Crise na Ancine impede que centenas de novos filmes sejam lançados

Entre disputas internas pelo comando e repetidas cobranças do TCU, agência mergulhou numa crise que atingiu o ápice em 2019


Socorro internacional. A finalização de Regra 34 (acima), de Júlia Murat, ­tornou--se possível graças a uma ajuda vinda da Suécia. Tatiana Leite (à dir.), uma das produtoras do filme, diz ter visto seu trabalho estancar nos últimos três anos. (FOTO: Equina Filmes e Leo Lara/Universo Produção)

Socorro internacional. A finalização de Regra 34 (acima), de Júlia Murat, ­tornou--se possível graças a uma ajuda vinda da Suécia. Tatiana Leite (à dir.), uma das produtoras do filme, diz ter visto seu trabalho estancar nos últimos três anos. (FOTO: Equina Filmes e Leo Lara/Universo Produção)

Cultura

Três anos atrás, a produtora Tatiana Leite despontou no cinema brasileiro com Benzinho, longa-metragem dirigido por Gustavo ­Pizzi que participou dos festivais de ­Sundance e Rotterdam e ganhou 12 prêmios nacionais e internacionais.

Hoje, Benzinho está disponível na Apple TV, no GloboPlay e no Telecine. Tatiana, por sua vez, viu seu trabalho estancar e, recentemente, decidiu mudar-se com a companheira, que é francesa, do Brasil para a França. “Nós duas trabalhamos com cinema e a situação ficou delicada no Brasil e, em especial, no Rio, onde sequer existem apoios locais para a produção”, diz.

Antes de abrir sua produtora, a Bubbles ­Project, há oito anos, Tatiana foi curadora. Sua proximidade com o circuito internacional de cinema de arte possibilitou que a empresa, desde o início, realizasse coproduções com outros países. O modelo foi, porém, inviabilizado pela crise da Agência Nacional do Cinema (Ancine).

“Tive que pedir para sair de dois projetos, um argentino e um francês, e levei dois anos para liberar os recursos de uma produção que envolve filmagens na Mauritânia e na Guiné”, diz, referindo-se a Amanhã Será Outro Dia,  novo trabalho do cineasta português Pedro Pinho. “Estávamos produzindo um filme por ano e, de repente, nos vimos assim, um pouco sem saber como nos mover.”

 Realizadores não conseguem pagar a pós-produção ou a trilha sonora de trabalhos antigos

A última vez em que Tatiana pisou num set foi no início de 2019, nas filmagens de Regra 34, de Júlia Murat, do qual a ­Bubbles é coprodutora. Apesar de estar rodado e montado, o filme, até o mês passado, não tinha como ser concluído, por falta de recursos para a pós-produção, etapa que antecede o lançamento.

A salvação veio da Suécia. Durante o último Festival de Cannes, o filme recebeu um prêmio de finalização, no valor de 35 mil euros, de um fundo criado pelo Festival de Gotemburgo para apoiar cinematografias em dificuldade. Além de Regra 34, havia 144 projetos brasileiros filmados, mas inconclusos, concorrendo.

Um censo feito pela Associação Paulista de Cineastas (Apaci), ao qual ­CartaCapital teve acesso, mostra que entre os 65 filmes em produção em São Paulo, 28 aguardam recursos para finalização ou lançamento. De acordo com a Ancine, existem cerca de 1,8 mil projetos “em execução”, ou seja, que tiveram parte do orçamento liberado, mas não foram lançados. Eles somam 2,2 bilhões de reais e datam de até oito anos atrás. A agência não tem ideia das etapas em que cada um se encontra.

Procurada, a assessoria de comunicação da Ancine informou que o órgão dará início a um levantamento para saber, entre outras coisas, quantos desses filmes foram rodados ou estão no papel. Serão enviados formulários aos produtores para que eles informem em que pé os projetos estão e do que necessitam para seguir.

PROCESSO SEM FIM. Ateliê da Rua Brum, filmado em 2016 e inacabado, era supostamente o primeiro longa-metragem de Dornelles, codiretor de Bacurau. (FOTO: Miguel Bueno/NIFF )

 

A crise da finalização, recorte específico, mas simbólico, de uma crise mais ampla, revela-se não apenas nos dados da Apaci e de Gotemburgo, mas em relatos, muitos em off, de profissionais. Há, por exemplo, filmes selecionados para festivais internacionais que se viram na iminência de ter de recusar o convite por falta de dinheiro para o pagamento da trilha sonora – sem isso, não pode haver exibição pública.

Camilla Larson, coordenadora do fundo de Gotemburgo, se diz chocada com o número de inscrições brasileiras: 600 ao todo, sendo 145 para o prêmio de pós-produção e os outros para desenvolvimento . “Os números demonstram quão urgente e massiva é a necessidade enfrentada pelos realizadores do País”, afirma.

Rafael Sampaio, representante do fundo sueco no Brasil, espantou-se menos que Camilla, mas admite que não esperava um número tão grande de filmes rodados, mas inacabados. Diretor do BRLab, que apoia o desenvolvimento de filmes e séries, ­Sampaio está, há três anos, vendo o funil estreitar-se. “Durante muito tempo, apoiamos projetos que estavam começando, mas fomos vendo a demanda mudar para projetos iniciados e paralisados”, diz.

 

 

Sampaio foi, ele próprio, contratado pela Ancine em 2016 para organizar oito laboratórios voltados para projetos contemplados numa linha destinada ao desenvolvimento de ideias. Passaram por suas mãos 103 filmes e séries. Os laboratórios encerraram-se em 2018, e Sampaio diz ter tomado conhecimento de pouquíssimos projetos concluídos – menos de 15%.

O próximo BRLab, em outubro, trará nova categoria criada em parceria com outras entidades da sociedade civil destinada a atrair parceiros internacionais para os filmes que estão pelo caminho. Para concorrer ao BRLab CoPro, será preciso ter ao menos 30% do orçamento captado.

Outra instituição que se viu impelida a readequar seu propósito ao cenário atual é o Projeto Paradiso, ação filantrópica voltada ao audiovisual. No momento de criação do projeto, em 2018, foi feito um estudo que constatou que havia muito dinheiro para a produção, mas que boa parte dos filmes não tinha nem repercussão crítica nem bons resultados de público. O foco do Paradiso passou a ser então o apoio à qualificação de profissionais e projetos.

“Tínhamos um propósito muito claro, mas, no fim do ano passado, na reunião de Conselho, nos perguntamos: ‘Somos os violinistas do Titanic?’”, conta ­Josephine Bourgois, diretora executiva do Paradiso. Da pergunta nasceu um novo apoio, chamado “last money” (dinheiro final), que consiste num apoio de 10 mil dólares a ser usado no orçamento de finalização.

A Ancine registra hoje cerca de 1,8 mil projetos em aberto, alguns de até oito anos atrás

A instituição também tem ajudado filmes que são selecionados para festivais internacionais, e não conseguem apoio do Estado para a representação. Esse apoio é praxe em vários países, uma vez que ter um filme no Festival de Cannes, por exemplo, é significativo dentro do que se chama de soft power. Aqui, até o governo Bolsonaro também era.

A distrofia que agora se impõe insere-se num quadro de que tem, como primeiro marco, um relatório feito pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em 2017. À altura, o órgão de controle apontou para o risco de colapso na política de fomento, afirmando que a capacidade de análise e acompanhamento da agência não era compatível com o volume de produção.

Entre disputas internas pelo comando da agência e repetidas cobranças do TCU, a Ancine foi mergulhando numa crise que atingiu o ápice em 2019. Nesse ano, Bolsonaro ameaçou extinguir a agência, um dos diretores foi afastado por causa de um processo judicial e a diretoria colegiada passou a funcionar com um único integrante – em vez de quatro.

No ano passado, enquanto a pandemia fechava as salas de cinema e inviabilizava os sets, produtores entravam com mais de 200 ações judiciais contra a agência, para conseguir a liberação de recursos que estavam presos havia pelo menos dois anos.

Após as ações individuais, cobranças feitas pelo Ministério Público Federal e a elaboração de um plano de ação aceito pelo TCU, os recursos de antigos editais começaram a ser, pouco a pouco, liberados. O drama dos filmes inacabados não se resume, contudo, à existência de dinheiro . A origem dos problemas está, muitas vezes, em instruções normativas e regramentos que foram sendo alterados ao longo dos anos e nas novas exigências do TCU.

“Me sinto num processo draconiano de burocracia. Chega a ser difícil explicar o que exatamente está acontecendo com a gente”, diz, entre a perplexidade e o desespero, Juliano Dornelles, codiretor de Bacurau (2019). Dornelles vivencia, desde 2016, uma saga administrativa com Ateliê da Rua Brum, rodado naquele ano no Recife antigo. Assim, aquele que seria seu filme de estreia na direção, acabará sendo o segundo ou, quem sabe, mesmo terceiro.
O projeto foi contemplado numa linha voltada à regionalização. A Ancine se comprometia a dar dois terços dos recursos dos filmes quando estados e prefeituras entrassem com um terço. O Funcultura (PE) colocou R$ 300 mil em Ateliê da Rua Brum. Com esse valor e mais 60 mil reais obtidos com patrocínio empresarial, o filme foi rodado.

AMEAÇAS. A crise da agência envolve governo e auditorias do TCU. (FOTO: Arquivo/ABR)

“Depois disso, pedimos o redimensionamento do orçamento para a Ancine, mas o pedido foi engavetado e, a partir disso, é como se tivéssemos perdido todos os prazos”, diz Dornelles. “Chegamos a levar sete meses para receber a resposta a um e-mail. Quando veio a resposta, o prazo para fazer o que sugeriam tinha expirado.” Questionada, a Ancine afirmou que não comenta casos específicos, mas confirmou que o projeto está em diligência, acrescentando que “as exigências demandadas estão previstas nas normas vigentes, que são públicas”.

As dificuldades enfrentadas no âmbito federal fazem, inclusive, com que recursos vindos de estados e municípios estejam presos da Ancine. Até 2020, bastava ter 50% do orçamento para acessar a verba e iniciar a produção. Agora, o porcentual é de 80%.

Em 2018, 185 longas-metragens brasileiros estrearem nos cinemas; em 2019, 169. A sobreposição entre a crise da Ancine e a pandemia faz com que seja impossível, neste momento, arriscar qualquer palpite sobre o futuro do mercado independente, inclusive porque parte dele vai encontrando refúgio no streaming.

Silvia Cruz, sócia da Vitrine, distribuidora que mais títulos brasileiros colocava no mercado até 2019, diz que ainda tem muitos filmes para lançar nas salas. Mas entende que o futuro já mudou. “A crise tem um impacto para os próximos anos e a Vitrine, especificamente, entendeu que precisava começar a comprar também filmes estrangeiros para se manter”, afirma.

Na sexta-feira 6, o Comitê Gestor do Fundo Setorial do Audiovisual, que abriga boa parte dos recursos destinados à produção, aprovou novas linhas de apoios ao setor no valor de 473 milhões de ­reais. Uma delas, de 40 milhões de reais, destina-se, justamente, à complementação de recursos para filmes em “avançado” estágio de realização.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1170 DE CARTACAPITAL, EM 13 DE AGOSTO DE 2021.
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