De Bacurau aos extremistas: “Por que vocês estão fazendo isso?”

Filme flagra um vilarejo sob ataque dos americanos, num Nordeste de faroeste que foi separado do 'Brasil do Sul'

Cena de Bacurau (Foto: Divulgação)

Cena de Bacurau (Foto: Divulgação)

Cultura

A certa altura da ficção futurista Bacurau fica-se sabendo que o sertão nordestino foi separado do chamado Brasil do Sul, que conservou para si apenas as praias paradisíacas da região. O povoado de Bacurau situa-se na terra desprezada (e não nomeada, talvez Brasil do Norte), “daqui a alguns anos”, numa sinfonia perturbadora mesclada de elementos de distopia emergente e de utopia resistente. Bacurau está sob ataque de um grupo formado majoritariamente por americanos, que caçam e matam seres humanos do Nordeste brasileiro pelo simples prazer de caçá-los e matá-los. “Por que vocês estão fazendo isso?”, perguntam repetidas vezes os bacurauenses, sem obter respostas.

Rodado no Sertão do Seridó, na divisa entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, o filme, que estreia nos cinemas na quinta-feira 29, tem sido acolhido calorosamente em festivais internacionais como o de Cannes (recebeu o prêmio do júri na competição principal) e o de Lima (melhor filme, melhor direção e prêmio da crítica internacional), à parte a provocação endereçada aos irmãos do Norte.

“A gente estava fazendo um western, que é um gênero genuinamente americano, e os westerns clássicos das décadas de 1940 e 1950 colocam os índios como os invasores. Nossa ideia era corrigir isso, porque a história real é completamente outra”, afirma um dos diretores pernambucanos, Juliano Dornelles, que assina o filme ao lado de Kleber Mendonça Filho, depois de ter cuidado da direção de arte dos dois longas ficcionais anteriores do cineasta, O Som ao Redor (2013) e Aquarius (2016). “O filme americano tem um registro muito dele, e a representação dos personagens estrangeiros no cinema americano tende a ser problemática”, explica Mendonça, que exemplifica com Um Dia a Casa Cai, uma produção assistida na adolescência, nos anos 1980. “Um Dia a Casa Cai começa estranhamente na Praia de Copacabana, num ritual de candomblé, e a mãe de santo está falando espanhol”, espanta-se.

Desta vez, a casa cai para os americanos, que são representados de forma propositalmente caricatural, como vilões chapados, hiperviolentos e sedentos de vingança contra não se sabe o quê. O ator alemão Udo Kier, que trabalhou com Wim Wenders, Gus Van Sant, Lars von Trier e Quentin Tarantino, interpreta o líder alemão dos estrangeiros, que se considera mais americano que os americanos do grupo. O contraponto a ele é a paranaense (e internacional) Sônia Braga, como a líder comunitária dos quilombolas, indígenas e demais desvalidos de Bacurau.

Os diretores contam que a ideia surgiu em 2009, quando, participando de um festival com Recife Frio, assistiram criticamente ao tratamento etnográfico dado por documentaristas a personagens brasileiros tidos como “simples”. “Alguns escalam esse tipo de preconceito e condescendência. Vimos os cineastas repetindo esse modelo”, descreve Dornelles. “Essa foi a chave, porque não era a televisão comercial fazendo isso, que é básico. Eram pessoas legais, fazendo filmes”, completa Mendonça.

O western subvertido. Brasil e Alemanha/Estados Unidos enfrentam-se nas figuras de Sônia Braga e Udo Kier, líderes de comunidades em guerra

De 2009 para cá, a abordagem dos preconceitos contra os ditos “simples” evoluiu para a compreensão geral rasa que o Brasil devota aos nordestinos e ao Nordeste. Eis aí outra das provocações centrais de Bacurau, povoado por personagens brasileiros negros, indígenas, mestiços, trans etc., versus estrangeiros brancos, altos e musculosos. A guerra se dá entre esses dois grupos simbólicos, e a reação dos nordestinos ao massacre, talvez utópica, não é da natureza da apatia tão habitual a nós brasileiros diante de todo tipo de abuso e arbitrariedade.

Como aconteceu com Aquarius, Bacurau apresenta um notável senso de timing em relação aos acontecimentos da chamada vida real. A trama de Aquarius, com cupins que corroem um edifício histórico do Recife, coincidiu com a deposição de Dilma Rousseff, que meses antes da estreia do filme descrevera o processo de impeachment como um fenômeno no qual a democracia era uma árvore corroída de dentro para fora por parasitas (cupins?). Em Bacurau, o Brasil levemente futurista é em tudo (e tragicamente) semelhante ao Brasil presente estraçalhado por Jair Bolsonaro. “Quando a gente filmou, Bolsonaro tinha 15% das intenções de voto, 15% de doidinhos que estavam soterrados em ódio”, descreve Dornelles.

A gravação acompanhou o abandono gradual da democracia no País

Mendonça revela a sequência dos fatos e da ficção: “Quando retomamos Bacurau, depois de Aquarius, nós estávamos nesse abandono gradual da rota democrática. E algo muito estranho começou a acontecer nos Estados Unidos. Donald Trump começou a parecer uma possibilidade. O filme antes do Trump era muito mais absurdo do que o filme pós-Trump”.

Quanto a Bolsonaro, Bacurau foi rodado entre março e maio de 2018, antes da facada, quando o candidato ainda parecia uma alternativa irreal. Os diretores comparam o modo jocoso como o hoje presidente se refere ao Nordeste com os episódios de preconceito “suave” que dizem sempre ter sofrido por serem nordestinos. O ponto de virada, aí, é a reeleição de Dilma em 2014. “Durante muitos anos, eu realmente sentia uma redução nesse tipo de incidente. Na reeleição, comecei a perceber algo estranho, como se fosse uma volta ao passado”, lembra Mendonça. “Aí houve uma onda muito forte de ódio contra os nordestinos nas redes sociais. Foi quando achei que tinha um primeiro sinal de que alguma coisa estava errada. Com o golpe e com os desenvolvimentos seguintes, a gente tem percebido isso cada vez mais.”

Os diretores Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho filmam em Barra, no sertão do Rio Grande do Norte /Foto: Victor Jucá

Dornelles faz o contraponto: “Na linha do tempo, a gente viu o resultado das eleições de 2018, e cai por terra aquele argumento de que ‘é porque eles são ignorantes, viciados em esmola’. A gente viu que o Nordeste não elegeu Bolsonaro”.

Os cineastas afirmam não haver resquícios de Luiz Inácio Lula da Silva no herói relutante representado no líder facínora Lunga (o cearense Silvero Pereira). “Lunga foi escrito como personagem trans, aí a gente achou essa pessoa incrível que é Silvero”, conta Mendonça. “Seria interessante ser um personagem trans por representatividade, por quebra de expectativa. Seria colocar o poder na mão de um personagem que poderia, por ser o que é, ser alguém fragilizado. Não, fragilizado nada, ele é o rei, a rainha disso tudo”, completa Dornelles.

 

Paralelamente à construção de Bacurau, Mendonça virou alvo do governo Michel Temer, quando um Ministério da Cultura em vias de extinção determinou ao diretor a devolução de 2,2 milhões de reais pela produção, com incentivo fiscal, do elogiado O Som ao Redor. Bem recebido em Cannes em 2016, Aquarius havia se tornado plataforma internacional para críticas públicas da equipe cinematográfica ao processo golpista em curso. “Eu não sabia que era tão perigoso. Não acho que eu ameaço nada. São só filmes, são só ideias”, reage o diretor. “Mas é claro que, se voltar para a história dos anos 1930 na Alemanha, a gente entende exatamente como funciona. Algumas pessoas acham que ideias são perigosas.”
Um recurso foi negado em abril deste ano e a batalha segue na Justiça, agora na instância do Tribunal de Contas da União. O diretor responde que se sente perseguido pelo novo poder constituído: “Acredito eu, mas todo mundo sabe que não faz o menor sentido. Não há precedentes na história do incentivo fiscal”.

“O Brasil é muito mais complexo, violento. E lindo”, frisa Mendonça

Nas telas, a batalha épica trava-se entre nordestinos e estadunidenses, e utiliza muitos recursos tipicamente hollywoodianos: armamento pesado, tiros, sangue, matança, mass shootings, ultraviolência. Somam-se a tais recursos as cabeças cortadas que remetem a Lampião, mas também, na concepção dos diretores, ao sistema prisional nacional e à violência a que estão expostos os moradores de favelas. “Há alguns dias teve uma rebelião em Belém e foram cortadas 24 cabeças, algumas jogadas por cima do muro e outras viraram bolas de futebol”, assinala Mendonça. “As coisas não são tão simples, tão cartesianas. O Brasil é muito mais complexo, violento. E lindo. E maravilhoso. E violento.”

Não há o prazer da ultraviolência tão comum em Hollywood, promete Juliano Dornelles: “É trágico, é triste, ninguém aqui está se divertindo em cortar cabeças. Tem muita raiva envolvida, sim”. Mendonça faz termômetro das reações coletadas ao fim do filme, que ele chama de pesadelo catártico. “O final termina funcionando de uma maneira muito estranha, uma combinação de vários elementos: luto, alívio, justiça, tragédia e uma grande merda, tudo junto”, diz. A ficção científica futurista, o western spaghetti e o filme de terror, aqui, estão muito próximos à vida atual dos nordestinos e demais brasileiros.

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Editor de Cultura de CartaCapital.

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