimigo da extrema-direita no mundo todo, Ana Helena Tavares comenta que a chegada do argentino foi, de fato, uma mudança de sinal na Igreja de modo geral, mas que ainda não se refletiu mundialmente.

A própria Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que acabou por eleger uma ala moderada entre os conservadores que queriam o poder, não responde à altura questões que, para Pedro Casaldáliga, seriam de suma importância. “Quando Bolsonaro anunciou que iria festejar o golpe militar, eu tenho a absoluta certeza de que ele teria lançado uma nota e se manifestado em repúdio contra a comemoração de um período que tanto atingiu a Igreja Católica”, disse Ana Tavares.

“Ser o que se é / Falar o que se crê / Crer no que se prega / Viver o que se proclama / Até as últimas consequências”. Aos 91 anos de vida e já acamado, Pedro Casaldáliga ainda vive em São Félix do Araguaia. De alguma maneira, também vive ali uma ideia de Brasil – e de igreja – que prega pelos que mais precisam. 

Giovanna Galvani

Giovanna Galvani
É repórter do site de CartaCapital.

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