Cultura

Da inveja

Existe uma inveja perniciosa, que corrói o caráter como ácido. É a inveja cobiçosa

Como em filosofia não sou nada platônico, para falar da inveja me sinto mais seguro falando do invejoso. Prefiro a indução. E com isso concorda meu compadre Adamastor, o sábio, com quem conversei sobre o assunto na semana passada. Entre um gole de chope e uma rodela de salame, ele discorreu sobre a inveja, começando por sua divisão em dois tipos diferentes.

O Adamastor tem a mania da classificação.

Existe uma inveja perniciosa, pontificava meu compadre, que corrói o caráter como ácido. É a inveja cobiçosa. O invejoso atacado por esse tipo de deformação é imobilizado por um ódio rasteiro capaz de o levar a cometer qualquer tipo de maldade. Claro, ele não tem nem é o que tem ou é seu vizinho.

A imobilidade de que ele é atacado tira-lhe o gosto pela vida num processo de alter e autodestruição que o torna muito infeliz. Ele está sempre muito perto de caluniar quem tiver boa reputação ou de quebrar a vidraça de uma casa melhor que a sua. O invejoso cobiçoso acaba tornando-se um ser antissocial, que olha para os outros por cima do ombro e com olhar oblíquo, cheio de veneno. Ele não acha justo que o outro seja ou tenha o que ele não é nem tem.

A outra inveja, afirmou o Adamastor, é benéfica, saudável. Sem melhor nome, o Adamastor chamou a essa de inveja ambiciosa. O invejoso deste outro tipo vai à luta, está sempre preocupado em aprimorar-se, em ser melhor hoje do que ontem, em mudar sua vida empregando o próprio esforço.

Este invejoso, diferente do outro, é capaz de amar tudo aquilo ou todo aquele que o impulsionam para a frente. E sente-se feliz com o que conquista, por pouco que seja, uma vez que tenha expandido seus próprios limites.

Os progressos de seu vizinho são motivações, são impulsos para que ele também progrida. Ele não quer o que é do outro, como no caso do invejoso cobiçoso, mas acha que também merece e, para tanto, parte para o esforço com esse objetivo.

Tem-se visto muita inveja cobiçosa nos dias que correm, com pessoas que fazem uso de qualquer recurso, geralmente ilegítimo, para se apropriar daquilo que não é seu. Foi a reflexão de meu amigo depois de um longo silêncio, esquecido do chope e do salame.Ele parecia buscar alguma coisa dentro de si. 

Por fim, encerrou o assunto de forma lacônica: Mas no capítulo da inveja, fez nova pausa, prefiro ser invejado.

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