Compositores do samba urbano são perpetuadores do gênero

Dois livros recém-lançados contam histórias de sambistas; extrai-se das obras como composições e realizações mantêm o samba em evidência

Foto: Nego Júnior

Foto: Nego Júnior

Cultura

Uns fazem sambas arrebatadores. Outros criam encontros aglutinadores do gênero. Dois livros recém-lançados demonstram como personagens, cada um a sua maneira, perpetuam o samba.

Três Poetas do Samba-Enredo – Compositores que Fizeram História no Carnaval (Editora Cobogó) trata dos rumos do carnaval, as mudanças na forma de compor para os desfiles, as imposições para se obter recursos para colocar a escola na avenida e, também, a vida de três personagens humildes que, por paixão ao samba, conseguiram deixar marcas significativas do gênero muito além dos já convertidos ao meio.

 

 

Aluísio Machado, compositor do Império Serrano, tem 14 sambas-enredo vencedores na escola. Aos 14 anos, abandonou os estudos para ajudar a família. Autor do clássico Bumbum Praticumbum Prugurundum (1982) (“formidável onomatopeia”, segundo Carlos Drummond de Andrade), ao lado de Beto Sem Braço, é um contestador sútil e inseriu o termo “superescolas de samba S.A.” na composição, que tem um significado emblemático para onde caminhavam os desfiles de carnaval.

Das composições que fez ao longo da vida (ele está hoje com 81 anos e vive no Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro), teve várias músicas gravadas por conhecidos intérpretes do samba. Na ditadura militar, após ser detido para averiguação, escreveu uma música em que dizia: “Se o cristo aqui voltar / Com a intenção de nos salvar / Será preso, algemado / E nem vai poder falar”.

Outro grande vencedor de sambas-enredo (sete vezes), dessa vez na vizinha Portela, David Corrêa, o segundo personagem do livro Três Poetas do Samba-Enredo, foi aos 13 anos dar expediente em oficina de pintura de carro para levar dinheiro para casa.

Tinha consciência de classe e foi engajado na luta por recebimento de direitos autorais de compositores. Ganhou samba-enredo na escola de Oswaldo Cruz, em parceria com Jorge Macedo, em 1981, com versos inesquecíveis: “O mar, ô o mar, por onde andei mareou, mareou / Rolou na dança das ondas, no verso do cantador / Dança que tá na roda, roda de brincar / Prosa na boca do tempo e vem marear”.

É autor de Mel na Boca, sucesso na voz de Almir Guineto. Concorreu com samba-enredo na Mangueira e levou em 1994 com o clássico refrão “Me leva que eu vou, sonho meu / Atrás da verde rosa só não vai quem já morreu” (composta em parceria com Bira do Ponto, Paulinho e Carlos Sena). Morreu de insuficiência renal ano passado, mas foi um dos mais importantes compositores de samba-enredo de todos os tempos, capaz de colocar o gênero na boca de muita gente que nunca pisou numa escola de samba.

Hélio Turco é o terceiro poeta. Não tinha um ano de vida, quando mudou-se para Mangueira. E lá está há 85 anos. Venceu 16 sambas-enredo na verde e rosa. É um dos autores (ao lado de Jurandir e Alvinho) da obra-prima “Pergunte ao criador / Quem pintou esta aquarela / Livre do açoite da senzala / Preso na miséria da Favela”. O samba-enredo foi feito para o centenário da Abolição da escravatura. Conhece como ninguém as vielas e mazelas, de quem passou a vida no morro – refletido piamente nesta composição.

Comunidade

Autores de Voz de um Samba, a Vez de um Povo – Histórias da Comunidade Samba da Vela (independente) foram ouvir personagens da afamada roda de samba que transformaram a vida com a participação no projeto, e também de seus criadores.

Em julho de 2000, Chapinha, Magnu, Maurílio e Paqüera passaram a se reunir num bar na Zona Sul de São Paulo para apresentar sambas inéditos. Daí surgiu o Samba da Vela, que atraía cerca de 500 pessoas já nos primeiros meses de criação. Pouco tempo depois foi instalado na Casa de Cultura de Santo Amaro, onde está até hoje. Tornou-se um dos principais projetos de compositores da samba e que espelhou outros encontros semelhantes na capital paulistas e no País.

Chapinha nasceu em São João de Uruburetama, no Ceará. Perdeu o pai aos cinco anos. A mãe três anos depois. Recém-nascido, ainda perdeu dois irmãos. Naquele sertão sofrido, de alta vulnerabilidade e órfão de pais, em 1974, aos 14 anos, desembarcou em São Paulo. Das rodas de samba depois do futebol, foi parar na escola de samba Vai-Vai. Apresentou sambas e se estabeleceu compositor. É seu hoje o papel de levar a bandeira do Samba da Vela à frente.

O apelido Paqüera é porque carregava as vísceras de porco, animal criado pelo vizinho em Santa Amaro, para fazer linguiça. Paqüera ou pacuera (na nova ortografia) significa tripa. Teve músicas gravadas por Beth Carvalho, Eliana de Lima, entre outros. Tornou-se um crítico da indústria da música. Morreu de um câncer raro em 2014, mas dividiu com Chapinha até o seu falecimento a função de organizar a roda semanalmente.

Os irmãos Magnu e Maurílio eram filhos de músico profissional. Com a morte da mãe, mudaram-se para casa de parentes de vida muito modesta. Foram parar em Santo Amaro, até formarem o grupo Quinteto em Branco e Preto em 1996 – o grupo perdurou até início de 2014, deixando quatro álbuns gravados. Formaram então os Prettos, levando a tradição da cultura negra, como eles próprios definem.

Personagens do samba talentosos, de origem simplória, de escolas de samba e de comunidades, dignificaram o samba, com composições inesquecíveis e capacidade de agregar pessoas em torno de um projeto de valorização do gênero que se confunde com a história do país.

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Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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