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Crônica de uma casa insubmissa

A escritora colombiana Laura Ortiz Gómez, em seu romance de estreia, dá voz a uma mansão que assiste a uma greve de inquilinos na Argentina

Crônica de uma casa insubmissa
Crônica de uma casa insubmissa
Laura defronta a aristocracia e duas empregadas – Imagem: Catalina Bartolomé
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Em uma mansão construída no fim do século XIX, no bairro de San Telmo, em Buenos Aires, vive uma típica família aristocrática portenha, os Núñez-Ortega. Lá também moram as duas empregadas, as imigrantes ucranianas Vira e Olena.

Enquanto lidam com os caprichos e os maus-tratos dos patrões, as jovens experimentam, às escondidas, uma paixão mútua. O equilíbrio cotidiano é ameaçado pela chegada de Taras, irmão de Vira, que passa a morar na casa sem que os donos saibam.

Eis o início da trama de Indócil, primeiro romance da colombiana Laura Ortiz Gómez, que estreou na literatura com a premiada coletânea de contos ­Sofoco, ainda sem tradução para o português.

Taras comete pequenos furtos, transferindo os objetos surrupiados para um rincão oculto da casa. Contestatário e anarquista, o rapaz busca desafiar, a seu modo, a ordem dominante.

No início do novo século, quando as famílias ricas começaram a deixar o bairro e uma nova leva de imigrantes chegou à Argentina, os casarões de San Telmo tornaram-se cortiços.

Os altos aluguéis e o aumento desmedido dos impostos provocaram uma reação popular memorável, liderada por mulheres. A “Greve das Vassouras”, como ficou conhecida, ocorreu em 1907 e mobilizou milhares de inquilinos de todo o país.

Indócil. Laura Ortiz Gómez. Tradução: Mariana Sanchez. Arquipélago (200 págs., 69,90 reais)

As personagens de Indócil participam desse momento histórico. E o que torna a narrativa ainda mais original é o fato de que não só os humanos oferecem sua perspectiva, mas também os seres – aparentemente – inanimados.

Dona de uma memória que atravessa os tempos, a casa se revela tão insubordinada quanto seus moradores proletários. Irrita-se com o senhorio, reage diante das situa­ções opressivas e, de certa forma, participa da greve. É ela quem conduz a trama.

Surpreendente também é o lamento dos ossos de uma menina indígena, do povo tehuelche, que vão parar na casa enquanto o proprietário, Demétrio Núñez-Ortega, ainda vive lá. Os ossos ecoam a lembrança de expropriações e massacres no território argentino.

Laura Ortiz cria uma história de alta voltagem política, por meio de uma linguagem poética, que beira o delírio. Não à toa o termo “lúbrico” é recorrente. Em certos momentos, porém, o tom lírico torna-se excessivo.

A casa de San Telmo acompanhou os protestos dos grevistas e continuou a assistir aos embates por moradia digna que se sucederam. Embora feche os olhos por longos anos, no livro, ao menos, ainda está de pé – com suas recordações e seus fantasmas. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Crônica de uma casa insubmissa’

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