Documentário ressalta papel dos espaços culturais de ‘aquilombamento’

Personagens contam no filme a construção dos centros de afro-referências em Campinas, que voltam a se despertar como locais de resistência

Foto: reprodução

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Cultura

O documentário Aquilombamento: Histórias Negras Contadas, lançado no Dia da Consciência Negra, traz como tema um espaço cultural afro-referenciados de Campinas (SP), que é um projeto criado pouco antes da pandemia e que reúne arte e cultura da periferia. O curta-metragem desperta a importância de grupos discriminados hoje se acolherem, se reunirem, se juntarem.

O filme explica por meio de depoimentos os trabalhos desenvolvidos pela Casa de Cultura Tainã, Casa de Cultura Urucungos, Puítas e Quinjengues, Casa De Cultura Fazenda Roseira, Casa De Cultura Ibaô e Casa de Cultura Andorinhas.

Rosa Sales conta no filme a história da escritora Raquel Trindade, filha de Solano Trindade, engajado nas artes e militante do movimento negro, quando foi lecionar em Campinas.

Convidada para da aula na Unicamp, Raquel encontrou apenas um negro na sala de aula. Daí, ela cria um curso de extensão na mesma universidade e convida a comunidade em torno do movimento negro para participar.

O resultado é a formação do grupo Urucungos, Puítas e Quinjengues, que são os nomes de três instrumentos musicais: berimbau, cuíca e tambores, respectivamente. O grupo já tem 33 anos e foi uma forma encontrada por Raquel para manter o legado do pai, de resgatar e devolver ao povo a arte.

O grupo carrega as referências de Solano agregado ao samba de bumbo campineiro, uma das maiores heranças da cultura do interior de São Paulo.

Já Bene de Morais, da Casa de Cultura Andorinhas, fala do trabalho de resistência negra e a ocupação de espaço. Desde os anos 1970 Bene é ligado ao trabalha de dança e música negra.

Andrea Mendes, da Casa de Cultura Ibaô, aborda a prática do “aquilombamento” e o que isso já gerou dentro de sua iniciativa. Ela ressalta a importância de disponibilizar a cultura, e dos negros se verem inseridos nela.

Um depoimento comovente de Alessandra Ribeiro, da Casa de Cultura Fazenda Roseira, criada há 13 anos, dá a dimensão de manter ativas as manifestações populares ancestrais. Quando criança, ela olhava de longe a fazenda de propriedade privada, que acabou tornando-se equipamento público.

Alessandra faz uma relação com seus antecedentes, que eram escravos na fazenda, com o lugar que hoje é espaço de aquilombamento.

Na Casa de Cultura Tainã, TC Silva trata das conexões mantidas com outros países africanos. Em declaração emocionante, conta em versos as mãos negras que construíram a América. Fala dos mortos que não suportaram a travessia pelo oceano nos navios negreiros: “O Atlântico é um cemitério de corpos pretos”.

O documentário Aquilombamento: Histórias Negras Contadas tem direção do músico Hellio Zulu, fundador do Margem Cultural. O filme é uma mostra do que espaços desse tipo ainda podem representar de acolhimento e resistência tão necessários nos dias de hoje.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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