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Dobradinha histórica

As vitórias de O Agente Secreto no Globo de Ouro coroam as trajetórias de profissionais persistentes e coerentes

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Dupla. Nos discursos de agradecimento e nas entrevistas, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura sublinharam a essência política que os marca, e está refletida no filme – Imagem: CinemaScópio e Amy Sussman/Getty Images/AFP
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A 83ª edição do Globo de ­Ouro, realizada em Los ­Angeles, no domingo 11, terminou com uma dobradinha brasileira. O Agente Secreto, dirigido pelo pernambucano Kleber­ Mendonça Filho, foi eleito o Melhor Filme em Língua Não Inglesa. O baiano Wagner Moura ganhou na categoria de Melhor Ator em Filme de Drama.

As vitórias acontecem um ano depois de Fernanda Torres ter saído do mesmo teatro, no hotel Beverly Hilton, com a estatueta de Melhor Atriz em Filme de Drama, pelo papel em Ainda Estou Aqui, de Walter Salles.

A conquista brasileira foi definida pelo The New York Times como o ponto alto da noite, especialmente pelo fato de Moura ser um latino a romper uma barreira invisível, vencendo falantes nativos de inglês, como Jeremy Allen White ­(Springsteen: Salve-me do ­Desconhecido), Michael B. Jordan (Pecadores) e Oscar Isaac (Frankenstein).

O brasileiro se tornou um rosto conhecido no mercado internacional a partir da série Narcos, da Netflix. O papel de Pablo Escobar chegou a render a ele, em 2016, a indicação ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Série Dramática.

No caso do filme O Agente Secreto, a conquista quebrou um jejum de 27 anos: o último longa-metragem brasileiro a ganhar um Globo de Ouro tinha sido Central do Brasil (1999), de Salles. No ano passado, embora tenha levado o Oscar na categoria de filme internacional, Ainda Estou Aqui perdeu o prêmio no Globo de Ouro para Emilia Pérez.

Nos discursos de agradecimento e nas entrevistas concedidas após a premiação, tanto Moura quanto Mendonça mantiveram sua essência política – que se reflete, de forma direta, na própria narrativa que construíram juntos.

“O Agente Secreto é um filme sobre memória, ou a falta dela”, disse o ator. “É sobre trauma geracional. Se o trauma pode ser passado de geração em geração, os valores também podem. Assim como a coragem. Então, este prêmio é para aqueles que permanecem fiéis aos seus valores em momentos difíceis.”

Nas salas do Brasil, o público do filme cresceu já no dia seguinte à premiação

O valor histórico do longa-metragem foi sublinhado também pelo cineasta: “O cinema brasileiro sempre foi uma forma de escrever a história que os livros oficiais tentaram apagar. Ganhar este prêmio por um filme que investiga o aparato de vigilância de 1977 não é apenas um reconhecimento estético, é um reconhecimento da nossa necessidade de nunca esquecer”.

A vitóriu coloca O Agente Secreto, que acumula 52 prêmios internacionais – sendo dois deles, de direção e interpretação masculina, no Festival de Cannes – como o grande favorito para o Oscar de Filme Internacional. Isso em um ano em que a categoria está fortíssima, com títulos dirigidos por outras grifes do cinema de autor (ler reportagem à pág. 50).

Wagner Moura, por sua vez, passou a ser tratado como uma presença provável na lista dos cinco indicados – que tem, entre outros nomes possíveis, ­Timothée Chalamet (Marty Supreme) e Leonardo DiCaprio (Uma Batalha Após a Outra). As indicações serão divulgadas no próximo dia 22.

Cabe observar que as duas premiações, embora próximas, têm características distintas. Como informou Leonardo Sanchez, na Folha de S.Paulo, no Globo de Ouro votam 399 jornalistas e críticos de 76 países, com os brasileiros correspondendo a quase 10% dos votantes. No Oscar, são cerca de 10 mil membros da indústria, a maioria deles dos Estados Unidos e do Reino Unido.

O filme, de qualquer modo, já é suficientemente vitorioso. O percurso até aqui coroa trajetórias – de Mendonça, e Moura, mas também de outros profissionais envolvidos no projeto, da criação à divulgação e distribuição – marcadas pela persistência e pela coerência.

O Agente Secreto, que ficou em primeiro lugar entre as bilheterias nacionais em 2025, segue em cartaz no circuito no Brasil e no exterior. Na segunda-feira 12, o dia seguinte ao Globo de Ouro, o título, de acordo com o Filme B, fez mais mais público do que havia feito no sábado e no domingo. Até agora, o longa-metragem soma 1,2 milhão de ingressos vendidos. A tendência, neste momento, é que atraia não só novos como repetidos espectadores. •

Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Dobradinha histórica ‘

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