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Da selfie à intolerância: o brasileiro agora se preocupa com a arte?

Cultura

Em 2014, quem visitasse no Instituto Tomie Ohtake a mostra “Obsessão Infinita”, de Yayoi Kusama, assumia um risco involuntário: dentre as milhares de obras expostas da artista, destacavam-se registros fotográficos de uma série de orgias promovidas em Nova York, na década de 1960.

Resultado: meio milhão de pessoas compareceram ao local; um público 400% maior do que aquele computado no mesmo período do ano anterior.

Evidentemente, o súbito e massivo interesse do público paulistano pela produção da octogenária japonesa – estando, para isso, disposto a aguentar quatro horas de fila sob intenso calor – surpreendeu a todos.

O sucesso, inclusive, expandia-se aos meios virtuais, onde o grande barato dos frequentadores era postar selfies feitas ao lado das obras. Conclusão possível: o brasileiro descobria-se, enfim, amante da arte contemporânea, ainda que preferisse apreciá-la posicionando-se de costas para as obras, com celular erguido à altura do rosto.

Passam-se três anos e, talvez por alguma questão evolutiva, os entusiastas da cultura resolvem girar o dorso e voltar encarar a arte de frente.

Surpresa: em pleno Museu de Arte Moderna de São Paulo, um cidadão pelado faz de seu próprio corpo um objeto passivo de toque. Uma menina se aproxima, curiosa, tocando em seu pé. Algumas semanas antes, em Porto Alegre, quadros representando crianças nuas estavam à disposição do público; outros, supõe-se, mostravam homens em flerte com animais.

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E, nessa degenerescência nacional, nem Jesus foi poupado: não por seu vestuário, claro, pois já estamos acostumados com sua predileção pelo seminu, mas, pior ainda!, por ser interpretado por uma transexual em peça no Sesc Jundiaí.

Os escândalos inauguraram, assim, um terceiro modelo de apreciação artística – este um verdadeiro milagre: não se faz mais necessário sequer entrar no museu para julgar o seu conteúdo; basta chegar à fachada com cartazes difamatórios.

Até mesmo algumas celebridades, conhecidas por seu histórico de castidade, resolveram protestar: Alexandre Frota foi ao museu (talvez pela primeira vez) e deixou seu depoimento – “se esse homem nu estivesse aqui hoje, eu ia ‘levantar ele’”.

Sem forças para fazer a mesma promessa, uma idosa levantava, por sua vez, uma cartolina que comprovava sua boa leitura da Constituição: “Pedofilia é crime”, escreveu em letras de forma.

Ironias à parte, o trabalho de quem escreve ou pensa sobre o tema torna-se cada vez mais difícil: já não há mais novos argumentos, crônicas ou artigos que tornem ainda mais evidentes o descalabro de todas estas declarações e manifestações.

Afinal, toda escrita é um diálogo e, como conversa, pressupõe abertura do ouvinte em ter suas opiniões confrontadas, reavaliadas.

Infelizmente, impera no Brasil, porém, a lógica do panelaço: dialogar já não interessa – perdeu-se prática e capacidade.Ganha quem falar mais alto. Perde quem fica sem voz e, no fim das contas, quem nunca teve voz para saber como é perdê-la, dificilmente terá acesso aos museus e suas obras.

A arte só cumpre seu papel quando deixa de ser cenário de selfie para tornar-se arena política; doloroso é que o sucesso da empreitada artística tenha como contrapartida revelar um país flertando assustadoramente com a própria ruína.

Quando o termo usado para descrever a nudez na arte é exatamente o mesmo que se usa para condenar a exploração sexual de uma criança, algo está errado. De duas, uma: ou o problema está na língua portuguesa ou no cinismo daqueles que a utilizam. Façam suas escolhas.

* Felipe Poroger é diretor do filme “Aqueles Anos em Dezembro” e responsável pelo Festival de Finos Filmes, mostra paulistana de curtas

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