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De volta à origem da humanidade

No surpreendente Os Imortais, Paulliny Tort fabula sobre o modo como os nossos antepassados percebiam o mundo

De volta à origem da humanidade
De volta à origem da humanidade
Pré-histórico. Paulliny preserva os mistérios que rondavam os nossos ancestrais – Imagem: Renato Parada
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Numa época em que se debatem a influência da tecnologia e os impactos da Inteligência Artificial nas atividades humanas, a literatura oferece a possibilidade de voltar aos primórdios da humanidade. E fabular de que modo nossos parentes ancestrais compreendiam o mundo milhares de anos atrás.

Em Os Imortais, a escritora e jornalista Paulliny Tort apresenta uma narrativa sobre um clã de neandertais em busca da sobrevivência. Em determinado momento, o grupo topa com alguns Homo sapiens. Depois de uma disputa territorial, uma bebê sapiens acaba sendo incorporada ao clã.

Estudos confirmam que as duas espécies de hominídeos coexistiram e se relacionaram por milênios, até a extinção dos neandertais, há cerca de 40 mil anos. E revelam que populações humanas atuais­ de origem não africana carregam entre 1% e 2% de DNA neandertal.

Também se sabe que as espécies tanto conviveram pacificamente quanto competiram por recursos. Há evidências de que os neandertais mantinham práticas culturais, como o enterro, embora ainda pouco se conheça sobre suas formas de comunicação e expressões de cuidado.

Paulliny explora com inventividade tais lacunas. A narrativa se estrutura em quatro partes. Três acompanham o ponto de vista de um dos personagens – o Homem, guia-caçador, a Mulher, guardiã do fogo e guia-caçadora, e a menina sapiens; a última traz uma confluência de perspectivas.

A autora consegue criar uma história situada em um tempo prévio ao aparecimento da linguagem sem recorrer a anacronismos ou a termos desgastados.

Os imortais. Paulliny Tort. Fósforo (232 págs., 84,90 reais)

A descrição dos ambientes – e seus animais, tipos de vegetação, acidentes geográficos etc. – é vívida e minuciosa. O texto apoia-se na visualidade e no registro sensorial, sugerindo como teria acontecido a percepção dos neandertais sobre o mundo que os cercava.

Embora não caia na armadilha de projetar nos personagens rudimentos de um modo contemporâneo de articular ideias, a narração onisciente se estrutura de forma lógica e racional (ou seja, sapiens).

Destacam-se as passagens em que o Homem, a Mulher e a menina têm saltos imaginativos, elaboram ideias mais complexas ou sentem algo parecido à nostalgia ou à saudade. O assombro gera um intento de compreensão.

Para os membros do clã, o Sonho faz fronteira com o mundo dos mortos, insinuando uma abertura incipiente ao simbólico e ao sublime. Por isso, são tocantes os trechos que acompanham a gradual­ transformação do Homem.

Depois de tantas travessias, terá ele alcançado algo como o sentido da existência? Ou terá sido despertado para aquilo que hoje chamamos de sagrado? Essas perguntas pertencem à leitora. A narrativa mantém possíveis quaisquer respostas.

Talvez haja uma pista, contudo. Os títulos dos capítulos são letras ou sílabas. A princípio, podem indicar uma forma de comunicação entre os neandertais. Afinal, na trama, eles combinam sons e gestos para se expressarem.

Mas as letras e sílabas, quando reunidas, formam versos da Eneida, poema épico latino escrito por Virgílio no século I a.C. Trata-se da passagem de invocação à musa, em que o poeta indaga por que tantos esforços e perigos foram impostos ao varão piedoso.

Em algum momento da pré-história, os humanos se deram conta da possibilidade de nomear as coisas, palpáveis ou abstratas. Paulliny preserva, em Os Imortais, os mistérios daquela época em que nossos antepassados estavam aprendendo a decodificar o mundo e a atribuir-lhe significados. •


VITRINE

Por Ana Paula Sousa


A franco-mauriciana Nathacha Appanah, convidada da Flip, reúne, em Noite no ­Coração (Bazar do Tempo, 240 págs., 89 reais), as histórias de três mulheres que tiveram um destino comum: foram vítimas de violência de gênero. Uma delas é a própria autora; as outras duas foram assassinadas.

O título, O Avesso da Tapeçaria (Edições Sesc, 126 págs., 65 reais), vem de uma imagem: traduzir seria como olhar uma tapeçaria flamenga pelo avesso. As figuras estão lá, mas embaralhadas entre fios e nós. Alberto Manguel se dedica, nestas notas, a refletir sobre o ofício de tradução.

Depois da celebrada Trilogia de Copenhagen, a Companhia das Letras lança, da escritora dinamarquesa Tove Ditlevsen, Os Rostos (160 págs., 69,90 reais), romance protagonizado por uma escritora de livros infantis atormentada por problemas psiquiátricos e visões.

Publicado na edição n° 1424 de CartaCapital, em 05 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ”

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