Criolo: “Todas as camadas sociais vão sofrer as consequências”

Rapper mira suas críticas no governo e diz que 'o ódio hoje legitimado e alimentado apresenta sua pior versão cruel e assassina'

Criolo: “Todas as camadas sociais vão sofrer as consequências”

Cultura

A atual turnê de Criolo tem o nome do single “Boca de Lobo”, uma crônica social ácida do engajado rap nacional, do qual o cantor e compositor é um dos expressivos representantes.

Diz em um trecho da música: “Se ‘três poder’ vira balcão, governo vira biqueira / Olhe, essa é a máquina de matar pobre! / No Brasil, quem tem opinião, morre!”

Criolo discorre numa conversa sobre a força incomum para continuar a luta pela sobrevivência e a música como instrumento de transformação.

“Cada barraco tem uma história de superação, amor e resiliência, passando fome e bebendo água do poço que fica do lado de um córrego. Gente morrendo na frente de uma criança de 5 anos. Isso não se esquece.”

O rap como expressão das desigualdades sociais, da realidade cotidiana da maioria e do amor como grande vitória em tempos de guerra.

“Existe um plano frio muito bem pensado. Criar um campo de concentração em cada canto do Brasil, numa luta incessante para destruiu a autoestima e sobrevivência de nosso povo.”

Mas crê em dias melhores e na força dos jovens, apesar de quererem enfraquece-los com repressão e sucateamento das escolas públicas, “num Estado que oferece futuro extremamente cruel e seletivo”.

O vídeo clipe lançado este ano, “Etérea”, remete à quebra de padrões, com várias performances de coletivos LGBTQIA+. A música contraria o discurso oficial com relação às causas ali sugeridas na composição.

“O Estado não assume ser um Estado que gesta preconceito e o que já vem acontecendo desde sempre se escancara com o número de mortes. O ódio hoje legitimado e alimentado apresenta sua pior versão cruel e assassina”.

Amor, serenidade e verdade

De acordo com Criolo, a música “Etérea” sintetiza a importância do diálogo com amor, serenidade e verdade.

“Sem diálogo real é impossível uma mudança. A música é só uma moldura. As artistas que participaram do clipe e do documentário, seus coletivos e todas as questões que levam a sociedade através de sua arte, é que são os protagonistas desse trabalho”.

A temática da música “Menino Mimado” (o refrão diz: “Meninos mimados não podem reger a nação”), apresentada no seu quinto e último disco “Espiral de Ilusão” (2017), parece ter sido uma profecia do que ocorre na atualidade, de uma sociedade fragilizada e regida por gente protegida.

“Todas as camadas sociais vão sofrer as consequências dessa triste escolha. O impacto primeiro é como sempre nas camadas mais frágeis da sociedade”. Porém, ressalta: “Sinto que alguma coisa muito grande vai acontecer”.

Samba de comunidade de São Paulo

Aliás, falando no álbum “Espiral de Ilusão”, um registro de samba, Criolo exalta os grandes sambistas que tem convivido – o gênero tem tanta relevância em seus trabalhos como o rap.

Menciona o Pagode da 27, um dos mais antigos movimentos de samba de comunidade de São Paulo, localizado no Grajaú, no extremo da zona sul da capital paulista, onde o cantor e compositor foi criado, como seu grande centro da energia e resistência.

Dois mestres do samba de sua convivência nessa jornada são lembrados com redundância: Guto Bocão e Mauricio Bade.

“São percussionistas griôs (numa referência aos indivíduos responsáveis por transmissão oral de história originários da África) e seus ensinamentos já salvaram a vida de muita gente, com uma musicalidade vinda da alma, algo que não se explica. Poder conviver com essas lendas é uma grande honra”, conclui.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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