Cultura

Das palhaçadas

Todos agora querem ser engraçados, coisa que antigamente era exclusividade de certas profissões

O brasileiro pensou que isto aqui fosse um circo e virou palhaço
O brasileiro pensou que isto aqui fosse um circo e virou palhaço
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Meu amigo Adamastor, de uns tempos a esta data um leitor contumaz, me apareceu aqui em casa muito aborrecido com o Jorge Amado, por causa de seu primeiro livro. E, de suas críticas, pulei para a fotografia, porque é assim o livre associacionismo, desde os empiristas ingleses, mas sobretudo depois de Freud.

Descendo algumas quadras na ladeira do tempo, existiam máquinas que todos conhecíamos, e que chamávamos pelos nomes de Kodak, Canon, Sony, Nikon, Leica, Lumix e outras marcas menos votadas. Essas máquinas registravam um momento das pessoas, mas não só a forma física. Em geral, registravam também seus sonhos, suas vocações.

Lembro-me bem de um irmão, éramos crianças, então, e ele gostava de atividades físicas, cultivava seus músculos e quando percebia uma daquelas máquinas registradoras em sua frente, apontada para ele, fazia saltarem-lhe os músculos, o bíceps braquial, às vezes também o bíceps femural, sim, porque ele sabia esses nomes.

Ainda existem com a família e, se não se tornou atleta profissional, não deixou de a vida toda praticar coisas de atleta. Acho que não realizou sua vocação. Uma vizinha, que sonhava o tempo todo com um futuro de modelo, não podia ver uma dessas máquinas que não se sentisse numa passarela. Hoje está aposentada, mas foi modelo quanto quis.

Não pretendo tomar seu tempo com outros exemplos, porque são muitos, um tanto óbvios e acho que ninguém duvida de que eram vocações registradas como imagens.

Ora, ora, vejam só o que aconteceu. Coisa de duas décadas, pouco mais ou menos, para cá, fotografia, principalmente quando de um grupo, escolar, vicinal, familiar, qualquer grupo, não tem o menor prestígio sem que a maioria esteja entortando a cabeça, fazendo careta, contorcendo os braços, em nítida demonstração de uma vocação. Todos agora querem ser engraçados, coisa que antigamente era exclusividade de certas profissões.

Então volto ao Adamastor, o gigante que ficou indignado com o Jorge Amado, e leio o trecho que o aborreceu: “Diante da grandiosidade da natureza, o brasileiro pensou que isto aqui fosse um circo. E virou palhaço…”

O personagem está reclinado na amurada de um navio que o traz de Paris e eles se aproximam da costa brasileira.

O Jorge Amado, lastimo informar, faz alguns anos que deixou este mundo. Portanto, se você, como o Adamastor, quiser brigar com alguém, terá de ser com o autor de O País do carnaval, mas, para tanto, é necessário que vá arranjando uma escada. 

CartaCapital

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