Como se sente um matador de aluguel? Martin Scorsese responde

Em O Irlandês, diretor filma a impactante saga sobre a relação sanguínea entre o crime e a democracia nos EUA

Pacino e De Niro: velhos parceiros.

Pacino e De Niro: velhos parceiros.

Cultura

Como se sente um matador de aluguel? Que tipo de limite há na irmandade do crime? Com quantos litros de sangue se construiu a história “democrática” da grande nação norte-americana?

Martin Scorsese dirigiu um épico de três horas e meia de duração que dá conta de responder simultaneamente essas questões, ao mesmo tempo que é um rigoroso exercício de construção da antropologia das sociedades do crime. O Irlandês, que chega ao serviço de streaming Netflix no dia 27, é uma saga do porte daquela contada em O Poderoso Chefão, agora embebida em toques de humor e um contato mais íntimo com a verossimilhança histórica.

Scorsese utiliza todo o arcabouço físico da cinematografia de gângster consolidada pelo cinema, mas inverte um pouco as expectativas. Assim, Robert De Niro, intérprete de todo tipo de italiano no cinema (em nove filmes, precisamente, ao lado de Martin Scorsese), agora veste a pele de um irlandês, Frank Sheeran, um devotado capanga que é empregado por um mafioso, Russell Bufalino (Joe Pesci) – em princípio, apenas para trabalhos fugazes e pouco incriminadores. Até que um poderoso diretor de um sindicato, Jimmy Hoffa (Al Pacino), pede à Máfia um segurança discreto e confiável para acompanhá-lo nas agitações e disputas do movimento sindical. Russell manda Frank Sheeran para Hoffa, e ambos crescem a partir dessa associação.

O filme é baseado no livro do promotor Charles Brandt, I Heard You Paint Houses. Brandt revela ali uma série de conversas com o matador de aluguel Frank Sheeran. Numa delas, Sheeran conta como se deu o chocante assassinato de Jimmy Hoffa, que era seu melhor amigo, por determinação da Máfia, em 1975. O corpo de Hoffa nunca foi encontrado. Além desse fato controverso, alicerçado no livro, o filme de Scorsese trata do relacionamento desinibido das máfias com a política e dos principais acontecimentos de um período (como a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, e o assassinato de John Kennedy), com notável desenvoltura.

O personagem de Sheeran é, na origem, uma confusão entre o crime e a legalidade – uma das cenas mais fortes é quando Frank, que serviu na Itália na Segunda Guerra, obriga dois prisioneiros alemães a cavarem a própria cova e os executa em seguida, numa violação (sistemática e sabida pelo seu comando) da Convenção de Genebra. O filme é explícito: praticamente toda a opulência financeira de uma nação (os hotéis de Las Vegas, como a rede Caesar’s, os parques temáticos, as grandes carreiras artísticas, como a de Sinatra: tudo foi recheado com dinheiro sujo).

O Irlandês ultrapassa a fronteira dos filmes clássicos de gângsteres. Foto: Niko Tavernise/Netlfix US

Possivelmente, é o maior filme da vida de Joe Pesci. Scorsese o retirou de uma semiaposentadoria para o papel, e ele consegue ser superior ao Jimmy Hoffa de Al Pacino, que está simplesmente arrebatador. Pesci oscila entre o rigoroso executivo do crime e o angustiado amigo íntimo dos finais de semana, agoniado por saber que é rejeitado pelas crianças pela reputação de criminoso. Quase toda a força dramática do filme consiste nessa ambivalência: os homens mais temidos e mais frios experimentam essa ausência de reconhecimento afetivo, de empatia, simbolizada mais fortemente na relação entre Sheeran e sua humanista filha Peggy (Anna Paquin).

Acontece que as explosões dos gângsteres de Scorsese, até aqui (como, por exemplo, em Os Bons Companheiros), se construíam sobre uma alternância de placidez e psicopatia, um quadro de insanidade psiquiátrica em movimento. Em O Irlandês, não há essa alternância, apenas a decisão dura e fria de se esgotar a resolução das coisas pela via “diplomática”, da extorsão ou da chantagem. Então, resta somente a pólvora. As mortes são coreográficas, parecem balés em dois tempos (enquanto um homem se afasta em passos rápidos, o outro está caindo com as mãos no bolso do casaco de couro, lentamente).

A opulência financeira sustentada com dinheiro sujo

Balançar Al Pacino (79 anos), Joe Pesci (76 anos) e De Niro (76 anos) numa gangorra de idades que variam entre menos de 40 e mais de 80 anos, continuamente, é talvez a trucagem que mais chame atenção em O Irlandês. O resultado, embora muitas vezes De Niro pareça personagem de um filme da Marvel, é no geral bem impressionante. Repara-se mais na transmutação de De Niro, obviamente, porque é o personagem central, mas a fúria gestual de Al Pacino e o encolhimento progressivo de Joe Pesci fazem com que a arte prevaleça sobre a tecnologia, e quase não atentamos aos truques que rejuvenescem ou envelhecem.

Scorsese ultrapassa a fronteira da potência do filme clássico de gângster, explorando pela tecnologia a degenerescência existencial e física de seus protagonistas. Entremeia cenas de melancolia cotidiana, o ex-assassino entregue ao cuidador de idosos, com outras de potencial cômico irresistível, como o momento em que o capanga vai à agência funerária escolher um caixão de defunto. Ao se verem acossados pela condição humana, os antigos onipotentes agarram-se à igreja e às pílulas, mas seguem distantes de compreender seu trajeto de destruição e o vazio ético contido em suas pegadas. “Hoffa era um bom homem”, diz Russell ao seu ex-ajudante de ordens durante um jantar em que, desdentado, chupa suco de uva embebido em pão. Sheeran apenas concorda. Afinal, não é feita de homens bons a construção de nossa confiança no futuro, parece dizer, justificando a brutalidade com o mesmo cinismo que se repete, ciclicamente.

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Editor de Cultura de CartaCapital.

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